terça-feira, 25 de setembro de 2018

NÃO TEM VOLTA!


Quando vi a imagem de Valéria Lúcia dos Santos jogada ao chão e algemada foi como se meu corpo pudesse sentir todo o peso daquela cena... Nela estavam Valéria, eu e todas as outras que vão por aí ousando a serem e estarem além do que a branquitude imaginou pra nós.


Valéria sentiu na pele. Foi no corpo dela aquela violência, e não há como reivindicar aquela dor e aquela humilhação. Mas nós, corpos negras, sabemos em cada milímetro os recortes daquela cena... Ser a louca, a desvairada, a radical, a agressiva, a exagerada a ponto de ter que ser contida como um sinal do quanto que ali não cabemos. Ali. Naquele lugar e por outros tantos. Lugares símbólicos e concretos de tudo aquilo que representa o nosso não poder ser, o nosso não poder ir, o nosso não poder falar, o nosso não. Sempre não. Das portas que se fecham, dos silêncios que nos impõem.


A Valéria no chão é o retrato bem desenhado de todas nós jogadas na invisibilidade, no silêncio, no descaso, no desrespeito, no assédio. Qual saúde mental resiste à isso? Qual experiência de afeto se constrói no meio de tanta violência? Diária. Ininterrupta. Presente. Forte.


Mas não. Vão nos dizer que não é nada disso! Que aquele assédio não foi bem assim. Que aquele desrespeito não é bem desse jeito, que aquele descaso é um mal entendido...


Mal entendidas, mal aceitas, mal vividas, mal quistas, mal gente... Assim é. Assim nos pintam com as tintas impressas em nossos corpos que avançam! Que se querem livres! Que se sabem firmes! Que caminham poderosos. Porque é assim! Caminhando. Avançando! Não tem volta!


“Uma afronta! Lá vai ela... Aquela nêga metida! Voluntariosa! Indisciplinada! Barraqueira! Insubordinada! Olha lá! Não tem modos, aquela crioula! Não deixem que vá! Invente coisas a seu respeito! Crie discursos! Imagine regras! Limite-a! Faça com que se sinta doida! Sem lugar, sem rumo, sem destino, sem credibilidade, sem confiança! Escrevam nela o que dizemos que ela é! Maldita!”


Mas as palavras não saem. Elas são só gestos, olhares, silêncios, combinados, acertos. Não são palavras de verdade. Não são olho no olho. São espreitosas. São covardes. São tirânicas e violentas. Não são ditos. São não ditos que nos querem no chão. Humilhadas. Algemadas. Caladas.


Sinto em mim as mãos que algemaram Valéria. Aqui elas agarram o meu pescoço. Tentam despedaçar-me, porque temem a liberdade que há em mim... Em minhas entranhas. A liberdade que as minhas de antes conquistaram para mim, para Valéria, para todas nós... Que mesmo ao chão, estamos livres! Avançando! Não tem volta!


Adoecidas. Sim! Vamos falar de adoecimento. Adoecidas, às vezes tristes, desacreditadas, massacradas, mas... Avançando! Ninguém fala por nós! Ninguém nos impede sem que tomemos a rédea do jogo jogado há séculos! Não mais! Acabou! Do chão que nos jogam levantamos contando outras histórias... De mais resistência! De mais fé! De mais força! Porque daqui não tem volta!


Força é o que temos ainda que não queiramos ter... Porque ser forte cansa. Adoece.

Ninguém é imbatível. E nós, corpos negras, vamos carregando pela guerra o desejo de não precisar da guerra para viver... Queremos vida. Vida apenas. Simplesmente...


  
O resultado da investigação sobre o episódio onde Valéria foi jogada ao chão e algemada é mais um capítulo dos muitos estratagemas daqueles que não nos querem vivas e avançando...De vez em quando se travestem de Estado, de vez em quando são uns, outros e outros uns. Segundo o julgamento da comissão que investigou o caso, Valéria se atirou ao chão porque quis, e foi contida pela polícia numa atitude de proteção.


Não há o que dizer e nem novidades há. A história que nosso corpo preto vive nunca é a história que interpretam de nós. As leituras sobre nós não consideram quem somos, porque quem escreve os textos não considera que somos. A gente não é. A gente não está. A gente não pode chegar. Por isso a chegada é assim. Repleta de hostilidade, violência e sutileza. Doidas somos nós. Loucas somos nós. Na caneta de quem escreve essas narrativas tem sangue que traça a escrita. Nos desconsiderando. Nos apagando. Nos morrendo no que trazemos, no que falamos, no que somos!



Para que essas narrativas prosperem é preciso inscrever em nossos corpos e nossas trajetórias as letras que inventam nossa incompetência, nosso destempero, nosso despreparo, nossa inadequação. É preciso inventar para desinventar o que somos, o que temos, o que sabemos para que se invente aquilo que esperam que sejamos: 


"Quem é você? De onde você tirou isso aí que você está falando? Qual a sua formação? Mas qual é a metodologia que você utiliza pra desenvolver esse trabalho? Mas onde você aprendeu isso?


Já ouvi todas essas perguntas. Ouço. Diariamente. Uma aqui, outra ali, por de trás de um sorriso que emoldura o desejo de que eu e minha história não reconheçamos o que de fato está acontecendo: o desmerecimento, o desrespeito, o descaso. Por vezes a inveja.


Sim! Vamos falar de inveja! A inveja que  nos joga no chão e nos algema. Nos adoece e nos aprisiona nas caixas de ansiolítico, nos quadros depressivos, nas tristezas medicalizadas... Algemas nos braços, nos passos... A inveja da potência que talvez venha do nada. A inveja da voz que ecoa realidades vividas, conhecidas, compreendidas e estudadas... Ah... A inveja... Racismo é estrutura ideológica que conta com milhares de micropolíticas e estratégias para se manter. Não tenha dúvida, a inveja é uma das ferramentas de manutenção do racismo.


E seguimos algemadas e atiradas ao chão. Levantando dele na reinvenção do que dizem de nós! Nos reinventamos a partir de nossas próprias histórias, de nossas próprias possibilidades. Avançamos... Como num cabo de guerra, com as mãos machucadas, os pés fincados no presente, no jogo, na trapaça que vem do outro lado... Aquele lado que não se identifica direito... É nebuloso, escondido, ardiloso, covarde... 


E avançamos puxando com força, garra e coragem cada centímetro dessa corda para que se libertem as nossas histórias...  Nossa mente... Nossa saúde... Nosso corpo... 


Porque daqui em diante é assim... não tem volta.




foto retirada de http://www.esquerdadiario.com.br/Mulheres-negras-capitalismo-e-revolucao-16536

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Não temas! É afrocentrismo! De novo...


Publiquei esse texto em outubro de 2015. Na ocasião eu vivia uma situação de racismo institucional . Tal como relato no texto.
Escrevi e o anunciei como um desabafo. Foi publicado no blog UHURU – Ativismo Negro, no qual tive a honra de ser escritora por um tempo...

Quase três anos se passaram... o Da Gata Preta nasceu também como um espaço de ativismo, afetos e afetações compartilhadas. O país onde vivo vai, desde esse tempo, mergulhado numa grave crise.

Adoeci. Recuperei-me! Reorganizei as estratégias de luta e resistência junto àquelas e àqueles que comigo caminham!

Cheguei e continuo o caminho. Muito mudou. Mas ele, o racismo, em sua forma institucional e suas tantas outras faces, permanece. Surpreendentemente, nesse caso,  no mesmo lugar geográfico e material.

Compartilho com vocês o desabafo de anos atrás... Pra aliviar, pra abraçar, pra seguir caminhando e acreditando que esse mundo pode ser melhor!

 Lá do lugar que relato, seguimos os dois. Eu e o racismo. Nós e o racismo. Eu e ele. Ele e nós. Entre reconhecimentos e enfrentamentos cotidianos a indignação se aquece e transforma a simples vivência em embate constante.   

Porque NÃO HÁ COMO NÃO SER ASSIM, e ainda assim permanecer viva!

O corpo vai se cansando. A esperança ás vezes fraqueja... Mas a alma???? Ah... A alma... Essa nunca, nunca, em tempo algum, vai deixar de seguir em seu desejo de ser livre!!! Ela junto de tantas mais...

“Porque nossos passos vêm de longe!” “Porque caminharemos em marcha! Até que todas sejamos livres!!!”

Ta aí! O que foi ontem. O que ainda é hoje!

  


E é um desabafo… Não adianta dizer que é outra coisa. A reflexão é fruto de me deparar com uma situação dessas que geram angústia… Angústia que, quem veio pra essa vida, pra esse país, como mulher preta, sabe bem o que é.
É muito provável que ao longo de minha passagem por esse blog você me ouça falar, citar, me referir ao Marcelo, que é meu grande parceiro nessa vida! Amizade é uma palavra que nem mais consegue definir o tipo de relação que vivenciamos e, além disso somos, nesse momento, companheiros de trabalho. Há quase cinco anos temos desenvolvido um tanto de coisas juntos. Invariavelmente, tratando de questões raciais. E é desse lugar que quero falar. Do momento em que uma mulher preta e um homem branco compartilham o mesmo espaço.
Aqui já é bom pontuar o equívoco semântico. Marcelo e eu, nessa sociedade, jamais ocuparemos o mesmo espaço simbólico. Ás vezes, até os espaços físicos são difíceis de serem compartilhados… E aí, não há amor (e isso não nos falta) que dê conta de reverter isso e todas as consequências que disso vêm. Eu poderia contar inúmeras histórias onde meus espaços são desrespeitados, roubados, violados quando em relação ao Marcelo… Amigos, família, cotidiano, espaço urbano… Mas, quero falar de trabalho.
Coordenamos juntos um programa de promoção e garantia de direitos humanos, com recortes de raça e gênero,  e já perdi a conta das tantas vezes em que fui invisibilizada no lugar criado também por mim… E quero falar do trabalho, porque nas sociedades brancas ocidentais onde vivemos, esse campo social é compreendido com uma valoração que demarca e implica outras tantas formas de relações.
E o relato começa assim: Pela segunda vez, em menos de um ano, vivenciamos, eu e Marcelo, um momento de embate com um determinado grupo em relação à certa diretriz de encaminhamento de ações. Tanto na primeira ocasião, quanto nessa, os ânimos se exaltaram, tanto de nossa parte, quanto por parte da interlocução. No entanto, nas duas ocasiões, ao se referir ao imbróglio das situações, uma das interlocutoras apontou a mim como a “causadora” do conflito, em virtude do “modo como falei”. Importante que eu diga, que das duas vezes estávamos discutindo questões relativas à garantia de direitos humanos atravessados pelos vieses de raça e gênero… Nas duas oportunidades de ânimos exaltados, Marcelo foi bem mais enfático em suas colocações (e eu diria “grosso” mesmo) do que eu. Mas ali, na cabeça dessa pessoa e de seus pares, o que interessou avaliar foi minha postura. Vê lá, gente minha! Uma mulher negra não pode ter voz e não pode partir para o enfrentamento. Onde já se viu? Já um homem branco na mesma, ou como no caso, numa postura muito mais belicosa, é apenas um homem branco em seu lugar habitual. Palmas para ele.
Interessa-me também pensar os modos como os pensamentos que determinaram a avaliação dessa pessoa em relação à minha postura são, inteiramente, organizados a partir de um referencial eurocêntrico, que por si só, já traz características castradoras, ordenadoras, classificadoras e hierarquizadoras. E veja você, como é difícil para o pensamento “brancocêntrico” considerar as diversas formas de estar no mundo e, nesse caso, de ser profissional. Os valores que trazemos atavicamente de nossa civilização em África são tidos por eles como menores, desorganizados e antiprofissionais, quando na verdade, constituem-se em formas libertadoras de construir e vivenciar todos os tipos de relações que podem, revolucionariamente, passar pela energia vital (Axé) da oralidade, da circularidade, da corporeidade, da musicalidade, da ludicidade, da cooperatividade. (GINO, 2015)
Esse pensamento faz com que pensem, que imparcialidade e neutralidade existem, e são parte a boa conduta profissional. Fazem com que acreditem que o domínio ou controle das emoções é requisito básico para ser um profissional de referência. Acreditam que há um determinado modo como o corpo deve ser controlado, vestido e adornado. Acreditam piamente que o controle do corpo e de suas variadas nuances são o que constituem, numa medida muito significativa, uma boa profissional e/ou um ambiente profissional… Pra mim, a palavra mais feia da língua portuguesa branca é essa: controle. A partir dela, um tanto de subjetividades é desenhada e assumida como a mais correta, a mais aceitável, a mais bonita, a mais profissional…
Mal nenhum haveria se assumissem esses valores para si, se os vivessem para si e se não nos envolvessem nisso. A grande questão é justamente essa! Porque vivendo nesse lugar para onde trouxeram nossos ancestrais, nós pretas e pretos assumimos desavisadamente esses valores, ainda que conosco carreguemos outros bastante incompatíveis a esses… Nessa trama eles nos fazem acreditar que;  não somos educados,  falamos alto,  não temos modos,  somos sexualmente oferecidas, não somos profissionais, somos demasiadamente passionais, que não nos vestimos bem, que as “necessidades” do corpo comandam todo o resto das situações e “que somos seres inclinados para uma irracionalidade vinculada às nossas emoções”. (GINO, 2015)
Podiam pensar assim lá no canto deles, mas o fato é que como temos que com eles dividir essa sociedade, eles acabam nos fazendo aprender que, de fato, somos e carregamos esse monte de problemas, de defeitos, de limitações, de exacerbações, que nos impedem de ser tão polidos, finos, educados e tratáveis como eles são…  Se vêm assim ainda que descendam de um povo que invadiu nossa terra, roubou nossos metais, nossas produções artísticas, nos sequestrou, demonizou nosso sagrado… Permanecem violando nossa existência e nos fazendo acreditar que o problema é apenas nosso. Rotineiramente professam que qualquer apontamento nosso à conduta colonial, que ainda hoje carregam, caracteriza nossa “mania de perseguição” ou nosso “radicalismo”… Sempre há outra coisa pra explicar o que de fato é: racismo.
De todas as coisas que essa circunscrição da subjetividade provoca, uma delas é o adoecimento… Viver situações como as que vivi nesses dois momentos são porta aberta para crises hipertensivas, males gástricos, sofrimentos mentais e uma gama de desarmonias biológicas que acometem, com especial intensidade, a população negra… Estar diante das violências e violações a que somos submetidas quando acessamos determinados espaços, que não foram por eles pensados para nós, é como entregar o corpo ao açoite que os antepassados desse pessoal inventaram para controlar nosso corpo e dizimar nossa alegria. E foi com a alegria desse corpo é que atravessamos o tempo.
E não há perfeição entre as águas desse mundo. A terra de onde viemos também tinha seus modos de controlar, subjugar, humilhar… No entanto, seja por razões que esse ponto da história não nos permitiu ainda alcançar, nenhum desses modos se espalhou pelo mundo como um valor universal e intocável. Também é bom que se diga que nos meandros dessa trama, há homens e mulheres brancos, que mesmo carregando em sua genealogia o subjugamento material e simbólico da população negra, são parceiros ativos, envolvidos e inteiramente comprometidos com a igualdade racial em suas expressões materiais e simbólicas. Como é o caso de Marcelo!
Dito isso, é bom encerrar resgatando o quanto pensar afrocentradamente pode ser um diferencial para todas as relações que temos que vivenciar e construir! Quando se pensa afrocêntricamente não há a necessidade de que uma experiência de estar no mundo exclua a outra. Morte e vida, saúde e doença, alegria e tristeza, sagrado e profano, prazer e dor, acerto e erro, grito e silêncio estão em constante diálogo produzindo-se, na medida em que são duas faces de uma mesma realidade e, por isso, são constantemente coafetados. Quando se pensa afrocentricamente o corpo não precisa de mecanismos de controle e coerção, porque é no corpo que as experiências se inscrevem, e é pelo corpo que as dualidades se integram e dialogam! O corpo é uma instância sagrada porque carrega a vida surgida do sopro inicial carregado de Axé, “nossa forma impar de existir e estar no mundo” (idem). Não é preciso temer o corpo, se envergonhar dele, escondê-lo, nega-lo, normalizar seus volumes! A experiência corporal é libertadora! E a experiência da liberdade é, quiçá, a mais poderosa que alguém pode vivenciar.
No fim desse desabafo quero dizer sobre a pessoa que viu em mim a representação do que ela nomeia de “antiprofissionalismo”… Coitada. Coitada porque certamente vai seguir pela profissão, e provavelmente pela vida, controlando sua voz, suas emoções, seu corpo e sua possibilidade de libertação. Coitad@ de tudo que ela representa nesse lugar para onde viemos e que até hoje não nos aceita… Coitad@s… Diante da potência que trazemos de nossa ancestralidade não conhecem outro caminho senão o de violar para conter o medo diante do que somos e representamos. Medo. Racismo tem tudo a ver com muito medo… Mais afoita, poderia dizer também que racismo tem a ver com inveja… Vá saber…
A eles a nossa voz alta, nossas emoções vividas, nosso corpo livre e nossa infinitude… Porque assim aprendemos! Transformar em resistência e liberdade tudo o que de ruim nos deram. O que eles dizem ver como inapropriação é seiva da mais genuína força que em séculos de violação jamais conseguiram nos arrancar… Jamais conseguirão.
Axé!


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Quero!






Me recuso à uma vida inteiramente cinza! Quero o cinza para se misturar nas minhas cores e não para apagar as diversas matizes do meu colorido!!!

Quero belezuras e sabenças!
Quero sabor!
Quero minha força repleta de poesia e quero fitas esvoaçantes na ponta da minha espada!

Quero minha vida assim. Cheia de dobras, reentrâncias, curvas, retas, pontas e arredondados!
Quero a diversidade de sentir, de ver, de pensar, de agir!
Quero afetamentos!

Quero riso e quero lágrima!
Quero firmeza e quero ternura!
Quero o frio na barriga das situações desconhecidas.
Tenho espaço para o mistério.
Tenho gosto pela busca!

Quero livrar - me das certezas e quero a fortaleza daquilo que sei.
Quero minhas ideias. Quero outras ideias. Quero ideia nenhuma.

Quero o movimento e a contemplação.
Quero voz, alarido e silêncio!
Quero aconchego e vastidão!
Quero a tranquilidade das razões que não se alteram!
Quero o barulho da mudança, da incompletude e das outras verdades.

Quero meu canto e quero saborear o universo!
Quero sentidos, sons, pausas.
Quero o caminho. Quero os passos. Quero o caminhar!
Quero a canção da vida inteira!
Quero a alegria!
Quero à mim na inteireza do meu próprio amor.
Quero giros musicais!
Quero sonhos e realidades!

Quero ser várias!
Não me aprisiono em uma só!

sexta-feira, 16 de março de 2018

Carta à minha irmã


Minha irmã,

Sim! Deixe que eu te chame de irmã... Sei que por aqui o colonialismo, a branquitude e o racismo nos ensinaram que irmãs são apenas aquelas que partilham o mesmo sangue... Como são limitados em se afetar... Não importa! Sei também, que na nossa tradição de África, as irmãs se constroem pelos afetos que se criam no dia a dia de sua comunidade. Mais que isso, sei que os laços que nos trazem nesse longo caminho de “passos que vêm de longe” nos fazem irmãs pelo pé fincado nessa diáspora tão dolorosa ainda... Dor e resistência nos unem. Então, te chamo irmã porque nos fazemos irmãs. Pela dor. Pelo caminho. Pela luta!

Mataram uma de nós. Tantas de nós.

Quis falar com você, minha irmã, logo que fiquei sabendo da morte de Marielle... Mas, confesso: Eu quis sumir. O susto, a  dor e a indignação acabaram me deixando sem palavras... Não sem voz! Nunca sem voz! A prática de nos silenciarem acabou por nos ensinar a força que tem nosso grito... Então, eu quis gritar... Quis gritar por Marielle, quis gritar por Cláudia, quis gritar por tantas de nós sendo mortas de morte matada e morte morrida... Sim irmã! Aprendi, que a morte morrida anunciada por nossas ancestrais é essa aí que nos matam sem que atirem em nós...

Nos matam pela falta de cuidado, nos matam pela privação direitos. Nos morrem pela invisilibilidade que dia a dia caminha conosco, irmã... Independente do lugar que ocupamos... Ali está ela nos escondendo do mundo.Pareada. Firme. Decidida. Querem nos apagar, irmã... Dia e noite. Noite e dia. Todo dia. O tempo todo. Saiba. Mais que ela, eu caminho com você. Eu vejo você. Somos mais que uma!

Mataram uma de nós. Tantas de nós.

Quis te escrever, minha irmã, porque sei que você está cansada... Sei que aí na sua garganta tem um grito preso que não se solta se você gritar... Sei que você está exausta... Sei que seu peito aperta como se alguém espremesse sua alma. E sei, minha irmã, que você sabe, que mesmo tendo tanto incômodo morando no corpo, você não pode desistir... Eu sei... Nem esse direito existe para nós... Ser mulher preta é ter pela vida à fora a imposição da luta... Você não luta apenas porque escolheu lutar, irmã. Você luta porque do contrário não lhe permitem viver...

Mataram uma de nós. Tantas de nós.

Vamos morrendo sem que percebam que ser mulher preta é mais motivo para ser morta... Nem gostam que a gente fale isso. Na verdade, não gostam de nossa voz e nem do que temos a dizer... Nos mataram. Dessa vez, irmã, foi numa emboscada... No corpo de Marielle atiraram em nós nove vezes... Miraram nossa cabeça, irmã, ali onde, na nossa tradição, está o centro da vida. O Ori... Tiraram Marielle de nós e tiraram, de novo, nós de nós mesmas... Nos tiram. Sem cessar. Nos roubam. Nos agridem. E nos querem caladas. A qualquer custo. Mesmo com o custo da vida... Nossa vida não lhes vale.

Não nos deram avisos, irmã... Nem isso merecemos. Sem ameaças. Sem suspeitas. Só a morte para calar. A morte para silenciar a ousadia, a coragem e a força.... Sim, irmã! Somos temidas por, corajosamente, ousar nossa força de sonhar e plantar esperanças entre nós e para além de cada uma! Semeaduras de resistência à cada passo desse longo caminho que cada vez mais se estende ao longe.

Mataram uma de nós. Tantas de nós.

Mataram como um recado: Cale-se, favela! Cale-se. periferia! Cale-se, gente preta!

Calem-se ela! Calem-se todas! Calem-se! Cale-se, democracia! Apenas, cale-se.

Eu conheço sua voz, irmã! Conheço seu grito de fibra... E sei... Tanto grito cansa o existir... Eu sei.

E te escrevo, minha irmã, porque juntas não morremos! Ao longe vamos todas! Quero te dizer: nossa dor não tem fim próximo, mas, ao seu lado, eu posso cuidar melhor do tanto que me dói. Nós juntas. Doemos pelo caminho.

Dói em todas. Dói pra todas. Dói...

Mataram uma de nós. Tantas de nós.

Quero te abraçar, irmã... Um abraço que te acolha da tristeza, um abraço que te seque o pranto, um abraço que lhe devolva o ar num respiro profundo... Mataram uma de nós... Tantas de nós... Tantas de nós que na voz de Marielle viram o sonho... É possível! Ela somos todas! Mataram Marielle. Tentaram nos matar todas!

Eu sei que você está exaurida, irmã... Eu sei... E olho para seu pé de tantos caminhos e nele vejo muitos de nossos pés repletos de passos. Muitos passos. Esses mesmo, irmã... Vieram de longe... Vão ao longe!

Quero que sigas, irmã! É o seu único modo de permanecer viva... Mesmo diante da morte de uma de nós. Tantas de nós. Siga, minha irmã... Você não vai só! Em cada um de nossos corpos inscreve-se a força de cada uma de nós. Tantas de nós.


Eu sei, irmã, eu sei como você se sente... Eu sei... Sei porque você, irmã, sou eu.

Eu. Marielle. As mães de Acari. Cláudia...

Cada uma de nós. Tantas de nós.

terça-feira, 6 de março de 2018

Pantera Negra: Excelente, mas não muito.


Dias se passaram até que, finalmente, eu pudesse chegar ao cinema e assistir Pantera Negra. Até chegar ali, me investi de todos os cuidados para não ler absolutamente nada que falasse sobre o filme, para poder me entregar à produção e àquilo que ela representa para o povo negro em diáspora. E se você já chegou até aqui e não quer ter informações sobre o filme, não leia!

Não é pouca coisa. Pantera Negra já é um divisor de águas e não deveria ser olhado como menos que isso. Com o tempo talvez saibamos o que significará para adolescentes, e até crianças, que hoje têm acesso ao filme, se reconhecerem na pele de personagens que são representados no imaginário da força, da beleza, da inteligência, do progresso. Definitivamente, não é pouca coisa!

Quem me dera adolescente poder estar no escurinho do cinema vendo uma Iansã lutando no capô de um carro cibernético comandado por uma jovem negra! Ou ainda há dúvidas de que a general Okoye, interpretada por Danai Gurira, é uma representação de Oyá numa luta de ventos, raios e trovões????

            “O vento bateu na saia de Iansã”.

Vestido vermelho esvoaçante e cabeça careca como que uma iaô entregue ao ritual de quem rege seu ori. Okoye sai nos brindando pelo filme à fora com pequenos deboches, bem colocados, diante dos desmedimentos que a branquitude vai construindo ao ser constantemente alimentada pelo racismo. A peruca de cabelo alisado sentida como descabida, a interação com T’Challa (Chadwick Boseman), na língua materna, por estar diante de um homem branco, a decisão de escolher a defesa da terra ao invés da vida de “seu” homem.

E segue a produção com diversas releituras, e uma infinidade de referências à padrões e valores nascidos e cultivados nas tradições de matriz africana. A ancestralidade, os mais velhos representados no Conselho de Anciãos, o “zelador” Zuri, interpretado brinlhantemente (como sempre!) por Forest Whitaker, que conduz os desafios de T’Challa com M’Baku, interpretadoWinston Duke, e com N’ Jadaka (Erick Killmonger) interpretado por Michael B. Jordan, sob as águas de uma imensa pedreira, como que numa referência ao poder criador que a ancestralidade negra reconhece no correr dos rios e mares.

Ritos negros reverenciados nas folhas cultivadas e guardadas por Zuri e que representam cura, vitalidade e força. Mais referências no ritual sagrado de coroação dos líderes de Wakanda...  O ser coberto pela terra para o encontro com a Ancestralidade. É ou não é a feitura de um borí???? E ainda que essa não tenha sido a intenção do roteiro, a imagem está ali. E, querendo ou não, nos atravessa em suas representatividades! A rainha mãe Ramonda (Angela Basset), que destituída do trono segue com o poder ancestral de macerar as folhas e fazer delas instrumento de revitalização e poder. Lembrei de Mãe Stela de Oxossi “sem folhas não tem orixá.”

Mas enfim, é uma produção de Hollywood. E como tal, não consegue escapar de alguns estereótipos bem problemáticos (existe estereótipo que não é problemático???) e bastante evidentes aos olhos calibrados pelo racismo e a opressão... No filme a voz que traz a razão da luta negra é silenciada sob a pele da vilania de Killmonger...

E não é difícil perceber. Logo no início do filme, N’Jobu, irmão do então rei T’Chaka, pai de T’Challa, diz o motivo de ter roubado de Wakanda o poderoso metal vibranium. Na fala de N’Jobu, aparecem pautas importantes para os movimentos negros em diáspora: a falácia da guerra às drogas e o super encarceramento. Pautas que são, inclusive, nascidas em solo norte americano diante do terror que os governos dos Estados Unidos estabeleceram contra a população negra ao longo dos anos. Há quem diga que N’Jobu era militante do Panteras Negras... E se o é, esse lugar de vilania é ainda mais grave e descarado.

Não consegue também, o filme, se desvencilhar da marca hollywoodiana do “branco gente boa”, que no final das contas tem papel fundamental na proteção do metal, e mesmo na guarda do povo de Wakanda. É o colonizador. É um agente da CIA. Mas é bonzinho. Tão bonzinho que está lá,aplaudindo, na assembleia geral da Organização das Nações Unidas, presenciando o momento em que a potência tecnológica de Wakanda é apresentada ao mundo como instrumento de pacificação e libertação aos povos... Ainda que essa organização não tenha, ao longo de sua história, voltado, de maneira significativa e resolutiva, seus brancos olhos para os problemas e potências do continente africano.

Mas vá lá. É um filme que cumpre seu papel na luta de negros e negras pela representatividade! Representatividade importa!!!! E muito. E como vibra o coração as imagens repletas de atrizes e atores negros. Todos padronizados, tá certo... Mas ainda assim, atores e atrizes negros.

Ah... As mulheres negras de Wakanda... Que são elas se não grande parte da representação de resistência das mulheres negras pelo mundo???? Guerreiras, tecnológicas, mães, astutas, amantes, sagazes. Belíssimas. Nós!

Nossos passos vêm de longe! E indo ao longe nossos passos não se encerram em Wakanda! Ainda temos muitas histórias a contar e a desconstruir!

“Para sempre!”


quinta-feira, 12 de outubro de 2017

NEGRA MARIAMA

Sou devota!
Devotíssima!
Uma devoção daquelas bem católica popular láaaa do fundo das Minas Gerais!
De novena, procissão e rosário e terço...
Todos os anos desço na hora da motociata e fico lá no portão, segurando a imagem. E sempre a mesma emoção forte que me faz lágrimas sem mesmo que eu perceba...
A imagem, os agradecimentos, os pedidos. 
Várias imagens pela casa.
Pequenas, grandes, plástico, pedra sabão, gesso. 
São como fotografias de uma mulher que nem sei como classifica...
É mais que mãe!
É uma força grande que entusiasma, "Deus dentro"! 
Deus que é força de vida habitando todas as vidas!!!! 
Força que circula, que impulsiona, que mobiliza, que se faz em diversos jeitos que o povo enxerga!
E com ela é assim!
Amor!
Essa energia grande que me atravessa de um jeito único!
Nomeando minha fé!
Me entregando ao mistério...
Refazendo-me diante da grandeza do Sagrado...
Meu Sagrado que não mais encontra templo...
Meu Sagrado que é um tanto de encontros de acreditar.
Acreditar nas divindades de cada ser que me afeta
Acreditar num Reino de vida construída no dia a dia de cada passo da caminhada do povo de Deus.
Da Deusa.
Dos Deuses.
Das Deusas.
De Todos.
De Um.
Dela!
Não há nada que leve à Ela que não chegue no tempo.
No jeito.
No ritmo.
Mariama... Conceição.. Oxum... Aparecida!!!!
Aparecida Preta
No tempo de Preto
No tempo de dor.
Aparecida Preta
Da pele de preto
Da pele...
Da fé...
Negra Mariama.

Sou Devota.
Devotíssima!


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Qual sabonete você usa????

Lembro bem do comercial que falava da marca de sabonete para todas as mulheres... Nele, várias modelos dançavam em meio à tecidos esvoaçantes e o lema do anúncio dizia que o tal sabonete era para todas as mulheres, porém, na tal dança não existiam mulheres negras...

Dessa vez a marca não só insistiu no tema da invisibilidade de corpos negros, como também associou esses corpos negros à um processo de branqueamento ilustrado pela associação da pele negra à sujeira.

O recente comercial não chegou a circular no Brasil, mas ainda assim nos “cansa a beleza. ” Isso cansa. Cansa esses corpos sem lugar e cansa o espírito de quem caminha nessa diáspora sempre tendo que anunciar ao mundo sua humanidade. Sim... Mulheres negras são gente! Mulheres negras sentem, pensam, consomem, trocam, simbolizam... E, nessas simbologias, aquilo que é atribuído a esses corpos sempre o são de modo a desmerece-los diante do padrão de humanidade estabelecido pelo branco.

Espanta à um grupo expressivo de pessoas que o tal comercial tenha sido aprovado.... Pensa-se nos envolvidos em todo o esquema de produção. Desde o fotógrafo até o editor, passando pelas duas modelos, uma negra, outra branca...

Importante dizer, que no caso em questão, a modelo negra disse não ter sido informada de que a edição das imagens teria o resultado que teve... Mas, independente disso, a verdade é que corpo negro se aprende no lugar do desmerecimento, aprende tanto que já nem o percebe, pois que esse é o único lugar que conhece, mesmo quando há a falsa sensação da mobilidade social... Move-se entre espaços sem que os lugares se alterem, sem que as estruturas se afetem.

Sim! O Racismo é superestrutura. Na medida em que envolve a cultura, o poder político, a economia, os ritos sociais essa superestrutura tem como sustentação a ideologia que compreende e determina que os diferentes corpos não devem circular de igual maneira pela sociedade. Tal circulação deve então ser demarcada por imaginários e símbolos que distribuam diferentes papéis e diferentes possibilidades de fruição da vida cotidiana.

(Usu)fruir a beleza presente na concepção de um comercial de cosmético não é o papel/lugar destinado à corpos de mulheres negras... O protagonismo na beleza não foi pensado para essas mulheres a não ser que essa beleza esteja associada a apelos sexuais ou ao exotismo. Mulheres negras são vistas como negras, quase nunca como mulheres.

E, voltando lá na superestrura sustentada pela ideologia e relacionando-a ao tanto de pessoas que estiveram diante da tal peça publicitária da marca de cosméticos, e não se incomodaram, em nada, com o texto dito através daquela imagem, tem me intrigado o modo como os brancos se eximem de sua responsabilidade diante de situações como essa.

Ah... O Branco... O frágil, o ofendido, o inocente branco... Nunca foi isso. Nunca é bem assim. Nunca é aquilo de fato o que se quis dizer. Nunca é aquilo que está acontecendo. Nunca é ele. Em situações como essa nunca são os indivíduos, e tão pouco se reconhecem como coletividade. E, nesse cenário, é impossível vislumbrar um enfrentamento coletivo ao racismo porque socialmente não existe coletividade entre brancos e pretos. Os pretos são vítimas do racismo e só.

Não há quem o sustente. Não há quem o opere. Não há quem o reproduza. Não há rostos. Não há nomes. Não há identidades. Há apenas a vivência de uma opressão que se engendra por sujeitos fantasmas que nunca estão conduzindo as realidades de subjugação, exclusão, desmerecimento, adoecimento e morte.

Lidamos com o racismo no Brasil como uma entidade que, concretamente, nem se sabe de onde surge. Porque ninguém é racista. Todo mundo é bacana. Todo mundo tem uma amiga preta. Todo mundo lida bem no meio dos pretos. Todo mundo gosta, aprecia a cultura dos pretos. O racista feioso não tem cara e não é ninguém. Há a consciência de sua existência. Mas, de fato, ninguém sabe quem ele é. Mais que isso, nenhum Branco, de maneira individual, é ele.

Desconsidera-se a ideologia que sustenta a superestrura na medida em que as ações individuais não são consideradas como operadoras de um sistema de opressão. As ações individuais de frequentar determinados espaços onde não há negros, de consumir produtos ou lugares que incentivam o racismo, de não circular por espaços “de preto”, de se associar afetivamente à indivíduos que têm práticas explicitas de racismo, não são vistos como racismo.

Nunca se questionar sobre a ausência de pretos nos espaços de poder já é praxe brasileira. E, junto dela, há também o descompromisso de não se questionar também sobre a ausência dos pretos nos espaços de poder de cada pessoa branca, nos espaços de afeto que ela constrói no cotidiano.

Onde estão, Branco, os pretos da sua vida? Quais são seus lugares de poder e de afeto? Quais são as partilhas que vocês têm? Como ele atravessa seus territórios brancos??? Qual sabonete você usa???

Interessa-me contribuir para que a discussão do racismo saia da superficialidade em que se encontra, quando consideramos a sociedade brasileira, para que tenhamos possibilidade de enfrenta-lo. Não tenho a pretensão, e muito menos o desejo, de ensinar a minha dor e a do meu povo. Não mesmo. Mas quer saber? Tô bem cansada de, nesse caminho do enfrentamento ao racismo, olhar pro lado e só ver cara preta, como se apenas nós fôssemos responsáveis por alterar esse estado de despersonalização da existência em que estamos submetidos desde que essa história começou.

Isso cansa.