Mucama e Sinhá
Cresceram juntas. Mucama e Sinhá.
Preta e branca.
Brincavam as mesmas brincadeiras.
Ensinavam-se e aprendiam-se.
Uma à outra.
Crianças, circulavam entre as
fronteiras do cativeiro e da liberdade.
De mãos dadas. Uma trazia a outra
pro seu mundo.
Escondidas, descobriam os códigos
de cada espaço.
A senzala visitada longe do olho do
feitor.
Se vista, “saia daí, Sinhá!”
O quarto de princesa onde a Mucama
podia sentar na cama.
Se vista, “saia daí, Negrinha.”
Os cantos da casa grande, os porões
do sofrimento, os dias de encontro e amizade.
Tudo foi colorindo os afetos de
Mucama e Sinhá.
No sopro do tempo, os dias
trouxeram aos corpos meninas as formas mulher.
Mulher Preta. Mulher Branca.
Afetos de códigos aprendidos.
Novos corpos que não cabem mais no
esconderijo dos mundos opostos.
Sinhá e Mucama dividem os dias e se
afastam nos símbolos.
A casa grande tem espaço livre pra Mucama. A cozinha.
O trânsito, a fruição. As
fronteiras
A senzala não põe os olhos em Sinhá
Naqueles corpos há perigo. O
código.
Sinhá ama Mucama
E quando senta na mesa do jantar
lembra dela.
Mucama não come ali. Aquela comida
é de Sinhá.
Mucama não senta na mesa de branco.
Mucama come lá no fundo. Em
silêncio.
Alegria de Mucama não agrada
branco.
Os brancos de Sinhá riem no mundo
que é só deles.
Sinhá queria Mucama por perto, e
sonha vê-la no meio da prataria.
Mundos se encontrando, afetos se
realizando...
Mas prataria pra Mucama é só pra
limpar.
“Bem limpinha, negrinha”
Vê sua cara no convexo da colher.
Caras pretas não avançam nesses
muros...
Os afetos não cruzam as fronteiras
do que tem pra Mucama e do que existe pra Sinhá.
Mucama não entra no baile.
Sinhá e Mucama dançam juntas nos
sorrisos confidentes.
Mas o salão não pode ver Mucama
dançando.
Então Sinhá dança triste.
Depois menos triste.
Depois quase alegre.
E alegre.
O aprendizado.
Junto com Mucama é só onde não tem
o mundo de Sinhá.
Ele não é maior que o mundo...

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