terça-feira, 10 de outubro de 2017

Qual sabonete você usa????

Lembro bem do comercial que falava da marca de sabonete para todas as mulheres... Nele, várias modelos dançavam em meio à tecidos esvoaçantes e o lema do anúncio dizia que o tal sabonete era para todas as mulheres, porém, na tal dança não existiam mulheres negras...

Dessa vez a marca não só insistiu no tema da invisibilidade de corpos negros, como também associou esses corpos negros à um processo de branqueamento ilustrado pela associação da pele negra à sujeira.

O recente comercial não chegou a circular no Brasil, mas ainda assim nos “cansa a beleza. ” Isso cansa. Cansa esses corpos sem lugar e cansa o espírito de quem caminha nessa diáspora sempre tendo que anunciar ao mundo sua humanidade. Sim... Mulheres negras são gente! Mulheres negras sentem, pensam, consomem, trocam, simbolizam... E, nessas simbologias, aquilo que é atribuído a esses corpos sempre o são de modo a desmerece-los diante do padrão de humanidade estabelecido pelo branco.

Espanta à um grupo expressivo de pessoas que o tal comercial tenha sido aprovado.... Pensa-se nos envolvidos em todo o esquema de produção. Desde o fotógrafo até o editor, passando pelas duas modelos, uma negra, outra branca...

Importante dizer, que no caso em questão, a modelo negra disse não ter sido informada de que a edição das imagens teria o resultado que teve... Mas, independente disso, a verdade é que corpo negro se aprende no lugar do desmerecimento, aprende tanto que já nem o percebe, pois que esse é o único lugar que conhece, mesmo quando há a falsa sensação da mobilidade social... Move-se entre espaços sem que os lugares se alterem, sem que as estruturas se afetem.

Sim! O Racismo é superestrutura. Na medida em que envolve a cultura, o poder político, a economia, os ritos sociais essa superestrutura tem como sustentação a ideologia que compreende e determina que os diferentes corpos não devem circular de igual maneira pela sociedade. Tal circulação deve então ser demarcada por imaginários e símbolos que distribuam diferentes papéis e diferentes possibilidades de fruição da vida cotidiana.

(Usu)fruir a beleza presente na concepção de um comercial de cosmético não é o papel/lugar destinado à corpos de mulheres negras... O protagonismo na beleza não foi pensado para essas mulheres a não ser que essa beleza esteja associada a apelos sexuais ou ao exotismo. Mulheres negras são vistas como negras, quase nunca como mulheres.

E, voltando lá na superestrura sustentada pela ideologia e relacionando-a ao tanto de pessoas que estiveram diante da tal peça publicitária da marca de cosméticos, e não se incomodaram, em nada, com o texto dito através daquela imagem, tem me intrigado o modo como os brancos se eximem de sua responsabilidade diante de situações como essa.

Ah... O Branco... O frágil, o ofendido, o inocente branco... Nunca foi isso. Nunca é bem assim. Nunca é aquilo de fato o que se quis dizer. Nunca é aquilo que está acontecendo. Nunca é ele. Em situações como essa nunca são os indivíduos, e tão pouco se reconhecem como coletividade. E, nesse cenário, é impossível vislumbrar um enfrentamento coletivo ao racismo porque socialmente não existe coletividade entre brancos e pretos. Os pretos são vítimas do racismo e só.

Não há quem o sustente. Não há quem o opere. Não há quem o reproduza. Não há rostos. Não há nomes. Não há identidades. Há apenas a vivência de uma opressão que se engendra por sujeitos fantasmas que nunca estão conduzindo as realidades de subjugação, exclusão, desmerecimento, adoecimento e morte.

Lidamos com o racismo no Brasil como uma entidade que, concretamente, nem se sabe de onde surge. Porque ninguém é racista. Todo mundo é bacana. Todo mundo tem uma amiga preta. Todo mundo lida bem no meio dos pretos. Todo mundo gosta, aprecia a cultura dos pretos. O racista feioso não tem cara e não é ninguém. Há a consciência de sua existência. Mas, de fato, ninguém sabe quem ele é. Mais que isso, nenhum Branco, de maneira individual, é ele.

Desconsidera-se a ideologia que sustenta a superestrura na medida em que as ações individuais não são consideradas como operadoras de um sistema de opressão. As ações individuais de frequentar determinados espaços onde não há negros, de consumir produtos ou lugares que incentivam o racismo, de não circular por espaços “de preto”, de se associar afetivamente à indivíduos que têm práticas explicitas de racismo, não são vistos como racismo.

Nunca se questionar sobre a ausência de pretos nos espaços de poder já é praxe brasileira. E, junto dela, há também o descompromisso de não se questionar também sobre a ausência dos pretos nos espaços de poder de cada pessoa branca, nos espaços de afeto que ela constrói no cotidiano.

Onde estão, Branco, os pretos da sua vida? Quais são seus lugares de poder e de afeto? Quais são as partilhas que vocês têm? Como ele atravessa seus territórios brancos??? Qual sabonete você usa???

Interessa-me contribuir para que a discussão do racismo saia da superficialidade em que se encontra, quando consideramos a sociedade brasileira, para que tenhamos possibilidade de enfrenta-lo. Não tenho a pretensão, e muito menos o desejo, de ensinar a minha dor e a do meu povo. Não mesmo. Mas quer saber? Tô bem cansada de, nesse caminho do enfrentamento ao racismo, olhar pro lado e só ver cara preta, como se apenas nós fôssemos responsáveis por alterar esse estado de despersonalização da existência em que estamos submetidos desde que essa história começou.

Isso cansa.




5 comentários:

  1. O que ouvi sobre o comercial foi:_não foi feito no Brasil, awui não é assim...
    No Brasil ninguém é racista.
    E ouvi também:_ Nossa, custei a entender o comercial, depois que eu vi direito achei horrível...
    No Brasil o racismo está tão entrojetado que as pessoas não vêem o corpo negro, ele é invisibilizado.

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    1. Elas custqm a entender como se não fizesse parte delas... Como se sempre fosse uma ação que está no outro. Nelas, nunca!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Muito tenho aprendido com vc. E aprender com vc, eu sendo uma mulher branca, implica em não somente te escutar e te ler. Sua luta me afeta. Na minha posição de privilégio, o aprendizado envolve o exercício de olhar pra dentro. É checar minhas crenças e condutas tantas vezes equivocadas. É um exercício difícil, sabe? Tantas vezes sinto vergonha desse racismo perpetuado e principalmente naturalizado através de discursos e práticas tão bem engendrados em múltiplas instituições. Hoje fiquei perplexa com argumentos racionais pautados em um suposto saber/poder que buscavam justificar e/ou embasar o racismo. Que vergonha! Sei que não dá pra falar por vcs. Mas sua luta me (co)move e eu ainda estou aprendendo qual posição devo ocupar nesse contexto. Para esse momento só consigo te mandar um forte e afetuoso abraço!

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    1. Como te disse, Glau... O que vc chama de aprendizado só acontece por um desejo/movimento que é seu. Sem ele, nada acontece! Tamo juntas!

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