terça-feira, 6 de março de 2018

Pantera Negra: Excelente, mas não muito.


Dias se passaram até que, finalmente, eu pudesse chegar ao cinema e assistir Pantera Negra. Até chegar ali, me investi de todos os cuidados para não ler absolutamente nada que falasse sobre o filme, para poder me entregar à produção e àquilo que ela representa para o povo negro em diáspora. E se você já chegou até aqui e não quer ter informações sobre o filme, não leia!

Não é pouca coisa. Pantera Negra já é um divisor de águas e não deveria ser olhado como menos que isso. Com o tempo talvez saibamos o que significará para adolescentes, e até crianças, que hoje têm acesso ao filme, se reconhecerem na pele de personagens que são representados no imaginário da força, da beleza, da inteligência, do progresso. Definitivamente, não é pouca coisa!

Quem me dera adolescente poder estar no escurinho do cinema vendo uma Iansã lutando no capô de um carro cibernético comandado por uma jovem negra! Ou ainda há dúvidas de que a general Okoye, interpretada por Danai Gurira, é uma representação de Oyá numa luta de ventos, raios e trovões????

            “O vento bateu na saia de Iansã”.

Vestido vermelho esvoaçante e cabeça careca como que uma iaô entregue ao ritual de quem rege seu ori. Okoye sai nos brindando pelo filme à fora com pequenos deboches, bem colocados, diante dos desmedimentos que a branquitude vai construindo ao ser constantemente alimentada pelo racismo. A peruca de cabelo alisado sentida como descabida, a interação com T’Challa (Chadwick Boseman), na língua materna, por estar diante de um homem branco, a decisão de escolher a defesa da terra ao invés da vida de “seu” homem.

E segue a produção com diversas releituras, e uma infinidade de referências à padrões e valores nascidos e cultivados nas tradições de matriz africana. A ancestralidade, os mais velhos representados no Conselho de Anciãos, o “zelador” Zuri, interpretado brinlhantemente (como sempre!) por Forest Whitaker, que conduz os desafios de T’Challa com M’Baku, interpretadoWinston Duke, e com N’ Jadaka (Erick Killmonger) interpretado por Michael B. Jordan, sob as águas de uma imensa pedreira, como que numa referência ao poder criador que a ancestralidade negra reconhece no correr dos rios e mares.

Ritos negros reverenciados nas folhas cultivadas e guardadas por Zuri e que representam cura, vitalidade e força. Mais referências no ritual sagrado de coroação dos líderes de Wakanda...  O ser coberto pela terra para o encontro com a Ancestralidade. É ou não é a feitura de um borí???? E ainda que essa não tenha sido a intenção do roteiro, a imagem está ali. E, querendo ou não, nos atravessa em suas representatividades! A rainha mãe Ramonda (Angela Basset), que destituída do trono segue com o poder ancestral de macerar as folhas e fazer delas instrumento de revitalização e poder. Lembrei de Mãe Stela de Oxossi “sem folhas não tem orixá.”

Mas enfim, é uma produção de Hollywood. E como tal, não consegue escapar de alguns estereótipos bem problemáticos (existe estereótipo que não é problemático???) e bastante evidentes aos olhos calibrados pelo racismo e a opressão... No filme a voz que traz a razão da luta negra é silenciada sob a pele da vilania de Killmonger...

E não é difícil perceber. Logo no início do filme, N’Jobu, irmão do então rei T’Chaka, pai de T’Challa, diz o motivo de ter roubado de Wakanda o poderoso metal vibranium. Na fala de N’Jobu, aparecem pautas importantes para os movimentos negros em diáspora: a falácia da guerra às drogas e o super encarceramento. Pautas que são, inclusive, nascidas em solo norte americano diante do terror que os governos dos Estados Unidos estabeleceram contra a população negra ao longo dos anos. Há quem diga que N’Jobu era militante do Panteras Negras... E se o é, esse lugar de vilania é ainda mais grave e descarado.

Não consegue também, o filme, se desvencilhar da marca hollywoodiana do “branco gente boa”, que no final das contas tem papel fundamental na proteção do metal, e mesmo na guarda do povo de Wakanda. É o colonizador. É um agente da CIA. Mas é bonzinho. Tão bonzinho que está lá,aplaudindo, na assembleia geral da Organização das Nações Unidas, presenciando o momento em que a potência tecnológica de Wakanda é apresentada ao mundo como instrumento de pacificação e libertação aos povos... Ainda que essa organização não tenha, ao longo de sua história, voltado, de maneira significativa e resolutiva, seus brancos olhos para os problemas e potências do continente africano.

Mas vá lá. É um filme que cumpre seu papel na luta de negros e negras pela representatividade! Representatividade importa!!!! E muito. E como vibra o coração as imagens repletas de atrizes e atores negros. Todos padronizados, tá certo... Mas ainda assim, atores e atrizes negros.

Ah... As mulheres negras de Wakanda... Que são elas se não grande parte da representação de resistência das mulheres negras pelo mundo???? Guerreiras, tecnológicas, mães, astutas, amantes, sagazes. Belíssimas. Nós!

Nossos passos vêm de longe! E indo ao longe nossos passos não se encerram em Wakanda! Ainda temos muitas histórias a contar e a desconstruir!

“Para sempre!”


5 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Será q fui a primeira a ler? E por ter tido a graça de assistir ao teu lado; poder nesse inicio de tarde reviver aquele momento tão prazeroso?
    Que lindo texto, ótimas observações... acredito que desse pode surgir um outro, falando do vilão que nem era tão vilão assim. E um terceiro só sobre as mulheres... Li hoje no face, que a rainha representaria Nanã, ou Oxum... eu fico com a primeira opção. Ahhhhh aqueles dread's brancos maravilhosos... Meu Deus... q emoção...
    Obrigada pela escrita e principalmente pela oportunidade de viver o momento e reescrever um página linda em minha história de vida!

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  3. Esses textos são de um teor nutricional tão rico que eu fico voltando em cada parágrafo pra ver se não deixei de assimilar nada! Mulherão da porra essa Gata Preta ♥ doida pra ver o filme, e pra propor lá na Secretaria de levarmos a molecada dos nossos serviços pra ver também!

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  4. Em relação ao filme, eu penso o seguinte:
    Em primeiro lugar a beleza estética que vc já relatou, impecável.
    A valoração da ancestralidade, belíssima.
    A força das mulheres guerreiras africanas (um dos enfoques de pesquisa do meu doutorado), representadas pela Guarda Real de Wakanda (um não tenho palavras melhores que as suas para definir, além de expressar o meu desejo de ser uma das Dora Milaje, comandadas por Okoye.
    Em relação ao Pantera Negra T’Challa. Concordo sim que ele representa, para nós, negr@s iniciad@s, a figura do bom crioulo. E que nesse ponto a figura reividincativa de Killmonger nos representa muito mais.
    Em relação ao branco salvador que não pode faltar em filme de negro hollywoodiano nem vou me pronunciar.
    Mas acho que uma coisa que eu que sou apaixonada por super-heróis e adoro os da Marvel, não posso deixar de comentar é que T’Challa não nos representa porque ele não é um herói do povo negro, ele é apenas um super-herói da Marvel, e enquanto tal representa a figura de um herói conciliador, que concilia com todos, inclusive com os brancos e colonizadores . Mas Haverá um dia em que nós contaremos nossas próprias histórias dos nossos heróis que de fato nos representam. É e tal como diz o provérbio africano. “Enquanto os leões não começarem a escrever sua própria história, as narrativas das caçadas irão glorificar os caçadores”.

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