Aproxima-se
o mês de novembro, o mês que não sendo o derradeiro do ano é o que anuncia que,
sim, o ano vai acabar! Um ciclo vai se encerrar como se fosse a última chance
de providenciarmos um jeito de dar conta de todas as querelas do ano ainda em
curso... E, nesse movimento de tentativa de correr contra o tempo, vem junto,
de um monte de jeito diferente, as confraternizações.
Confraterniza-se
na família, no grupo de amigos que estudaram juntos, com as vizinhas, com o
pessoal da academia. Todo mundo que passa o ano junto começa, em novembro
(alguns até antes). a programar as festas de confraternização. Não se sabe ao
certo o que motiva cada um desses encontros comemorativos, mas eles acontecem,
e se tornaram quase que uma obrigação ritualística pouco preenchida de
significados.
E
por falar em significados cá eu penso no de onde vem a palavra confraternizar
e, vasculhando vivências e dicionários posso dizer que a palavra tem relação íntima
com convívio fraterno. Dentre as definições originárias do latim, mesma raiz da
língua portuguesa (ou seria língua brasileira?), vê-se que a palavra confraternizar
, oriunda de conFRATERNItas, traz misturada em si a ideia de fraternidade, o
que então nos leva a conceber que, em sua
formação léxica podemos defini-la como um encontro entre pessoas que convivem
de maneira fraternal. Ao pé da letra, confraternizar significa, de acordo com
vários dicionários disponíveis na internet, “conviver fraternalmente, tratar
como irmão” e ainda, “comungar com os pontos de vista, as convicções, ou estado
de espírito de alguém”.
Aí
não tem jeito! Me vem uma gargalhada bem gorda quando penso em alguns grupos
que, aberta a temporada de “fim de ano”, começam a se organizar para, juntos,
celebrarem o ano que se encerra... Que cena triste sou capaz de visualizar...
O
significado se esvazia diante do significante. O ciclo aproxima-se do fim e,
nem mesmo a ideia de ciclo é compreendida pela maioria das pessoas que, por obrigação,
se juntam em torno de uma festa com motivações natalinas. Aí então é que tudo piora... O natal, festa que deveria ter motivação sagrada para
algumas pessoas, é usado, vivido e compartilhado apenas como dita a economia de
mercado capitalista. Comer e comprar. Não importam muito os sentimentos
envolvidos, não importa, sequer, a compreensão do momento como algo que, para
algumas pessoas que professam determinada fé, é carregado de simbologias que
envolvem, DE FATO, a fraternidade, o companheirismo e a comunhão.
Nada
disso! No “script” das confraternizações de final de ano não está anotado NENHUM
tipo de referência ao modo como foi vivido o ciclo que se encerra. Não importa.
Importa é se juntar, gastar dinheiro, comer de maneira farta e só! Tão SÓmente SÓ. Em algumas dessas comemorações a sensação mais evidente que tenho/tinha é
essa, uma solidão distribuída em várias performances solitárias e pouco
carregadas dos sentimentos que remetem à fraternidade, à comunhão, à celebração
da memória do ciclo que se encerra.
Viver
os ciclos e ter a consciência deles é importantíssimo quando pensamos na caminhada
dos grupos e da humanidade de forma geral. Ainda mais importante é compartilhar
os ciclos também na perspectiva de compreender o que deles se sorve, se estrai,
se impregna no corpo para anunciar-se ao novo movimento que não cessa na
partida de um, e na chegada do outro. Porque ciclos não são lineares. Ciclos
são circularidades repletas de ires e vires que nos dizem muito de nós, de onde
estamos, com quem estamos e, para onde queremos ir!
E
nessa conversa toda me acompanha a memória de Tiago... Tiago Adão Lara! Meu
amigo, tão amado e tão querido que, na semana passada cumpriu, de maneira brilhante, seu ciclo
de vida na terra e partiu para a vivência irmanada com a infinitude do
universo.
Pensando
nas pessoas que se juntam por obrigação, pra cumprir roteiros, para agradar o
chefe, e para se integrarem à ditadura do capital sobre os corpos e os
sentimentos, me recordo das inúmeras confraternizações, de fim de ano ou não,
em que tive a alegria e a honra de estar ao lado de Tiago e de tantos amigos e
amigas com quem eu vivi (e vivo!) ciclos de fraternidade, ternura e comunhão.
Sempre tendo em mente que viver fraternalmente não significa DE MODO ALGUM
viver na ausência do conflito e da discordância...
Recordo-me
do tanto que aprendi com Tiago e com pessoas como ele sobre o significado da
partilha. O significado de se emprenhar de vida e de se afetar por ela! O
significado de encontrar-se com e na outra, e de fazer desse encontro a prática
do cotidiano, não se prendendo às datas impostas para a vivência e a expressão
dos afetos. E aí, recordando essas confraternizações de fim de ano, que pra muita gente mais parecem sofrimento e
desconforto, do que expressam a alegria do encontro, me lembro também de Tiago dizendo
à mim, numa determinada ocasião, que o mais importante do processo é a
avaliação do processo, antes que outro se inicie.
Naquele
contexto cabia bem a palavra avaliação, mas se eu pudesse agora conversar com o
Tiago sobre esse texto, arrisco-me a dizer que, provavelmente, ele diria que o
mais importante do ciclo é olhar para ele refletindo o tanto de vida que ele
carrega, e como é/foi vivida a vida que está nele...
Lamento
os ciclos que se encerram sem serem olhados, refletidos, aprendidos para a significância
de novos ciclos... Lamento a pasteurização do ato de celebrar e de promover
encontros... Lamento a total ausência de reflexão sobre os significados
presentes na potência da vida cotidiana... Lamento o tanto que se perde, que perdemos a
oportunidade da fraternidade. Lamento o encontrar-se apenas para o cumprimento
de uma agenda imposta.
Lamento,
porém celebro a alegria de buscar-me nessa vida em meio à explosões de
encontros repletos de significado, de alegrias, de saberes, sabores e sabenças
me comprometendo a romper, o quanto me for possível, com tudo aquilo que anuncia
o esvaziamento do potente significado do encontro, do ciclo e da
confraternização. Da vida! Aprendi tanto, tanto, tanto da vida com o Tiago que nem tenho a pretensão de aqui tentar dizer tudo o que sendo meu, de Tiago veio...
Grata,
Tiago... Grata por tanto aprendizado nas muitas oportunidades de viver, corajosamente,
a fraternidade. Sigo COM - FRATERNIzando ao seu modo, e em Ti, meu amado amigo! Potente... Corajosa...
E revolucionariamente!

Contigo o sentido de fraterno foi ressignificado pra mim. No nosso convívio nunca fiz força pta caber em qualquer lugar. Obrigada pelo aprendizado de sempre. Bela homenagem ao Tiago e seus ensinamentos.
ResponderExcluirSeu texto lembrou os textos de Tiago, que gostava muito de inicia-los com a etmologia. Ele era sim este agenciamento fraternal de tanta diferença ao seu redor. Uma aprendizagem de vida! Bom estar com ele! Bom estar com você! 👏😚
ResponderExcluirÔ, Amiga, quem foi esse belo Tiago que não conheci?...sinto que tenha ido tão cedo...
ResponderExcluirE que boa reflexão sobre o automatismo das confraternizações sem alma, sem significado, sem fraternizar ninguém com ninguém. Pior que isso, só com amigo oculto >D
Que bela reflexão sobre o encontro, o confraternizar...
ResponderExcluirObrigada por sua vida!!💟
Fiz uma viajem enquanto lia,excelente reflexão,minha prima.
ResponderExcluirEsse texto me fez refletir sobre como as confraternizações são automáticas, frias e sem significado, tive a oportunidade de estar com o Tiago em algumas confraternizações e o pouco que convivemos dava para observar o quanto era sábio.
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