domingo, 9 de maio de 2021

Que corpos somos nós?

 

Há por aqui um emaranhado de dores que vão calando um tanto de alaridos que vivem pelo meu dentro... Insisto na alegria que a cada dia é golpeada pelos tufos de tristeza e indignação, e a acalento como se fosse uma criança de colo que precisa ser aninhada e protegida...




A dor que cala os gritos transforma em gritos outras dores... Até quando? O que ocorre em meu corpo e em corpos outros que seguem paralisados diante de tanto... Tanto de tantas formas de violência... Instalada de tal modo que já nem se sabe onde começa a vida ou onde ela termina para a violação entrar, ou, quem sabe, se a vida é mesmo toda essa violência...


O que acontece com nossos corpos que as ruas não invadem numa tentativa desesperada de por fim ao inferno que se vive no Brasil? Quais gritos e dores ainda precisamos viver para que nos lancemos à alguma forma de amor e cuidado que nos livre de tanta experiência de morte?


A vida interrompida de um jovem ator lança diversos corpos a experiência de um vazio repleto de mais de 400 mil vidas... Todas com nomes, histórias, desavenças, (des) amores... 400 mil vidas misturadas em experiências que se encerram num emaranhado de descaso, negligência, deboche, insensibilidade... morte...


Não há mais palco para o jovem ator, os planos se encerraram, os filhos não terão lembranças dele... Não lembrarão da voz, do cheiro, de tudo o que foi sonhado... Quantas 400 mil lembranças mais estão perdidas e ficarão vagando nessa corrente de ausência, dor e desespero...


Meu corpo e corpos outros tentam insistir na dança da alegria, da potência que a vida sempre anuncia e, no meio do movimento de insistir o solavanco de lares invadidos, de tiros por todos os lados, de corpos caindo, de vidas se encerrando... Sabe-se lá quantas... Nessa ciranda de desesperos não há a possibilidade de acreditar naquilo que nos é dito... Quantas vidas mais? Que nome têm? A quem deixaram? Quantos meninos e meninas não lembrarão da voz e do cheiro de quem os trouxe ao mundo?


Dores repaginadas nos corpos que conhecem bem a violência... Corpos pretos... Corpos pobres... Sempre eles. Sem fuzis, com guarda chuvas, sem esperanças,  com sacolas, sem dinheiro,com sonhos, Sem proteção, com famílias... Sempre eles tombando em esquinas, vielas,  UTI’s, onde tombam em maioria junto outras tantas vidas que esperam, agasalhadas no descaso, a cura que já existe.... Umas vidas que importam menos ainda do que outras vidas...  Vidas que, nesse tempo de desespero, na verdade, não importam. Essa é a verdade.


Vidas que são as mais de 400 mil em outras várias 400 mil. Vidas não vistas, não sentidas. Invisíveis apenas. Sem a dor de todo o país, alojada em peitos abafados de agonia... Vidas festejadas, admiradas, famosas, conhecidas... Vidas todas emboladas na tristeza, no medo, na incerteza... Até quando? Vidas indo e vidas ficando mutiladas, desesperançadas enquanto o presidente da república passeia de moto, gargalhando, com a cara ao vento, ao ar, ao respiro que falta no corpo de tantas 400 mil... O próprio inferno.


Não queria escrever esse texto porque meu corpo fica insistindo em ser alegre, mesmo quando a alegria se torna um difícil exercício... Música alta me constrange... Festejos me envergonham... Como segue um povo que se acha na festa quando a festa vira possibilidade de morte? Como sigo insistindo na alegria? O que faço com tanta gritaria aqui por dentro?


O que faz o povo desprezado, assassinado, esquartejado, descartado?

Quantos 400 mil somos nós?

O que querem nossos corpos diante de tanta ameaça à vida que corre neles?

Quero insistir na alegria... akegrar-se em tom de revolução e resistência... Um exercício... Apenas. Muitas penas.


Fonte da imagem: http://www.overmundo.com.br/banco/como-um-grito 



10 comentários:

  1. Insistiremos, pois "nossa alegria é guerreira" e tem sido em meio às lágrimas de dor que temos festejado nossas conquistas. Cansa. Mas seguimos... fazendo luto quando possível sem desviar da luta necessária.

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  2. A gente vai precisar reconstruir tudo do zero, ao final do ciclo de Seth. Mas, assim como na saga mitológica, o deus da morte, do caos e do desastre não vai reinar pra sempre entre nós, minha amiga! E não vai conseguir demolir nenhum muro de resistência feito de união, de apoio e de amor. Eu confio! ♥

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  3. Também insisti em ser alegre...mas com um resquício íntimo de tristezas diárias...

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  4. Eu preciso de alegria, eu quero ter uma válvula de escape escape, mas são muitos corpos tombando ao lado. São muitos sonhos apagados, muitas energias disperdiçadas. É um país que segue desgovernado, é um governante que segue tendo prazer em matar, com armas e com a falta de cuidados sanitários. Ser preto, pobre e sobreviver é um ato de rebeldia, resistência. Sou rebelde, sou resistente.

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  5. Quero também, insistir na alegria e continuar resistindo!
    Certo de que não vão ficar impunes os responsáveis.
    Não são números, são corpos dos outros e os nossos!

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  6. Está cada dia mais difícil, mas a nossa alegria e esperança, mesmo que pequena nós faz resistir e continuar a caminhar em meio a tanta dor.

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  7. Alegria, essa já não existe, mas continuamos a luta seguimos em luto.
    Já não vivemos, estamos sobrevivendo, sobreviver se tornou um ato de resistência.

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  8. Quando teremos direito ao luto substantivo? Nossos corpos só tem Direito ao luto verbo. Quero direito de ter Direitos, inclusive a alegria.

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. O riso tornou-se um ato de resistência.
    Paulo Gustavo

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