quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Família Negra! Arroz misturado...


“Você vai levar o arroz pra misturar lá?” (pausa) “Não, nêga! Já põe cozido mesmo, e lá só mistura”(pausa) “É uai, só mistura lá”(pausa) “ Estraga nada! Foi assim da outra vez! Cê tá caduca!?” (pausa) (risada!!!!) “Tem isopor aqui, vou pedir o Dito pra levar aí pra você”...

Ouvi esses pedaços de conversa num sábado, há muitos anos... Final de tarde, véspera da comemoração dos 50 anos de meu pai e dos 90 e tantos de minha vó. Tinha um ônibus alugado pra levar todo mundo num sítio onde teria quadrilha, bandeirinhas, piscina, churrasco, karaokê, futebol, e um tanto de outras coisas pra família toda. Poucas posses e muita criatividade!

Carminha e Cirene conversavam ao telefone acertando os últimos detalhes do que seria servido no almoço. O telefone foi tocando durante toda a tarde, e do lado de cá da linha, ora minha mãe gargalhava, ora eu via que elas não estavam se entendendo muito sobre a logística do almoço... E seguiram assim quase até o dia seguinte... E lá na festa, das muitas belas imagens que seguem vivas em minha memória, uma das mais fortes é a de Cirene debruçada em cima do isopor misturando o arroz: “ô Gorda! Joga mais frango aqui que é pra ficar farto”

Aquela festa enorme, como tantas outras enormes festas, é uma metáfora do que foi (e segue sendo), por longos e longos anos, a minha família! Um monte de gente preta, alegre, confusa, ás vezes desordenada, e sempre solidária! Sob o braço da Maria Joana, e a firmeza da Carminha, os afetos iam se fazendo e refazendo-se nas experiências de encontros repletos das mais variadas vivências de diálogo, entrega, acolhida e celebração! Acolhida aprendida nas interações diante de alegrias, tragédias, conquistas e perdas

Tudo vivido junto, misturado, falado (e falado bem alto), conversado! No seu tempo, do seu jeito, no seu espaço... Sem delimitações prévias! Acolhida e encontro. No meio dos de sangue, em meio à tantos outros que se juntaram. Cirene, e outros uns, se achegaram, e ela, além do arroz, misturava-se nas histórias, nos conflitos, nas tragédias que experimentamos ao longo da vida. Se o barranco cai lá na casa do Tião, todo mundo se abriga lá na casa da vó... Se a Cilinha tem que sair pra trabalhar, leva as crianças lá pra Carminha olhar... Se tem o sonho de levantar a casa própria, junta com a Cirene, e entra as duas pro mutirão, pra ir por aí, junto de outras pretas e pretos, ajudando a levantar parede e encher laje... Se é a primeira comunhão da Giane chama lá a outra Carminha pra fazer o bolo que a menina gosta...

 Juntos pra chorar. Juntos pra vibrar! E essas tantas imagens, tão pulsantes em minhas memórias, desenham uma experiência bem comum à tantas famílias negras em diáspora! A alegria do aconchego diante da porta sempre aberta para acolher! Do mesmo modo que a ancestralidade de diversas regiões da África vivenciou suas interações afetivas e sua vida na coletividade. No meio da roda... No diálogo com a vida! Sem temer o que a vida tem... Uma tradição oponente ao ideal de família (branca) burguesa, a família preta dialogando com a vida, não dá valor ao silêncio envergonhado diante das dificuldades de um dos seus. Os tantos seus...

A família preta no meio da roda tem apreço pela partilha, pela acolhida, pela palavra... Todo mundo entra! Todo mundo fala!Todo mundo escuta! Se tem pra um, tem pros outros todos! A família preta em diáspora traz, nas marcas de seus passos, a experiência das portas sem trancas, do diálogo como rotina, do fazimento de laços de afeto que ultrapassam, em muito, as delimitações, tão brancamente capitalistas, de família, de afeto, de encontro, de entrega, de acolhimento...

Não é sem motivo, que as formas de tratamento na vivência das religiões, que se constituíram na diáspora, são mãe, pai, irmã,  irmão... Uma experiência de uma família que não precisa de sangue para se firmar diante do Sagrado da vida. Uma família onde a ancestralidade é respeitada sem que filhas e filhos sejam apenas daquele lugar, daquela pessoa, daquele núcleo... O miolo tem todo tipo de farelo!  Filhos e Filhas somos todas e todos... Unidos pela potência dessa forma de vida, atravessados pela experiência ímpar de ser mulher e homem na diáspora negra. E na gira cabe todo mundo, todo mundo entra, todo mundo se encontra no cuidado, no acolhimento, na dança!

E aí, nessa experiência de ancestralidade talvez resida uma dificuldade que vou levando pela vida. Minha limitação em compreender (e vivenciar...) as relações circunscritas pelos lugares que os nomes criam... A mãe, o pai, o irmão, a amiga, o namorado, a esposa, a filha, o vizinho... O ocidente branco ensinou que para cada nome tem um lugar, e para cada lugar uma forma de afeto delimitada pelo modo como os sentimentos, os desejos, as entregas devem ser vivenciados e celebrados. A invenção branca e ocidental chamada capitalismo, estabelece até dias e datas para que esses lugares e afetos sejam exaltados, reverenciados, presenteados, e assim, cada vez mais circunscritos a partir de um manual do que é previsto para cada lugar, cada afeto e cada vivência...

Nesse modelo não cabem afetos de portas abertas, de diálogo com a vida, da roda de encontro. Para cada afeto um lugar, para cada lugar um jeito de sentir, e para tudo isso uma limitação sem tamanho diante da grandeza do que é a vida, do que são as experiências, do que é o encontro... Esse encontro que pode, sim, ser experimentado nos laços que o cotidiano cria, sem a necessidade de diferenciar as gostanças, as sabenças, as peles em contato... Diferença nos desejos, porque desejo vai caçando sua volta no andar da nossa cultura... E anda desejo, anda experiência, anda falares, dizeres, sentires... Andam pro lado que o sentimento manda andar, porque tem porta aberta pra acolher as gentes e seus muitos encontros de tão infinitos significados! Encontros de infindáveis resistências que a gente preta aprende todo dia, o dia todo nessa vida...

Encontro de gente... Gente!

Caminhando por aí... Se esbarrando na vida... Indo... Vindo... Permanecendo... Fazendo... E encontrando, encontrando e encontrando...

         Encontrando na vida e misturando o arroz pra festa!!!!!


9 comentários:

  1. Ah ♥ ♥ ♥
    Que esses seus textos fazem a gente sentir vontade de ser farelo desse miolo também, Amiga querida!

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  2. Essa é a nossa família Preta e orgulhosa que segue forte,pois somos filhas da Maria,Tanta,Carminha.Emocionada e apaixonada com suas palavras,linda prima preta prima Giane Elisa

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  3. Mais uma vez você me emociona, os detalhes, eu sinto de cá essa coisa boa desses encontros, o quanto é presente.❤

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  4. Encontrando.... E sem.dúvidas... Esse tal papai-mamãe freudiando capitalizado desandou as relações familiares. O negócio é esse: ao.invés de clarear enegrecer as relações familiares!!! E encantando nas separações precisas e nacapitaliza dos possíveis!
    Bota mais arroz e feijão! !!


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  5. Não tem como não se emocionar, espetacular.

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  6. Chorona eu, num rio de lágrimas negras e emocionadas! Adorei!

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  7. História adorável, forte e tão presente na vida de nós todxs pretxs.

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  8. Texto maravilhoso! Obrigada pela partilha...

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  9. Uauuu!! Profundo, emocionante e maravilhoso! As "Carminhas", as "Cirenes", as nossas pretas, são tão presentes em nossas famílias! Tão vivas e tão irradiadoras dessas sabenças que marcam, que nos forjam, que nos prepararam para nunca deixarmos de ser essa gente guerreira, de portas abertas!! Muito emocionante, parabéns!

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