“Você
vai levar o arroz pra misturar lá?” (pausa) “Não, nêga! Já põe cozido mesmo, e
lá só mistura”(pausa) “É uai, só mistura lá”(pausa) “ Estraga nada! Foi assim
da outra vez! Cê tá caduca!?” (pausa) (risada!!!!) “Tem isopor aqui, vou pedir
o Dito pra levar aí pra você”...
Ouvi
esses pedaços de conversa num sábado, há muitos anos... Final de tarde, véspera
da comemoração dos 50 anos de meu pai e dos 90 e tantos de minha vó. Tinha um
ônibus alugado pra levar todo mundo num sítio onde teria quadrilha,
bandeirinhas, piscina, churrasco, karaokê, futebol, e um tanto de outras coisas
pra família toda. Poucas posses e muita criatividade!
Carminha
e Cirene conversavam ao telefone acertando os últimos detalhes do que seria
servido no almoço. O telefone foi tocando durante toda a tarde, e do lado de cá
da linha, ora minha mãe gargalhava, ora eu via que elas não estavam se
entendendo muito sobre a logística do almoço... E seguiram assim quase até o
dia seguinte... E lá na festa, das muitas belas imagens que seguem vivas em
minha memória, uma das mais fortes é a de Cirene debruçada em cima do isopor
misturando o arroz: “ô Gorda! Joga mais frango aqui que é pra ficar farto”
Aquela
festa enorme, como tantas outras enormes festas, é uma metáfora do que foi (e
segue sendo), por longos e longos anos, a minha família! Um monte de gente
preta, alegre, confusa, ás vezes desordenada, e sempre solidária! Sob o braço da
Maria Joana, e a firmeza da Carminha, os afetos iam se fazendo e refazendo-se
nas experiências de encontros repletos das mais variadas vivências de diálogo,
entrega, acolhida e celebração! Acolhida aprendida nas interações diante de
alegrias, tragédias, conquistas e perdas
Tudo
vivido junto, misturado, falado (e falado bem alto), conversado! No seu tempo,
do seu jeito, no seu espaço... Sem delimitações prévias! Acolhida e encontro.
No meio dos de sangue, em meio à tantos outros que se juntaram. Cirene, e
outros uns, se achegaram, e ela, além do arroz, misturava-se nas histórias, nos
conflitos, nas tragédias que experimentamos ao longo da vida. Se o barranco cai
lá na casa do Tião, todo mundo se abriga lá na casa da vó... Se a Cilinha tem
que sair pra trabalhar, leva as crianças lá pra Carminha olhar... Se tem o
sonho de levantar a casa própria, junta com a Cirene, e entra as duas pro
mutirão, pra ir por aí, junto de outras pretas e pretos, ajudando a levantar
parede e encher laje... Se é a primeira comunhão da Giane chama lá a outra
Carminha pra fazer o bolo que a menina gosta...
Juntos pra chorar. Juntos pra vibrar! E essas
tantas imagens, tão pulsantes em minhas memórias, desenham uma experiência bem
comum à tantas famílias negras em diáspora! A alegria do aconchego diante da
porta sempre aberta para acolher! Do mesmo modo que a ancestralidade de diversas
regiões da África vivenciou suas interações afetivas e sua vida na coletividade.
No meio da roda... No diálogo com a vida! Sem temer o que a vida tem... Uma
tradição oponente ao ideal de família (branca) burguesa, a família preta
dialogando com a vida, não dá valor ao silêncio envergonhado diante das
dificuldades de um dos seus. Os tantos seus...
A
família preta no meio da roda tem apreço pela partilha, pela acolhida, pela
palavra... Todo mundo entra! Todo mundo fala!Todo mundo escuta! Se tem pra um,
tem pros outros todos! A família preta em diáspora traz, nas marcas de seus
passos, a experiência das portas sem trancas, do diálogo como rotina, do
fazimento de laços de afeto que ultrapassam, em muito, as delimitações, tão
brancamente capitalistas, de família, de afeto, de encontro, de entrega, de acolhimento...
Não
é sem motivo, que as formas de tratamento na vivência das religiões, que se
constituíram na diáspora, são mãe, pai, irmã, irmão... Uma experiência de uma família que
não precisa de sangue para se firmar diante do Sagrado da vida. Uma família
onde a ancestralidade é respeitada sem que filhas e filhos sejam apenas daquele
lugar, daquela pessoa, daquele núcleo... O miolo tem todo tipo de farelo! Filhos e Filhas somos todas e todos... Unidos
pela potência dessa forma de vida, atravessados pela experiência ímpar de ser
mulher e homem na diáspora negra. E na gira cabe todo mundo, todo mundo entra,
todo mundo se encontra no cuidado, no acolhimento, na dança!
E
aí, nessa experiência de ancestralidade talvez resida uma dificuldade que vou
levando pela vida. Minha limitação em compreender (e vivenciar...) as relações
circunscritas pelos lugares que os nomes criam... A mãe, o pai, o irmão, a
amiga, o namorado, a esposa, a filha, o vizinho... O ocidente branco ensinou
que para cada nome tem um lugar, e para cada lugar uma forma de afeto
delimitada pelo modo como os sentimentos, os desejos, as entregas devem ser
vivenciados e celebrados. A invenção branca e ocidental chamada capitalismo,
estabelece até dias e datas para que esses lugares e afetos sejam exaltados,
reverenciados, presenteados, e assim, cada vez mais circunscritos a partir de
um manual do que é previsto para cada lugar, cada afeto e cada vivência...
Nesse
modelo não cabem afetos de portas abertas, de diálogo com a vida, da roda de
encontro. Para cada afeto um lugar, para cada lugar um jeito de sentir, e para
tudo isso uma limitação sem tamanho diante da grandeza do que é a vida, do que
são as experiências, do que é o encontro... Esse encontro que pode, sim, ser
experimentado nos laços que o cotidiano cria, sem a necessidade de diferenciar
as gostanças, as sabenças, as peles em contato... Diferença nos desejos, porque
desejo vai caçando sua volta no andar da nossa cultura... E anda desejo, anda
experiência, anda falares, dizeres, sentires... Andam pro lado que o sentimento
manda andar, porque tem porta aberta pra acolher as gentes e seus muitos
encontros de tão infinitos significados! Encontros de infindáveis resistências
que a gente preta aprende todo dia, o dia todo nessa vida...
Encontro
de gente... Gente!
Caminhando
por aí... Se esbarrando na vida... Indo... Vindo... Permanecendo... Fazendo...
E encontrando, encontrando e encontrando...
Encontrando
na vida e misturando o arroz pra festa!!!!!

Ah ♥ ♥ ♥
ResponderExcluirQue esses seus textos fazem a gente sentir vontade de ser farelo desse miolo também, Amiga querida!
Essa é a nossa família Preta e orgulhosa que segue forte,pois somos filhas da Maria,Tanta,Carminha.Emocionada e apaixonada com suas palavras,linda prima preta prima Giane Elisa
ResponderExcluirMais uma vez você me emociona, os detalhes, eu sinto de cá essa coisa boa desses encontros, o quanto é presente.❤
ResponderExcluirEncontrando.... E sem.dúvidas... Esse tal papai-mamãe freudiando capitalizado desandou as relações familiares. O negócio é esse: ao.invés de clarear enegrecer as relações familiares!!! E encantando nas separações precisas e nacapitaliza dos possíveis!
ResponderExcluirBota mais arroz e feijão! !!
Não tem como não se emocionar, espetacular.
ResponderExcluirChorona eu, num rio de lágrimas negras e emocionadas! Adorei!
ResponderExcluirHistória adorável, forte e tão presente na vida de nós todxs pretxs.
ResponderExcluirTexto maravilhoso! Obrigada pela partilha...
ResponderExcluirUauuu!! Profundo, emocionante e maravilhoso! As "Carminhas", as "Cirenes", as nossas pretas, são tão presentes em nossas famílias! Tão vivas e tão irradiadoras dessas sabenças que marcam, que nos forjam, que nos prepararam para nunca deixarmos de ser essa gente guerreira, de portas abertas!! Muito emocionante, parabéns!
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