sábado, 23 de setembro de 2017

Carta ao Branco de branco corpo

Olá Branco,

Dia desses, na costumeira viagem pelas redes sociais, fui ter com três situações postadas que, de seus desdobramentos um tanto de pensamentos e conexões foram revelando a matreirice branca brasileira diante da dureza do racismo que sofro no cotidiano.

        Matreirice, Branco, é uma palavra que, ao menos a mim, remete a um modo dançante de fruir a vida. Dança mesmo. Dessa que tem pernas, braços, melodia, ritmo, corpos se encontrando... Daí, Branco, que matreirice talvez não seja a melhor palavra para nomear isso que estou atribuindo à uma espécie de pensamento branco brasileiro. Um que se esquiva, que se faz de desentendido, que tira o corpo fora. Corpo branco. O seu corpo branco.

Estava lá uma foto de Rafael Braga, condenado há 11 anos de prisão por portar 9,3 g de cocaína e 0,6 gramas de maconha, saindo do encarceramento pelo “benefício” da prisão domiciliar. Essa, concedida para que Rafael possa se tratar de uma tuberculose adquirida no período de encarceramento. Aí, que a foto do momento mostrava Rafael cercado de pessoas brancas como você. Todas sorridentes. Numa dessas postagens comentei o curioso das relações raciais no Brasil: os brancos que encarceram eram, ali na foto, também os brancos festejando a conquista de Rafael...

Mais adiante, Branco, na mesma rede, tava lá, um vídeo onde o cantor Carlinhos Brown, numa apresentação num evento de rock, em 2001, era atacado por um saraivada de copinhos de plástico atirados pelo público presente. Ali, Branco, ficou meu comentário: os racistas estão em toda parte.

Por fim, encontrei a imagem da cerveja preta do Moçambique fazendo alusão ao corpo de mulheres negras. O corpo do sexo bom, da volúpia, do prazer... Escrevi lá: não é fácil ser mulher negra em diáspora.

Aí, Branco, quase que imediatamente, nas três postagens, os de corpos brancos apareceram para falar de meu equívoco na interpretação das imagens! “Os brancos aparecem onde os negros não estão”, “música não tem cor”, “os copinhos são atirados no músico porque ele não é roqueiro”, “Lobão é branco e levou copinho na cara” “mas a loura também é objetificada nas propagandas de cerveja”... Esses foram os argumentos mais recorrentes nos comentários que se contrapuseram às minhas observações. Não! Não são observações, Branco. São experiências.

Experiências inscritas no meu corpo, que no processo da diáspora é vivenciado como um enunciado constante. Sem cessar. Sem intervalos. Sem pausas. Meu corpo carrega inscrições que o fazem ser um discurso sobre meu lugar no mundo. Meu não lugar nos vários lugares. Meus encontros. Aquilo que me é possível.

Um corpo negro, Branco, nunca é só um corpo negro. Ele é o atravessamento das experiências que o racismo promove. É atravessamento de exclusões e silenciamentos. As mesmas que seguem se refazendo dia a dia até mesmo quando conseguimos nos insurgir contra elas.

Há sempre um corpo branco como o seu dizendo que não é bem assim. Há sempre um corpo branco como o seu desconsiderando que como em toda trama, os fios estão entrelaçados por experiências que demarcam as presenças e ausências de uma história milenar.

Expanda-se, Branco, e ajeite seu pensamento para pensar a macro estrutura da sociedade racista em que vivemos se imiscuindo na micropolítica do cotidiano. Estamos falando de ideologia, e não do que você faz pontualmente no seu cotidiano para ser um Branco bacana. Assuma sua pele diante da falta de opção que eu tenho quando se trata de assumir a minha pele.

Não Branco, você não deveria ter o direito de se furtar disso. As inscrições grafadas em minha pele, em meu cabelo, em meu nariz, em minha voz foram feitas por você, por seu povo e por sua história. Você escreveu isso, mas quer seguir na vida como se a letra não fosse sua. Ela é. Ela determina espaços. Ela circunscreve experiências. Ela sufoca. Oprime. Silencia. Adoece. Mata.

Não Branco, eu sei que você queria que fosse assim do jeito que você pensa. Mas não é. Seu corpo não lhe permite viver a experiência do não racismo. O racismo parte de ti. Ele está em você e no nosso encontro ele chega até a mim. Joga-me as letras que compõem o texto sobre minha história nesse caminho. Você não me escreve. Você não me define, mas minhas experiências de sofrimento, medo, abandono e morte estão marcadas no seu corpo, porque é dele que elas nascem. Não fuja disso. Não negue isso. Perca o medo do racismo que você constrói, alimenta e mantem. Desconforte-se e teça seus fios na trama que estamos aqui a compartilhar.

Compartilhe-se.

Não ignore seu corpo. Seu corpo diante do meu é sempre seu corpo branco diante do meu corpo negro. Você tem seus desejos, suas escolhas, suas bacanices, suas construções positivas, suas superações diante do racismo. Que bom para o mundo que você tenha! Mas não se exima de pensar-se nesse corpo quando a história não me permite pensar a mim fora do meu corpo. Eu não estou sozinha nessa teia. Você está aqui comigo ainda que eu não queira, ainda que você não queira.

Nós estamos.

        E não estamos em lugares iguais. Por onde eu for meu corpo me anuncia, e com você não deve ser  diferente, meu caro. Ainda que suas tessituras estejam coloridas pelo amor, pelo afeto, pelo cuidado constituído nas relações que criamos juntos, elas não estão livres de todas as marcas que sua pele representa diante da minha.

Não ignore isso.

Não ignore a violência da qual tu é vítima. Não vire a cara para a violência que você promove. E, nas duas, não desconsidere seu corpo branco. Seu corpo branco tem histórias para além do que eu e você temos aqui hoje. Meu corpo não fica fora dessa relação. O seu também não deve ficar.

Desestabilize-se.

Você não é SÓ o seu corpo branco. Mas o seu corpo branco diz muito sobre as histórias que você pode contar.

Então, Branco, funciona assim: O copinho de plástico que chega na cara preta do Carlinhos Brown, não chega na cara branca do Lobão com a mesma força. Falo de força histórica. O peso de uma agressão numa cara preta, nunca é o mesmo peso de uma agressão numa cara branca. O Rafael Braga cercado de gente branca sorridente, ao ser transferido para prisão domiciliar, significa o desenho da tensão confusa que atravessa nossas relações nesse país. O corpo que ora celebra sua conquista é o corpo que o faz encarcerado, que o faz turbeculoso, e que o faz sorrir sem dentes na boca. A loura objetificada na garrafa de cerveja não deixa de ser objetificada, mas as saídas, as alternativas e as resistências diante dessa objetificação a que brancas e negras estamos submetidas não são forjadas pelas mesmas experiências, e nem construídas com as mesmas possibilidades.

         Não são.

O seu corpo branco na gira não é o meu corpo negro na gira. O seu corpo branco no funk não é o meu corpo negro no funk. O seu corpo branco no samba não é o meu corpo branco no samba. O seu corpo branco na violência não é o meu corpo negro na violência.

Não é.

O seu corpo branco é o seu corpo branco e ele não é só um detalhe diante do meu corpo negro. Pare de se comportar como se sua pele não fizesse diferença na sua forma de estar no mundo. Seja ela qual forma for. Faz diferença.

Corporalize-se!

A experiência está posta se teu ouvido tiver consciência histórica para poder escutar. Minha voz não mais se cala.

Nunca mais.

Podemos cantar juntos nos passos da minha diáspora. Mas ela é minha. O tambor é meu. O grito é meu. O brado é meu. A composição que podemos fazer juntos não mistura nossos corpos diante de nossas experiências inteiramente diversas. Você é Branco. Eu sou negra.


Podemos seguir em infinitos caminhos. Você sendo Branco. Eu sendo negra. E ainda assim seguir. Sem silenciamentos, com lugares postos, tramas reveladas e possibilidades construídas dentro disso. Essa é a nossa realidade, e ela só se torna impeditiva se você, Branco, permanece fingindo que nossas peles não interferem na nossa vida e em tudo o que vivemos dela.

Ocupando lugares diferentes nós nos interferimos.

E é isso.


10 comentários:

  1. Que honra poder a cada dia mais aprender com você! Meu Respeito e gratidão pelos ensinamentos.

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  2. A toda hora eu deparo com uma perspectiva nova, que ainda não havia cruzado o céu azul da minha ingenuidade branca. Por isso leio e releio tanto esses textos que, sendo sobre mim, me mostram o quão pouco eu me conheço, o quanto falta eu me conhecer, e como o mundo seria um lugar tão menos hostil se todos tivessem esse precioso acesso a profundas verdades sobre si próprio.

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  4. Realmente... Não são observações Giane, são Vivências. Branco nenhum passou pelas terríveis experiência e violações que o negro passou... O branco nunca experimentou porões, correntes, chicotes e forcas... E o Racismo está presente no nosso cotidiano mas de fato ocupando lugares diferentes. Um promove enquanto o outro sofre, o Racismo bate na porta dos negros todos os dias quando aparecem nas estatísticas de homicídios e violência.O racismo institucional velado... As experiências são diversas... Ontem mesmo vi uma página na Internet que promove práticas racistas descaradamente... Fiquei chocada... Reginaldo denunciou a página para o ministério público, mas milhares de negros e negras já leram as postagens e passaram pela experiência que se repete diariamente das formas mais destintas. quero agradecer pelo espaço de reflexão prq quando minhas filhas que negras partilham desse lugar... Tenho certeza que saem fortalecidas. Quando Naiara diz que vai ser como Vc... Permite a elas colher frutos dos seus esforços e viver realidades diferentes. Enquanto o branco não entender que ele sempre ocupou e ainda ocupa um lugar de privilégio na sociedade... Essas práticas vão continuar.Tamo juntas mesmo que ocupando lugares diferentes...

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  5. Realmente... Não são observações Giane, são Vivências. Branco nenhum passou pelas terríveis experiência e violações que o negro passou... O branco nunca experimentou porões, correntes, chicotes e forcas... E o Racismo está presente no nosso cotidiano mas de fato ocupando lugares diferentes. Um promove enquanto o outro sofre, o Racismo bate na porta dos negros todos os dias quando aparecem nas estatísticas de homicídios e violência.O racismo institucional velado... As experiências são diversas... Ontem mesmo vi uma página na Internet que promove práticas racistas descaradamente... Fiquei chocada... Reginaldo denunciou a página para o ministério público, mas milhares de negros e negras já leram as postagens e passaram pela experiência que se repete diariamente das formas mais destintas. quero agradecer pelo espaço de reflexão prq quando minhas filhas que negras partilham desse lugar... Tenho certeza que saem fortalecidas. Quando Naiara diz que vai ser como Vc... Permite a elas colher frutos dos seus esforços e viver realidades diferentes. Enquanto o branco não entender que ele sempre ocupou e ainda ocupa um lugar de privilégio na sociedade... Essas práticas vão continuar.Tamo juntas mesmo que ocupando lugares diferentes...

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  6. A minha trajetória profissional foi construída em espaços compartilhados por quem sofre as dores produzidas pela exclusão. Os corpos "protegidos" nos abrigos para crianças, brancas e negras, marcados igualmente pelo abandono ou por experiências traumáticas, notadamente revestidos pela pele negra, no tecer das relações, ao já vivenciado eram acrescidas novas por menos colo, menos beijos, menos "eu te amo e isso vai passar", menos "vou te levar pra casa" e mais "fulano não tem jeito". Tenho certeza que a minha dor de branca ao testemunhar essa realidade, por mais empatia não me trouxe o sequer saber o saber por experiência com minha branquice o que é passar por isso. Fui enriquecida partilhando histórias com as pessoas com deficiências e suas marcas de exclusão e em algum ponto eu pensava Ou dizia:"eu sei o que você tá passando", mas com o racismo, eu tive a experiência de maior desconforto, pois senti a dor na minha pele branca. A dor do privilégio que me cegou, que me deixou surda, que me paralisou, que me fez perceber minhas múltiplas ineficiências em me bridar com a força e a garra da resistência negra que quero germinar, crescer e tomar meu ser branco. E esse despertar veio com a experiência de "final de carreira", através do Ciranda Cidadã, com você Giane. E com isso, posso nomear minhas outras vivências, e agradecer pelo amor que já fazia parte lá trás. Gratidão.

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  7. Só agora tive o tempo necessário para ler o que me é necessário, com cuidado e atenção. Não sou estudiosa do assunto, e me enxergo por inúmeras vezes,racista, é um "trem" escroto, enraizado na gente, que passa desapercebido em situações tênues. Sobre "ser" e "sentir", os brancos, nunca saberão as dores e marcas dos negros. A "gente" de fato só "alcança" a dimensão da dor quando passa por ela. Após episódio recente e infeliz na minha vida, pude de fato "alcançar" o que algumas mulheres me diziam sobre serem vítimas de seus companheiros. Embora eu estivesse ali, atenta, solidária a elas e exercendo minha atividade profissional, não tinha a real dimensão do drama. Eu "precisei " sentir na pele para alcançar, algo tão complexo de uma dor que fere em vários níveis e aniquila de várias formas. Logo, é preciso ter a carne cortada para ver o quanto sangra. Sei que dessa "coisaiada" toda, foi a sua mão uma das mais atentas e estendidas a mim. Você me fez e me faz refletir o quão privilegiada sou. E de fato, é preciso sentir na pele. Muito obrigada por me fazer pensar e ser um pouquinho melhor nesse mundo.

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  9. Poder ter a grata oportunidade de aprender com você é sem explicações. Obrigada por ter coragem de dizer daquelas coisas que nos intala a garganta. Vc é uma daquelas mulheres pretas que eu olho e afirmo: quero ser como ela quando eu crescer.. obrigada por ser inspiração.
    O texto tá lindo e muito bem escrito. Vou enviar pra alguns amigos ...

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