domingo, 16 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 1




Essa semana Madonna lançou seu 14° álbum! Eu, fã desde os 13, 14 anos de idade, ouço cada faixa e me encanto com a versatilidade e originalidade dessa mulher! Não só como artista, mas também como cidadã do mundo. Aí, na empolgação de compartilhar com algumas pessoas, também fãs da “blond ambition”, me deparei com o texto de Bell Hooks, famosa intelectual feminista negra norte americana discorrendo sobre os vários comportamentos racistas de Madonna ao longo de sua carreira. Segundo Bell, carreira marcada, dentre outras coisas, pela apropriação da cultura negra travestida de  suposto comprometimento com as “causas” negras... Uma irritação inicial, e logo em seguida a avaliação de que várias críticas da intelectual têm, sim, fundamento, o que para mim nem se configura como um grande choque ou surpresa. Madonna é uma mulher branca. Ponto. Pessoas brancas, em virtude da construção social de nossas sociedades, são, a priori, racistas. Assim como a sociedade que me construiu mulher cisgênero heterossexual me faz, a priori, LGBTTQI+fóbica. É assim que é.

Mas não é o racismo de Madonna ou a discussão se ela é ou não uma branca boazinha que me traz aqui. Quero falar de mim. Eu Negra. Eu que vivo sob uma pele preta, experimentando as nuances e dobras que o racismo oferece. Eu Negra. Mulher. Eu que vivo num corpo marcado pelas imposições do machismo, do sexismo e de todas as regulações que eles constroem para a experiência de TODAS as mulheres. Eu Mulher Negra. Eu que carrego em minha trajetória os traços de como a intercessão desses pertencimentos se transforma em experiências de construção identitárias invariavelmente identificadas com a dor e a solidão.

E eu Mulher Negra quero falar disso. De trajetória. Da única trajetória que conheço e sinto por inteiro. A minha. Os meus passos nesse mundo desenhando a Mulher Negra que sou hoje, os passos que encontrando com outros tantos me desenham em inúmeras possibilidades que fazem de mim ser quem eu sou. Com dores e alegrias. Com interditos e possibilidades. Eu. Negra. Mulher.

E, foi a partir das considerações que li sobre Madonna, que outras considerações foram sendo tecidas de mim sobre mim. E já aqui a estranheza pode ser localizada, na medida em que é a crítica à um corpo branco que me move na tentativa de refletir minha trajetória negra... A vida. Cheia de reentrâncias e contradições.

Sou filha da Carminha e do Expedito. Isso, para quem os conhece explica boa parte dessa conversa e, para quem não os conhece apresento aqui alguns pontos que julgo definidores de variadas questões sobre minha identidade. Identidade que é só minha, mas que se atravessa na construção de outras tantas vivências de mulheres negras diáspora brasileira á fora.

Carminha era a caçula de sete filhos, nasceu sem pai, com uma mãe, Maria Joana, que pouco tempo depois de viúva se enamorou, e grávida, decidiu deixar a pequena cidade onde viviam, fugindo de maledicências e falatórios. Carminha foi criada entre trouxas de roupas e restos de feira e, dali, foi se transformando numa jovem sonhadora e aguerrida. Sem romantismos de minha parte... Carminha foi militante na igreja católica e, como empregada doméstica, estava junto das primeiras organizações dessas trabalhadoras. Correu da polícia, empunhou bandeiras e, nos meus guardados, há muitos registros fotográficos de passeios, piqueniques, bailinhos e até de show de calouros. Carminha era fã de Emilinha Borba e, em todas as oportunidades ia para o Rio de Janeiro acompanhar a cantora na Rádio Nacional. Estudou até onde pôde e concluiu, já adulta, o segundo grau. Nas palavras de minha avó, Carminha era a que “ninguém podia  com ela.” Um dia ela conheceu o Expedito.

Já Expedito não era das badalações. Nasceu na roça, ficou órfão muito cedo. Primeiro do pai e, logo em seguida, de uma mãe, que até hoje não se sabe ao certo como morreu... Há quem diga que tomou remédio errado, o curioso é que era mateira, sabia das coisas... Era também, segundo contam, uma mulher muito bonita, formosa e empregada numa fazenda no interior de Minas, lá de um tempo, não muito longe, onde os fazendeiros ainda se comportavam como “donos” de seus empregados. Sei lá se isso, mudou... O fato é que Francisca morreu, sem muitas explicações, pouco depois de seu marido Augusto, e deixou pra trás sete filhos, dentre eles, o Expedito, que aos três anos de idade, ao contrário de meus tios e tias mais velhos, teve a sorte de ser mandado para a família de uma tia. A avó paterna que conheci, Sebastiana!!! Uma preta, muito preta, que amava o Expedito um tanto que nem sei, e eu bem desconfio que esse amor tinha muita relação com o fato de Expedito ter a pele mais clara em relação aos irmãos, e o cabelo menos crespo se comparado ao restante da família... Também eu, era a neta mais amada... Expedito foi criado por um pai que, segundo ele, “adorava bater mas era amoroso”, Expedito viveu uma infância pobre e acolhedora. Já adolescente foi jogar futebol no time lá da roça e, por causa das cores da camisa se tornou torcedor do Botafogo. Não pôde estudar para além do curso primário que a escola da roça oferecia, e veio cedo trabalhar em Juiz de Fora num armazém, fazendo entregas. Bem jovem conheceu a Carminha.

Formaram um casal e juntos construíram uma vida. O Expedito quase dez anos mais novo que a Carminha, e muito cobiçado por várias jovens, inclusive as da família para a qual pretendia entrar. A Carminha bastante fora dos padrões da moça casadoira. Se sustentava sozinha, era gorda, gostava de estudar, vivia metida com política, namorava bastante e, na falta de calçados femininos que coubessem em seu pé gordo, usava os masculinos mesmo que, quase sempre, “herdava” de seu patrão.

Expedito assumiu as bandeiras, a família extensa, as muitas amigas. Os dois fizeram de mim uma menina negra consciente de minha negritude: “podem te chamar de neguinha, de pretinha, só não podem te chamar de macaca.” Proporcionaram à mim um lar repleto de diálogo, possibilidade de escolhas e liberdades que poucas meninas à minha volta puderam experimentar, sem ter junto conflitos e confusões... Carregavam-me para tudo que é tipo de movimentação política em que estiveram envolvidos. Das belas imagens que minha memória guarda tem eu, nas costas de meu pai, assistindo, em minha cidade, o comício das Diretas Já! Ou eu, junto com minha melhor amiga branca, a Sandra, sendo levadas pelo Expedito para o comício de Lula, na primeira eleição direta pós ditadura militar. Me ensinaram disciplina, responsabilidade e amor... Amor pelas gentes, pelos animais, pelos livros, pela música. Pela vida! Carminha adorava viver! Decidiram como principal investimento a minha educação, proporcionando uma das melhores escolas da cidade e várias outras possibilidades de construção humana e estética: música, teatro, esportes, dança... Acompanharam tudo de perto, por várias vezes denunciaram o racismo na instituição em que eu estudava, e em espaços em que eu frequentava, para que eu fosse protegida. E sempre, sempre incentivaram-me a enfrentar a discriminação racial, mesmo quando nem davam esse nome para as vivências que compunham a vida das pessoas pretas. Jamais, por minhas possibilidades diferenciadas de uma criança e adolescente de classe média, me afastaram do convívio de minha família pobre, preta, significativamente periférica: “você tem que ir nos lugares onde suas primas vão.”

         Eram parceiros, presentes, comprometidos e eu, NUNCA ouvi de um com outro um grito que fosse. Discussões e desentendimentos existiam, mas nunca, na minha presença, descambaram para humilhações e desmerecimentos. Cuidaram-se! Compartilharam-se! Viveram juntos por 32 anos e, até o último momento, foi ele quem cuidou dela, foi ele quem esteve do lado acompanhando os últimos anos de vida... E, nas últimas horas, quando a respiração já ia embora, nos momentos em que Expedito se aproximava de Carminha, no leito da UTI, o monitor cardíaco apitava numa contagem disparada... Amor até literalmente o fim. Estive lá, com eles, durante toda minha vida com ela, e no momento da despedida... Esse, triste... Porém, repleto de ternura, cuidado, sensibilidade e força.

Foi essa família que me trouxe ao mundo. Foram essas pessoas que costuraram os primeiros e mais importantes fios tecendo a mulher que sou. Eu Negra Mulher diaspórica sou fruto dessa história (bem resumida) e carregada de significados. Vim de uma mulher que não aceitou sobre si muitas imposições, que transgrediu no corpo, no cabelo, no figurino e nas atitudes diante da vida. Ela veio de mulheres que de algum modo a fizeram assim. Vim de um homem negro doce, sensível, comprometido e amoroso. Essas pessoas estão em mim.

Defeitos vários os dois tinham, e eles também me escrevem, porém, a escrita da vida que meu corpo carrega é essa, de ternura, força, coragem, amizade, diálogo, entrega e amor! Um imenso e indescritível amor que sinto exalar por minha pele preta em diáspora. Aqui, começo a tracejar os caminhos que me trazem nesse percurso reflexivo sobre minha memória. Minha apenas. Não única! Minha. Potente e não livre das artimanhas, corruptelas e estratagemas do racismo. Racismo brasileiro. Único no mundo e universal para todo mundo que é preta.

Vem junto! Daqui a pouco, na próxima postagem, te conto mais e tu vai saber o que o álbum novo da Madonna tem a ver com isso... Inté!


8 comentários:

  1. "esquizoanalise: quefazercomessesaber?", uma que amo ler, Clarissa Alcântara, branca, escreveu. Eis o desafio. Criar vida possível, embora às vezes tão impossível... esperando a parte II.
    ✊✊👏👏👏👏👏

    ResponderExcluir
  2. Essa história explica quem é Giane... Tô arrepiada da cabeça aos pés...

    ResponderExcluir
  3. Ah como meu me inspiro nessa mulher guerreira ��
    Por inúmeras vezes eu sozinha odiei minha cor, meu cabelo, meu corpo, eu tinha(ou ainda tenha) o complexo de inferioridade..
    Foi quando eu conheci a Giane na escola onde eu estudava, eu participei do grupo de teatro dirigido por ela: o "Fala Bethânia" e daí eu pude começar a me aceitar um pouco mais...
    Giane mesmo sem ter contato diário com você, quero deixar registrado aqui o quanto você mudou minha vida... Confesso que não estou totalmente curada dos maltratos e humilhações passados por mim, mas eu te amo pelo simples fato de você ter virado para mim num momento em que eu sofria calada diante de tantos preconceitos e ter me dito (sem saber o que eu estava passando) que eu era linda, que minha voz era linda, e que os negros tinham seu valor�� obrigada por ter contribuído positivamente para meu crescimento pessoal ��

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Fernanda... não tenho palavras... Só lágrimas e o coração queimando...
      Quanta gratidão eu tenho, menina... Muita...

      Excluir
  4. E em lagrimas sutis e silenciosas, escorrendo de ambos os olhos termino essa leitura. E como isso é possível se já tive a imensa oportunidade de ouvir alguns desses relatos algumas vezes? E como ainda tem tanta história linda a ser conhecida sobre você?
    Não é novidade também que suas histórias atravessam a minha atual história e me possibilita tentar reescrever a minha; me auxilia a tentar entender quem é essa NEGRA MULHER que descobri que sou e o que quero pra minha vida.
    Me faz pensar que também tenho a possibilidade de olhar pro passado e identificar aquilo que me tornou o que sou, seja bom ou ruim e a decidir o que fica e o que muda.
    É gratidão demais sabe que você é minha amiga, minha confidente e meu ombro amigo. Saber que tenho alguém não só em quem me inspirar mas alguém com quem aprendo e que também aprende comigo.
    A mulher que tento diariamente ser, tem muito dessas trocas... tem algo de Carminha e de Expedito... de Maria Malta e de Marlene Calazans, tão opostas e tão parecidas em algumas coisas. E ler esse texto me fez pensar que cabe a mim resgatar um pouco disso, me aprofundar na minha história, pensar os caminhos que me trouxeram até aqui... e o que quero de fato pro futuro.
    Gratidão define o que sinto por você e por TODAS as oportunidades que você proporciona em minha vida, pra meu crescimento pessoal, emocional, profissional e por aí vai.
    Você, seus afetos, seus familiares, a Ciranda Cidadã... me trazem diariamente e em diferentes momentos o prazer de seguir tentando, lutando e resistindo.
    Que Deus continue de abençoando, que você siga sendo luz na minha vida e na de outras pessoas.

    ResponderExcluir