segunda-feira, 24 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 2






E cresci assim! Compreendendo que meu lugar no mundo não viria, jamais, sem trabalho, alegria e resistência. Fui andando por esse tal mundo com a “régua e o compasso” que me deram em casa, e deles fui traçando as descobertas variadas sobre a aventura dolorida, e também libertadora, de ser e se compreender mulher negra no Brasil... Não há distinções. Todas somos talhadas no mesmo martelo de ponta firme batendo sobre nossos existires. E assim fui aprendendo e, dia a dia construindo, refazendo-me e descobrindo-me em várias ocasiões, mulher negra. Porque essa identidade não está terminada e vai se construindo nas interações que o racismo e o antirracismo promovem. Enquanto essa faca está apontada para nosso peito é  nos desviando dela que a gente se transforma naquilo que a gente é, numa mistura com o que querem que sejamos. Não há muitas escapatórias... Se nos libertamos, até o dia de quebrar as correntes somos também aquilo que inscrevem em nossos corpos. Se não nos libertamos, nossos corpos são apenas a escrita do que dizem que somos...

E fui sendo assim, muito das tintas de Carminha e Expedito, outros tantos dos coloridos de minha família enorme, e traços variados dos discursos que a branquitude criou para as negras, e que acharam contornos próprios quando de/ao encontro de minhas vivências. Lá na escola católica de gente branca e rica em que eu estudava, as interações eram diversas. Não fui infeliz durante todo o tempo que passei por lá, de igual modo não existem só histórias boas e calorosas para serem contadas, mas não tenho memórias de assédios racistas para narrar, não porque não existiam, mas porque Carminha e Expedito estavam sempre atentos me dando a “régua e o compasso” para o enfrentamento, e demarcando seus próprios espaços de pessoas negras entregando a única filha à um cotidiano branco. “Não grite com ela, Tia Fulana, ela não está acostumada com gritos! Lá em casa ninguém grita com a Giane!” Não eram melhores, mais espertos, mais audazes, eram uma mulher e um homem negros construindo, pelos saberes de sua coletividade, as possibilidades de suas escolhas individuais. Universais e únicos. Pretos buscando e encontrando caminhos de existirem em meio aos interditos, violências e silenciamentos. Que não foram poucos. Não são poucos...

E entre a libertação e a submissão há inúmeras possibilidades. Que não são mais e nem menos, apenas possibilidades que são tantas quantas são as pessoas negras que existem em diáspora. É importante nos referenciarmos de maneira coletiva para que os enfrentamentos sejam sistematizados, principalmente em termos de garantia e promoção de direitos. Mas, não somos uma massa uniforme de experiências únicas. Bell Hooks fala da possibilidade de Madonna ser racista a partir do lugar que é o de uma mulher negra vivendo no norte do mundo, com experiências outras que nem temos conhecimento. E esse lugar não é o mesmo de Giane Elisa, que é uma mulher negra vivendo ao sul do mundo. Ela e eu temos experiências diferentes e isso não é um problema. Ao contrário! É a diversidade de nossa unicidade diante do racismo, que talvez possa nos apontar caminhos diversos no enfrentamento à ele.

Naquela sociedade é provável que Madonna seja só uma mulher branca sendo branca com suas branquices, para mim, e não falo em nome de todas as negras de minha geração (não mesmo!), Madonna é uma referência na MINHA possibilidade de afirmação enquanto mulher. Porque sim. Eu sou negra definida pelos estratagemas do racismo, mas sou também mulher definida pelas nuances do machismo. E Eu Negra sou ainda outras experiências que só se constroem na interação desses dois pertencimentos, e ainda, sou também resultado das interações que podem ser fruto apenas de minhas experiências. E importante dizer, sou fruto de minhas escolhas, porque mesmo escassas, limitadas, comprometidas e afetadas pelo racismo, sim, nós temos escolhas.

E nessas experiências guardadas na memória tem a casa da minha madrinha Maria Benedita onde a Cláudia, minha prima, tinha um disco azul da Madonna, que eu peguei emprestado e nunca mais devolvi. Fiquei fã! Fã da música, dos ritmos, das coreografias que apareciam no Fantástico, e mais tarde, nos  programas de tv do primeiro canal especializado em música do qual tive notícias... Fã. E hoje, quando olho a trajetória que me constituiu a mulher negra que sou, não passo despercebida pela Madonna, apontada pela Bell Hooks, como suspeita de ser mais uma branca racista disfarçada de lutadora das causas negras. Foi essa moça loura, que morena, apresentou em um videoclipe, no final dos anos 80, um Jesus negro, que incendiou minha vivência católica,  que na época, era praticante, militante e atuante. Não era mais um homem branquelo de olho azul, que falava das coisas que eu, cristã da Teologia da Libertação, cresci ouvindo. Era um homem preto, que parecia com meu primo/irmão Elcio, e que se libertava do sacrário para interagir sexualmente com uma mulher. Hoje sei que, como mulher branca a personagem do clipe trazia em si o racismo inerente da condição social que a branquitude constrói pra si, cultivando privilégios e acalentando uma gigantesca falta de limite e de noção quando o assunto é a compreensão de seu lugar na produção do racismo. Sendo branca, a Madonna racista é. Não tem discussão.

Hoje tenho elementos para, ao ver o clipe Like a Prayer, compreender a objetificação do homem negro. Mas, do mesmo modo, não tenho como não admitir que leio aquele tempo em minha história como um despertar de apropriação do meu próprio corpo! Corpo negro, talvez compreendido pela branquitude como território liberado... O imaginário branco de que com as pretas tudo é sexualmente permitido... Diante desse imaginário lembro de mim e Simone saindo, numa noite de sábado para encontrar com minhas amigas de escola num território de lazer esmagadoramente branco e Carminha, na porta de casa, dizendo “não vai deixar que tratem vocês como empregadinhas, não, heim?”.

Falava dela própria, das memórias de sua juventude quando ainda era ela a “empregadinha”. Sabia o que era ser “empregadinha”, o que era ter o corpo numa imagem de constante disponibilidade para o deleite de brancos... Tem isso na minha história e nas memórias atávicas que me fazem ser eu, mas não tem isso na minha experiência. Eu Negra vivi meu corpo num espaço escolar que nem corpo as mulheres podiam ter. Não se falava, não se tocava, não podia haver experimentações. E muito menos prazer! Corpo era aprendido como interdito e, talvez, nessa interdição era o único lugar onde as brancas e as raríssimas negras se encontravam...

Madonna mergulhada nos braços de um monte de homem branco em “Material Girl”, ou insinuando beijar a boca de um Jesus negro, ou ainda se esfregando numa cama com um peito de cone, foi parte do que trouxe até mim um corpo  vivido como trilhas de prazer. Não só prazer sexual, mas prazer de auto pertencimento, prazer de permissão de poder ser para além do que estava dito que podia ser, prazer de se tocar, de permitir ser tocada... E gostar! Eu Negra, filha da Carminha gorda, que por várias vezes escutei dela “homem que quiser gostar de mim tem que gostar é gorda mesmo”, encontrei eco numa experiência pop, de um corpo branco de padrões bastante mercadológicos. Foi em “The Girlie Show” que, vi, ao vivo, vários negros e negras compondo o grupo de bailarinos de Madonna e tomando o palco com seus corpos e experiências negras. Mercadológicos todos, mas pretos, não todos, mas também não era um só dançando com a loura. A vida de novo! Contraditória. Sem receitas! E é essa contradição, essa dobra em minha experiência que me motiva refletir a trajetória que fez de mim a pessoa que sou! Eu Negra. Negra apenas. Nem mais negra, nem menos negra. Apenas negra. Eu Negra. Cheia de tantas outras coisas de mim, sobre mim, comigo e em mim!

Contradição nem sempre é bom, mas, sem dúvida, é sinal de que a vida existe. Ás vezes espalha-me a sensação de que há um manual de ser negra. Um único modo para todas. Comprometida. Engajada. Negra de verdade. Nesse manual há os manuscritos da tonalidade adequada de pele, do tom exato das experiências, do texto recomendado da inserção no mundo. Há o que pode e o que não pode. Sinto as circunscrições, interditos e prescrições como inerentes ao modo como o próprio racismo se arranja criando dicotomias e confusões de sentido e sentires. Uma dessas dicotomias está assentada nos diversos pertencimentos que várias de nós temos, porque temos possibilidades diferentes de afeto, que é dado e recebido, temos possibilidades diferentes de localização na produção do mercado capitalista, temos vivências diferentes ao longo de toda nossa trajetória. Porque nossa experiência não é determinada somente pelo racismo. Embora seja grande determinante do modo como nos constituímos, outras coisas e dimensões constituem nossas trajetórias, e todas elas precisam ser lidas sem simplificar nossa experiência num único dado de nossa existência. Um dado importante e inconteste é esse: a experiência de mulheres negras norte americanas, como Bell Hooks, não é a mesma experiência de nós mulheres negras brasileiras. A experiência do racismo em nós mulheres negras brasileiras não é compartilhada, sentida e vivida do mesmo modo por todas nós em diáspora . Há consciências de lá do norte, que jamais existiram aqui. Há resistências daqui que sequer são reconhecidas por lá.

Aqui me lembro de uma fala de Chimamanda Adichie, onde ela discorre sobre o perigo da história única. E cá, avalio o quanto de único há nas muitas mulheres que hoje temos a liberdade de ser! Sim, porque é sempre bom lembrar que para que eu esteja aqui, sentada no meu apartamento confortável escrevendo para um blog, um tanto de outras mulheres pretas antes de mim vivenciaram experiências que nos olhos desse tempo podem não soar tão libertadoras. Mas é isso! A história é um caminho sem linearidade e composto de várias reentrâncias e contradições. O miúdo dos dias pode trazer para várias de nós uma infinidade de possibilidades de (des) afirmação que talvez nem ainda possamos alcançar tamanha a dimensão.

Cresci junto de brancos, frequentando lugares de brancos, criando laços, desejos, afetos por brancos. Não vivenciei nenhuma experiência de miséria ou privação, e não vivi em um lar demarcado pela violência concreta ou simbólica. E isso não me fez menos negra! Na minha história, nem menos negra pela constante lembrança de Carminha e Expedito sobre o meu lugar de origem, nem pelo modo como o próprio mundo dos brancos ia prescrevendo as limitações impostas ao meu corpo negra. As experiências que podem não ser semelhantes à da maioria das negras, não me livraram de ser alvo do racismo em suas inúmeras nuances e facetas. Também fui, (e sou!!!) de modos vários, martelada em meus existires. E não é aceitável que outras tantas como eu sejam enxergadas como menos vítimas á sanha do racismo.

         E meus olhos de hoje olham para algumas dessas experiências com vontade de colocar fogo em várias pessoas, mas a memória, que como diz Quintana, tem nas mãos uma caixa de lápis de cor, me leva a olhar também os afetos daquele tempo. Os encontros, as trocas, as risadas, as interações. Bem sei que poucas de nós experimentaram, na infância e adolescência escolar vivenciada junto aos brancos, trocas e afetos positivos. Mas é isso. Somos várias de variados tons coloridos pela vida. No meu tom tem, sim, os afetos que naquele tempo eu vivia como sendo meus, para mim, comigo. E eles são parte da mulher negra que sou, porque me constituo também pelo modo como transitei por minhas afetividades. Eu Negra.

Transito em minha pele sem nunca dela sair! Encontro-me sob meus poros exalando de cada encontro os encontros outros que se fizeram em mim libertando-me da pele como apenas um cárcere, mas território de liberdades que não foi me dada por NENHUM branco. Mas a verdade é que nas teias dessa identidade há olhos, mãos, pés, suores, fluidos, peles, vozes de pessoas brancas. A Madonna, as amigas, o Paulo Freite, o Augusto Boal, as referências. O possível. Nem sempre com a chibata na mão, nem sempre sem a chibata na mão. A branco o que é do branco, porque existem, sim, brancos, bem poucos é certo, construindo igualdade racial e pareados a nós, no corpo branco deles, no enfrentamento ao racismo. Nada fazendo além do que deveria ser a obrigação de TODOS eles. Mas fazendo. Na minha experiência de Eu Negra, Madonna é uma dessas brancas, e não a sinto como sente a Bell Hooks porque eu e Bell Hooks não somos a mesma pessoa, e nossos pés pisam em territórios diferentes na vivência de nossa negritude. Universais e únicas.

Eu Negra que me construo nesse Brasil de relações não ditas, de discriminações silenciadas, de vivências negras fartas e repletas da crueza evidente que o racismo constrói. Que não é velado. Não é sutil. É escancarado, covarde na tentativa de se esconder,  sórdido e cínico no modo como se mostra, porque se apresenta no meio de bons afetos que SÃO reais... A empregada doméstica negra que não abandona a família branca, mesmo submetida à um sub status de humanidade. Nem sempre é só pela sobrevivência. Ela gosta, se afeta, se envolve, se identifica, não com o algoz, mas com um sentir que PARA ELA é real. Não é síndrome de Estocolmo. São tão somente e grandemente as relações raciais brasileiras... O racismo que a desenha tem a mesma cara feia e branca mundo a fora. O modo, os instrumentos de vivencia-lo são bastante diferentes no emaranhado que, fio a fio, tece cada uma de nossas trajetórias. Nós Negras.

Eu Negra Diaspórica compartilhando a dor e a solidão com tantas outras negras também. Eu Negra Diaspórica levando em minha pele de muitas a singularidade das minhas experiências únicas, dos meu sentires possíveis, construídos, encontrados entrelaçados, feitos, desfeitos, refeitos. Eu Negra Diaspórica. Fã da Madonna, cepa da Maria Joana... Várias em mim, eu nelas. Eu Negra Desenhada por tudo e todo mundo que antes de mim veio, que comigo encontra. Eu Negra. Filha da Carminha e do Expedito. Eu...


4 comentários:

  1. Miga, você mata a pau! Olha que eu nunca tinha pensado no Jesus negro como homem objetificado... mas faz todo o sentido, hein! Teria o mesmo impacto o beijo no Jesus escandinavo do imaginário popular ocidental?

    Emocionante, também, saber mais da sua vida e daquilo que te constitui. Espero que tenha uma terceira continuação ♥

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  2. Você, como é bom ler Você!!
    Explosão de vida...
    Cada texto, me transforma.
    ♡♡

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  3. Primeiramente peço permissão pra usar partes desse texto no grupo de mulheres... Depois quero dizer que no mínimo vc me deixou curiosa sobre os clipes de Madona... Verei com outro olhar... Por fim o fato de vc ter citado Quintana... Busquei o texto e vai virar uma dinâmica no próximo encontro... Só me basta dizer... obrigada por tantas contribuições...

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  4. Verdades + poesia = lucidez carregada de sensualidade!

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