sábado, 8 de junho de 2019

Nós somos aquelas



Nós somos aquelas

Nós somos aquelas para quem não é permitido o direito! Nós somos aquelas cujos corpos são pertencidos, discursados, expostos, apropriados. Nós somos aquelas que não dispõem da defesa, da dúvida, do contraditório. Nós somos as responsabilizadas.

Não importa a constituição de nossos corpos, nós somos aquelas que em qualquer condição ou contexto seremos responsáveis pela opressão que experimentamos. Podemos ser novas, velhas, magras, gordas, pretas, brancas, ricas, pobres. Nós somos. As opressões se entrecruzam em nossos corpos e agem em diferentes intensidades. Ás vezes mais cruéis. Os corpos das pretas, das indígenas são os mais violentados, e não há dúvidas nisso... Os nossos corpos todos, porém, jamais escapam das diversas modalidades de violência. Nós somos aquelas em quem se naturalizou a opressão como parte da identidade.

Nós somos aquelas  cuja violência a nós imposta levanta debates capazes de revelar a ausência de sensibilidades comprometidas com nosso direito à vida. Vida plena e abundante. Não há compromisso com nossos direitos, com as histórias de violências impressas sobre nossos corpos. Diante de um violentador rico e poderoso jogam sobre nós uma infinidade de atributos, e não é apenas pelo desejo de proteção daqueles que nos agridem, mas por uma espécie de raiva, de ódio que nutrem sobre nós. Nós somos aquelas a quem se odeia de todas as formas, nós somos aquelas que carregamos esses discursos sob nossos corpos, e em nossas vidas. Os discursos de ódio, os desejos de enquadramento, as tentativas de desmerecimento.

Nós somos aquelas violentadas pelo homem rico e famoso, aquelas certamente ameaçadas por seu familiar,  somos aquelas expostas na redes sociais para que se construa sobre nossos atos um juízo depreciativo de nossa valoração moral... Somos aquelas que não podem gerir seu desejo, aquela a quem não é permitido os jogos e combinados sexuais, sem que mais tarde se tornem públicos na tentativa de desmerecer e justificar a violência contra nós cometida.

Nós somos aquelas diante da mídia dizendo de nós sobre nosso pouco caráter, sobre nossa natureza manipulativa, sobre as armações que inventamos para golpear um homem indefeso. Somos nós aquelas que não têm direito a se protegerem. Nós, aquelas a quem jamais é dado o direito de desejar. A gente quer sexo! A gente quer diversão! A gente quer usar para o prazer o corpo do outro, estando o outro consentindo com isso. Não! Nós somos aquelas que se ousarmos a usar nossos corpos em nome do nosso prazer, somos ainda mais rotuladas, julgadas e desmerecidas.

Nós somos aquelas sobre quem se dirigem os discursos e análises que são capazes de deslocar o verdadeiro sentido que o machismo tem, quando joga sobre nossos corpos as responsabilidades de uma atitude eivada de simbolismos e concretudes, que escancaram a crença de que nós valemos menos, de que nós não devemos mesmo ter direitos mínimos iguais aos homens. Nós somos as que valem menos, as que sangram, as que parem, as que devem ter sempre o mesmo corpo das outras, as mesmas respostas que decidem para nós, as mesmas roupas que forqm escolhidas para nós, as mesmas atitudes aceitáveis à nós... Nós somos aquelas que devemos ser simples, desprovidas de desejo, subservientes, enquadradas, silenciosas, prestativas, doces. Infelizes.

Nós somos aquelas que, dente milhares de outras coisas, podemos também ser dissimuladas, manipuladoras, sem vergonhas, interesseiras... Nós somos aquelas que somos várias, e sendo várias, várias de nós existem sem que todas nós sejamos uma coisa só. Nós tempos a possibilidade de ser gente que não presta e gente que presta, gente má e gente boa, porque pode até não parecer, mas nós somos aquelas que somos gente.

Nós somos aquelas a quem é ensinado odiarmos umas as outras, acreditando que juntas não podemos ser, porque não nos aceitamos umas às outras... Ensinam, e nós somos aquelas que aprendemos a dizer que a outra não tem valor, que a outra vai roubar “seu” homem, que a outra se veste para te fazer inveja... Somos aquelas que aprendemos a linguagem do machismo e a reproduzimos enchendo de munição as armas que estão apontadas contra nós.

Nós somos aquelas cujos afetos podem ser sinal de perigo, somos aquelas cujos laços podem ser nós cegos... Não há garantias. Não há pai, não há irmão, não há tio, não há avô, não há amigo, não há vizinho. Todos podem ser uma ameaça. Não há tranquilidade. Todas as ruas são escuras, desertas e perigosas, todo o transporte urbano pode tomar rumo ignorado.

Nós somos as putas, as baratas, as golpistas, as dissimuladas, as vagabundas, as mentirosas, as safadas, as pilantras, as desonestas, as culpadas. Sempre as culpadas. Não importa onde uma de nós esteja, todas nós estamos no mesmo lugar que ela. Nós somos ela, e somos as outras todas. Do mesmo modo... E se vivendo nas diferentes peles, pretas e indígenas somos ainda menos... Se nos diferentes lugares da rua, da prostituição, do vício, ainda menos somos... Nada. Ninguém somos se pretas, se indígenas, se pobres.

Nós somos aquelas que experimentando a violência que é de todas experimentam sozinhas o vazio da solidão... Não era pra ser assim... Solitárias... Profundamente solitárias...


Nós somos aquelas que apanham, que são cuspidas, que são metidas contra a vontade, que são estupradas, desmentidas, ridicularizadas. Nós somos aquelas que são esfarrapadas, que são tombadas, que são difamadas, que são mortas... Nós somos aquelas...

Aquelas somos nós.
Aquela lá, é você.
E você é todas nós.

10 comentários:

  1. Parabéns irmã, texto contundente e coerente, como sempre. Somos as que sofrem com o retrocesso e não nos damos conta. Forte abraço.

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  2. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏✊✊✊✊

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  3. 👏👏👏👏👏👏👏👏👏✊✊✊✊

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  4. Maravilha de reflexão. Obrigada por nos lembrar que todas somos uma. E que quando jogamos pedras, como efeito boomerang somos atingidas da mesma forma. "Ela sou eu, Ela somos Nós! 😍

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    1. Isso mesmo! Muitas vezes sao as mulheres mais machistas que os homens... E eu ja vivi isto bem de perto.... A gente fica sem entender... É pura hipocrisia?

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  5. Miga esse texto dava um quadro lindo das Ruths, hein?? Sensacional, como sempre!

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  6. Amei, excelente reflexão. Tão forte e tão real.

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  7. Texto forte e muito bem escrito. Temos que nos reinventar enquanto SERES LIVRES. Lutar contra essa corrente gigantesca e milenar.... Nao é facil! Mad somos fortes. Pq so fracos e covardes sao capazes dessas atitudes.

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  8. Uau... forte e necessário... Temos que ter consciência de que quando uma mulher é afetada... Reflete em todas nós...

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