Nós
somos aquelas
Nós
somos aquelas para quem não é permitido o direito! Nós somos aquelas cujos
corpos são pertencidos, discursados, expostos, apropriados. Nós somos aquelas
que não dispõem da defesa, da dúvida, do contraditório. Nós somos as responsabilizadas.
Não
importa a constituição de nossos corpos, nós somos aquelas que em qualquer
condição ou contexto seremos responsáveis pela opressão que experimentamos.
Podemos ser novas, velhas, magras, gordas, pretas, brancas, ricas, pobres. Nós somos.
As opressões se entrecruzam em nossos corpos e agem em diferentes intensidades.
Ás vezes mais cruéis. Os corpos das pretas, das indígenas são os mais violentados,
e não há dúvidas nisso... Os nossos corpos todos, porém, jamais escapam das
diversas modalidades de violência. Nós somos aquelas em quem se naturalizou a
opressão como parte da identidade.
Nós
somos aquelas cuja violência a nós imposta
levanta debates capazes de revelar a ausência de sensibilidades comprometidas
com nosso direito à vida. Vida plena e abundante. Não há compromisso com nossos
direitos, com as histórias de violências impressas sobre nossos corpos. Diante
de um violentador rico e poderoso jogam sobre nós uma infinidade de atributos,
e não é apenas pelo desejo de proteção daqueles que nos agridem, mas por uma espécie
de raiva, de ódio que nutrem sobre nós. Nós somos aquelas a quem se odeia de todas
as formas, nós somos aquelas que carregamos esses discursos sob nossos corpos,
e em nossas vidas. Os discursos de ódio, os desejos de enquadramento, as
tentativas de desmerecimento.
Nós
somos aquelas violentadas pelo homem rico e famoso, aquelas certamente
ameaçadas por seu familiar, somos
aquelas expostas na redes sociais para que se construa sobre nossos atos um
juízo depreciativo de nossa valoração moral... Somos aquelas que não podem gerir
seu desejo, aquela a quem não é permitido os jogos e combinados sexuais, sem
que mais tarde se tornem públicos na tentativa de desmerecer e justificar a
violência contra nós cometida.
Nós
somos aquelas diante da mídia dizendo de nós sobre nosso pouco caráter, sobre
nossa natureza manipulativa, sobre as armações que inventamos para golpear um
homem indefeso. Somos nós aquelas que não têm direito a se protegerem. Nós,
aquelas a quem jamais é dado o direito de desejar. A gente quer sexo! A gente
quer diversão! A gente quer usar para o prazer o corpo do outro, estando o
outro consentindo com isso. Não! Nós somos aquelas que se ousarmos a usar
nossos corpos em nome do nosso prazer, somos ainda mais rotuladas, julgadas e
desmerecidas.
Nós
somos aquelas sobre quem se dirigem os discursos e análises que são capazes de
deslocar o verdadeiro sentido que o machismo tem, quando joga sobre nossos
corpos as responsabilidades de uma atitude eivada de simbolismos e concretudes,
que escancaram a crença de que nós valemos menos, de que nós não devemos mesmo
ter direitos mínimos iguais aos homens. Nós somos as que valem menos, as que sangram,
as que parem, as que devem ter sempre o mesmo corpo das outras, as mesmas
respostas que decidem para nós, as mesmas roupas que forqm escolhidas para nós,
as mesmas atitudes aceitáveis à nós... Nós somos aquelas que devemos ser simples,
desprovidas de desejo, subservientes, enquadradas, silenciosas, prestativas,
doces. Infelizes.
Nós
somos aquelas que, dente milhares de outras coisas, podemos também ser
dissimuladas, manipuladoras, sem vergonhas, interesseiras... Nós somos aquelas
que somos várias, e sendo várias, várias de nós existem sem que todas nós
sejamos uma coisa só. Nós tempos a possibilidade de ser gente que não presta e
gente que presta, gente má e gente boa, porque pode até não parecer, mas nós somos
aquelas que somos gente.
Nós
somos aquelas a quem é ensinado odiarmos umas as outras, acreditando que
juntas não podemos ser, porque não nos aceitamos umas às outras... Ensinam, e
nós somos aquelas que aprendemos a dizer que a outra não tem valor, que a outra
vai roubar “seu” homem, que a outra se veste para te fazer inveja... Somos
aquelas que aprendemos a linguagem do machismo e a reproduzimos enchendo de
munição as armas que estão apontadas contra nós.
Nós
somos aquelas cujos afetos podem ser sinal de perigo, somos aquelas cujos laços
podem ser nós cegos... Não há garantias. Não há pai, não há irmão, não há tio, não
há avô, não há amigo, não há vizinho. Todos podem ser uma ameaça. Não há tranquilidade.
Todas as ruas são escuras, desertas e perigosas, todo o transporte urbano pode
tomar rumo ignorado.
Nós
somos as putas, as baratas, as golpistas, as dissimuladas, as vagabundas, as
mentirosas, as safadas, as pilantras, as desonestas, as culpadas. Sempre as
culpadas. Não importa onde uma de nós esteja, todas nós estamos no mesmo lugar que
ela. Nós somos ela, e somos as outras todas. Do mesmo modo... E se vivendo nas
diferentes peles, pretas e indígenas somos ainda menos... Se nos diferentes
lugares da rua, da prostituição, do vício, ainda menos somos... Nada. Ninguém
somos se pretas, se indígenas, se pobres.
Nós
somos aquelas que experimentando a violência que é de todas experimentam
sozinhas o vazio da solidão... Não era pra ser assim... Solitárias... Profundamente
solitárias...
Nós
somos aquelas que apanham, que são cuspidas, que são metidas contra a vontade, que
são estupradas, desmentidas, ridicularizadas. Nós somos aquelas que são esfarrapadas,
que são tombadas, que são difamadas, que são mortas... Nós somos aquelas...
Aquelas
somos nós.
Aquela
lá, é você.
E
você é todas nós.

Parabéns irmã, texto contundente e coerente, como sempre. Somos as que sofrem com o retrocesso e não nos damos conta. Forte abraço.
ResponderExcluir👏👏👏👏👏👏👏👏👏✊✊✊✊
ResponderExcluir👏👏👏👏👏👏👏👏👏✊✊✊✊
ResponderExcluirMaravilha de reflexão. Obrigada por nos lembrar que todas somos uma. E que quando jogamos pedras, como efeito boomerang somos atingidas da mesma forma. "Ela sou eu, Ela somos Nós! 😍
ResponderExcluirIsso mesmo! Muitas vezes sao as mulheres mais machistas que os homens... E eu ja vivi isto bem de perto.... A gente fica sem entender... É pura hipocrisia?
Excluir😢tão real.
ResponderExcluirMiga esse texto dava um quadro lindo das Ruths, hein?? Sensacional, como sempre!
ResponderExcluirAmei, excelente reflexão. Tão forte e tão real.
ResponderExcluirTexto forte e muito bem escrito. Temos que nos reinventar enquanto SERES LIVRES. Lutar contra essa corrente gigantesca e milenar.... Nao é facil! Mad somos fortes. Pq so fracos e covardes sao capazes dessas atitudes.
ResponderExcluirUau... forte e necessário... Temos que ter consciência de que quando uma mulher é afetada... Reflete em todas nós...
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