segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Aquelas que não dão e não seguram a mão de ninguém



“Comendo” Quintana dedico àquelas
Que feias, passarão. Enquanto eu cá, Passarinha!


Escrevo tendo em mente algumas pessoas, mulheres, a maioria, com quem tenho que li(dar ...) e reflito sobre seus corpos retesos que anunciam um modo de estarem na vida. Não estando. Não entregando. Não dando. Elas não dão. Sabe gente que não dá? Então. São elas!

Mas cá você aqui! Não se iluda pensando que cá eu estou aqui falando do dar da convencionalidade. Sim! Penso em pernas, suores, fluidos, entradas e saídas, mãos, gemidos, odores, sussurros, gritos, afagos, puxões, mordidas, melodias e palavrões que não se encerram na genitália de um sexo prescrito e descrito.

Penso nisso sem reter-me nisso para não transformar-me naquelas que acreditam que quem vive sem sexo não vive, como se vida fosse genitália, vibrador e orgasmo. Mais! Como se um desses estivesse subMETIDO a qualquer outro desses. Como se outro só existisse pela via do um. Penso nisso repousando o pensamento em quem dá para além do sexo, e tem o sexo como apenas uma das formas de dar. Ou de comer. Ou de tudo ao mesmo tempo. Ou de um de cada vez.

Dar. Penso em dar pensando naquelas que não dão. Não dão porque não experimentam fluxos, fluidos, idas e vindas, suores e palavrões. Não dão. Isso. Simplesmente não dão. Podem ATÉ fazer sexo. Mas não dão porque não se dão, não misturam no entra e sai que a vida dá. É sim. A vida dá! Adora dar! Sabe dar! Mas elas, as feias,  elas não. Não dão pra não bagunçar o cabelo e pra não perder o controle do corpo reteso. Arrumado. Cheiroso. Penteado. Impecável. Porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Corpos desalinhados nem sempre anunciam desajustes diante do que a vida dá. Ou come.

Mas elas, essas feiosas, não entendem! Não entendem nada sobre dar! Sobre abrir as pernas, o corpo, a mente, a alma. Nada se abrem, as feiosas, porque ao abrirem-se o entra e sai pode tomar conta, e diante do entra e sai nem sempre há controle de ritmos, fluidos, sussurros e orgasmos. Porque orgasmo descontrola, porque orgasmo tensiona e alivia, tal como é a vida. Tensão e alívio.

Tanto não entendem que dia desses vi numa dessas bocas que não sabem dar, o lema de uma ação de resistência diante de uma prática do período da ditadura militar brasileira (entre o início dos anos 1960 e meados dos anos 1980) “ninguém solta a mão de ninguém”. Que mão? Que mão seguram? A quem protegem suas mãos? A quem afagam? A quem se dão?

Logo após as desastrosas eleições gerais brasileiras de 2018, um grupo de estudantes da USP se reuniu num dos pátios da entidade para ouvirem três intelectuais: Vladimir Safatle, Marilena Chauí e André Singer  falando sobre os possíveis rumos do Brasil diante da ameaça fascista. Em sua fala, Chauí narra o contexto que fez nascer a frase/lema “ninguém solta a mão de ninguém”. Segundo contava, havia uma prática recorrente da repressão, quando, em meio aos estudantes, em locais como salas de aulas, ou qualquer outro ambiente fechado, apagarem as luzes e desaparecerem com pessoas antes que a iluminação retornasse. Como resistência à isso, os grupos começaram, então, a darem-se as mãos e repetirem a frase “ninguém solta a mão de ninguém” para então se protegerem dos “sumiços” provocados pela repressão.

Diante da narrativa de Marilena já posso dizer que, quem não dá, não entende nada do que é, de fato o “ninguém solta a mão de ninguém”. E se não entende não está autorizada a sair por aí anunciando-se como parte disso. Não soltar a mão da outra, do outros, e deles todos vem de um lugar que, primeiramente, demarca resistência e opção política! Quem estava ali resistindo ao sumiço de mãos dadas com o companheiro (aquela que come o pão junto), o estava por colocar-se em oposição à uma determinada lógica de gestão do Estado e da democracia...

Quem estava ali, na escuridão, segurando a mão que estava ao lado, estava, na verdade, dando a mão para a possibilidade da democracia, do direito, da denúncia ao abuso de poder e à violação da vida. As mãos dadas no escuro eram muito mais do que um desenho em preto e branco circulando por bocas de corpos que não sabem dar!

Dar-se a mão no escuro buscando a sobrevivência de todo mundo é uma atitude de quem sabe dar! De quem abre as pernas, a mente e a alma! De quem se entrega aos fluidos, sussurros, gritos, ao ir e vir, as entradas e saídas, aos tremores, aromas e tensões aliviantes. Para não soltar a mão é preciso, primeiro, pegar na mão, oferecer a mão, esfregar uma mão na outra, entrelaçar os dedos no desejo de alinhavar as vidas.

Quem não sabe dar não consegue fazer isso! Não segura nada. Não entende nada. Não se atravessa por nada, porque não se abre em nada. Fica feia. Não feia porque não tem sexo. Ás vezes até tem. Feia porque nem no sexo consegue dar. Se dar. Se trepar. Se gozar! Feia. Elas feias porque não encontram corpos que se seguram no escuro de mãos dadas, se dando uns aos outros. Entre falas, lambidas, vozes e desejos! Desejo que move os corpos em direções diversas nessa movimentação de dar! Dar, ao outro, à outra, com o outro.

Antropofagizar os desejos que nos cercam só é possível a quem sabe dar. Dar-se. Se dar! E dando, abrindo-se no entra e sai é que mora a potência de não soltar a mão de ninguém, porque essas mãos já passaram pelos corpos úmidos dos fluidos e suores de quem se dispõe a encontrar-se! A afetar-se! A atravessar-se pela outra!
Só quem dá gostoso é que sabe o jeito certo de segurar a mão da outra no escuro que ameaça, e que no junto liberta! Só dando é possível compreender que antes de não soltar a mão é preciso tê-la estendida na direção da vida que salta dos muitos corpos que nos cruzam o caminho.

Elas feias não sabem dar. Retêm-se em corpos hirtos, morridos achando que vivem. Repetem a frase que Marilena explicou “ninguém solta a mão de ninguém” sem olharem-se, nem diante do espelho, porque o espelho delas não reflete o além dos corpos, para compreenderem que, na verdade, por não saberem dar, não seguram a mão de ninguém.

Não são nada! Só corpos retesos, arrumados, aromatizados com as mãos abanando. Vazias de dar-se... Ao vento, repetindo frases sem atravessar-se por elas.

Uma pena. Coitadas delas... Feiosas. Passarão... Nunca, Passarinhas... 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 2






E cresci assim! Compreendendo que meu lugar no mundo não viria, jamais, sem trabalho, alegria e resistência. Fui andando por esse tal mundo com a “régua e o compasso” que me deram em casa, e deles fui traçando as descobertas variadas sobre a aventura dolorida, e também libertadora, de ser e se compreender mulher negra no Brasil... Não há distinções. Todas somos talhadas no mesmo martelo de ponta firme batendo sobre nossos existires. E assim fui aprendendo e, dia a dia construindo, refazendo-me e descobrindo-me em várias ocasiões, mulher negra. Porque essa identidade não está terminada e vai se construindo nas interações que o racismo e o antirracismo promovem. Enquanto essa faca está apontada para nosso peito é  nos desviando dela que a gente se transforma naquilo que a gente é, numa mistura com o que querem que sejamos. Não há muitas escapatórias... Se nos libertamos, até o dia de quebrar as correntes somos também aquilo que inscrevem em nossos corpos. Se não nos libertamos, nossos corpos são apenas a escrita do que dizem que somos...

E fui sendo assim, muito das tintas de Carminha e Expedito, outros tantos dos coloridos de minha família enorme, e traços variados dos discursos que a branquitude criou para as negras, e que acharam contornos próprios quando de/ao encontro de minhas vivências. Lá na escola católica de gente branca e rica em que eu estudava, as interações eram diversas. Não fui infeliz durante todo o tempo que passei por lá, de igual modo não existem só histórias boas e calorosas para serem contadas, mas não tenho memórias de assédios racistas para narrar, não porque não existiam, mas porque Carminha e Expedito estavam sempre atentos me dando a “régua e o compasso” para o enfrentamento, e demarcando seus próprios espaços de pessoas negras entregando a única filha à um cotidiano branco. “Não grite com ela, Tia Fulana, ela não está acostumada com gritos! Lá em casa ninguém grita com a Giane!” Não eram melhores, mais espertos, mais audazes, eram uma mulher e um homem negros construindo, pelos saberes de sua coletividade, as possibilidades de suas escolhas individuais. Universais e únicos. Pretos buscando e encontrando caminhos de existirem em meio aos interditos, violências e silenciamentos. Que não foram poucos. Não são poucos...

E entre a libertação e a submissão há inúmeras possibilidades. Que não são mais e nem menos, apenas possibilidades que são tantas quantas são as pessoas negras que existem em diáspora. É importante nos referenciarmos de maneira coletiva para que os enfrentamentos sejam sistematizados, principalmente em termos de garantia e promoção de direitos. Mas, não somos uma massa uniforme de experiências únicas. Bell Hooks fala da possibilidade de Madonna ser racista a partir do lugar que é o de uma mulher negra vivendo no norte do mundo, com experiências outras que nem temos conhecimento. E esse lugar não é o mesmo de Giane Elisa, que é uma mulher negra vivendo ao sul do mundo. Ela e eu temos experiências diferentes e isso não é um problema. Ao contrário! É a diversidade de nossa unicidade diante do racismo, que talvez possa nos apontar caminhos diversos no enfrentamento à ele.

Naquela sociedade é provável que Madonna seja só uma mulher branca sendo branca com suas branquices, para mim, e não falo em nome de todas as negras de minha geração (não mesmo!), Madonna é uma referência na MINHA possibilidade de afirmação enquanto mulher. Porque sim. Eu sou negra definida pelos estratagemas do racismo, mas sou também mulher definida pelas nuances do machismo. E Eu Negra sou ainda outras experiências que só se constroem na interação desses dois pertencimentos, e ainda, sou também resultado das interações que podem ser fruto apenas de minhas experiências. E importante dizer, sou fruto de minhas escolhas, porque mesmo escassas, limitadas, comprometidas e afetadas pelo racismo, sim, nós temos escolhas.

E nessas experiências guardadas na memória tem a casa da minha madrinha Maria Benedita onde a Cláudia, minha prima, tinha um disco azul da Madonna, que eu peguei emprestado e nunca mais devolvi. Fiquei fã! Fã da música, dos ritmos, das coreografias que apareciam no Fantástico, e mais tarde, nos  programas de tv do primeiro canal especializado em música do qual tive notícias... Fã. E hoje, quando olho a trajetória que me constituiu a mulher negra que sou, não passo despercebida pela Madonna, apontada pela Bell Hooks, como suspeita de ser mais uma branca racista disfarçada de lutadora das causas negras. Foi essa moça loura, que morena, apresentou em um videoclipe, no final dos anos 80, um Jesus negro, que incendiou minha vivência católica,  que na época, era praticante, militante e atuante. Não era mais um homem branquelo de olho azul, que falava das coisas que eu, cristã da Teologia da Libertação, cresci ouvindo. Era um homem preto, que parecia com meu primo/irmão Elcio, e que se libertava do sacrário para interagir sexualmente com uma mulher. Hoje sei que, como mulher branca a personagem do clipe trazia em si o racismo inerente da condição social que a branquitude constrói pra si, cultivando privilégios e acalentando uma gigantesca falta de limite e de noção quando o assunto é a compreensão de seu lugar na produção do racismo. Sendo branca, a Madonna racista é. Não tem discussão.

Hoje tenho elementos para, ao ver o clipe Like a Prayer, compreender a objetificação do homem negro. Mas, do mesmo modo, não tenho como não admitir que leio aquele tempo em minha história como um despertar de apropriação do meu próprio corpo! Corpo negro, talvez compreendido pela branquitude como território liberado... O imaginário branco de que com as pretas tudo é sexualmente permitido... Diante desse imaginário lembro de mim e Simone saindo, numa noite de sábado para encontrar com minhas amigas de escola num território de lazer esmagadoramente branco e Carminha, na porta de casa, dizendo “não vai deixar que tratem vocês como empregadinhas, não, heim?”.

Falava dela própria, das memórias de sua juventude quando ainda era ela a “empregadinha”. Sabia o que era ser “empregadinha”, o que era ter o corpo numa imagem de constante disponibilidade para o deleite de brancos... Tem isso na minha história e nas memórias atávicas que me fazem ser eu, mas não tem isso na minha experiência. Eu Negra vivi meu corpo num espaço escolar que nem corpo as mulheres podiam ter. Não se falava, não se tocava, não podia haver experimentações. E muito menos prazer! Corpo era aprendido como interdito e, talvez, nessa interdição era o único lugar onde as brancas e as raríssimas negras se encontravam...

Madonna mergulhada nos braços de um monte de homem branco em “Material Girl”, ou insinuando beijar a boca de um Jesus negro, ou ainda se esfregando numa cama com um peito de cone, foi parte do que trouxe até mim um corpo  vivido como trilhas de prazer. Não só prazer sexual, mas prazer de auto pertencimento, prazer de permissão de poder ser para além do que estava dito que podia ser, prazer de se tocar, de permitir ser tocada... E gostar! Eu Negra, filha da Carminha gorda, que por várias vezes escutei dela “homem que quiser gostar de mim tem que gostar é gorda mesmo”, encontrei eco numa experiência pop, de um corpo branco de padrões bastante mercadológicos. Foi em “The Girlie Show” que, vi, ao vivo, vários negros e negras compondo o grupo de bailarinos de Madonna e tomando o palco com seus corpos e experiências negras. Mercadológicos todos, mas pretos, não todos, mas também não era um só dançando com a loura. A vida de novo! Contraditória. Sem receitas! E é essa contradição, essa dobra em minha experiência que me motiva refletir a trajetória que fez de mim a pessoa que sou! Eu Negra. Negra apenas. Nem mais negra, nem menos negra. Apenas negra. Eu Negra. Cheia de tantas outras coisas de mim, sobre mim, comigo e em mim!

Contradição nem sempre é bom, mas, sem dúvida, é sinal de que a vida existe. Ás vezes espalha-me a sensação de que há um manual de ser negra. Um único modo para todas. Comprometida. Engajada. Negra de verdade. Nesse manual há os manuscritos da tonalidade adequada de pele, do tom exato das experiências, do texto recomendado da inserção no mundo. Há o que pode e o que não pode. Sinto as circunscrições, interditos e prescrições como inerentes ao modo como o próprio racismo se arranja criando dicotomias e confusões de sentido e sentires. Uma dessas dicotomias está assentada nos diversos pertencimentos que várias de nós temos, porque temos possibilidades diferentes de afeto, que é dado e recebido, temos possibilidades diferentes de localização na produção do mercado capitalista, temos vivências diferentes ao longo de toda nossa trajetória. Porque nossa experiência não é determinada somente pelo racismo. Embora seja grande determinante do modo como nos constituímos, outras coisas e dimensões constituem nossas trajetórias, e todas elas precisam ser lidas sem simplificar nossa experiência num único dado de nossa existência. Um dado importante e inconteste é esse: a experiência de mulheres negras norte americanas, como Bell Hooks, não é a mesma experiência de nós mulheres negras brasileiras. A experiência do racismo em nós mulheres negras brasileiras não é compartilhada, sentida e vivida do mesmo modo por todas nós em diáspora . Há consciências de lá do norte, que jamais existiram aqui. Há resistências daqui que sequer são reconhecidas por lá.

Aqui me lembro de uma fala de Chimamanda Adichie, onde ela discorre sobre o perigo da história única. E cá, avalio o quanto de único há nas muitas mulheres que hoje temos a liberdade de ser! Sim, porque é sempre bom lembrar que para que eu esteja aqui, sentada no meu apartamento confortável escrevendo para um blog, um tanto de outras mulheres pretas antes de mim vivenciaram experiências que nos olhos desse tempo podem não soar tão libertadoras. Mas é isso! A história é um caminho sem linearidade e composto de várias reentrâncias e contradições. O miúdo dos dias pode trazer para várias de nós uma infinidade de possibilidades de (des) afirmação que talvez nem ainda possamos alcançar tamanha a dimensão.

Cresci junto de brancos, frequentando lugares de brancos, criando laços, desejos, afetos por brancos. Não vivenciei nenhuma experiência de miséria ou privação, e não vivi em um lar demarcado pela violência concreta ou simbólica. E isso não me fez menos negra! Na minha história, nem menos negra pela constante lembrança de Carminha e Expedito sobre o meu lugar de origem, nem pelo modo como o próprio mundo dos brancos ia prescrevendo as limitações impostas ao meu corpo negra. As experiências que podem não ser semelhantes à da maioria das negras, não me livraram de ser alvo do racismo em suas inúmeras nuances e facetas. Também fui, (e sou!!!) de modos vários, martelada em meus existires. E não é aceitável que outras tantas como eu sejam enxergadas como menos vítimas á sanha do racismo.

         E meus olhos de hoje olham para algumas dessas experiências com vontade de colocar fogo em várias pessoas, mas a memória, que como diz Quintana, tem nas mãos uma caixa de lápis de cor, me leva a olhar também os afetos daquele tempo. Os encontros, as trocas, as risadas, as interações. Bem sei que poucas de nós experimentaram, na infância e adolescência escolar vivenciada junto aos brancos, trocas e afetos positivos. Mas é isso. Somos várias de variados tons coloridos pela vida. No meu tom tem, sim, os afetos que naquele tempo eu vivia como sendo meus, para mim, comigo. E eles são parte da mulher negra que sou, porque me constituo também pelo modo como transitei por minhas afetividades. Eu Negra.

Transito em minha pele sem nunca dela sair! Encontro-me sob meus poros exalando de cada encontro os encontros outros que se fizeram em mim libertando-me da pele como apenas um cárcere, mas território de liberdades que não foi me dada por NENHUM branco. Mas a verdade é que nas teias dessa identidade há olhos, mãos, pés, suores, fluidos, peles, vozes de pessoas brancas. A Madonna, as amigas, o Paulo Freite, o Augusto Boal, as referências. O possível. Nem sempre com a chibata na mão, nem sempre sem a chibata na mão. A branco o que é do branco, porque existem, sim, brancos, bem poucos é certo, construindo igualdade racial e pareados a nós, no corpo branco deles, no enfrentamento ao racismo. Nada fazendo além do que deveria ser a obrigação de TODOS eles. Mas fazendo. Na minha experiência de Eu Negra, Madonna é uma dessas brancas, e não a sinto como sente a Bell Hooks porque eu e Bell Hooks não somos a mesma pessoa, e nossos pés pisam em territórios diferentes na vivência de nossa negritude. Universais e únicas.

Eu Negra que me construo nesse Brasil de relações não ditas, de discriminações silenciadas, de vivências negras fartas e repletas da crueza evidente que o racismo constrói. Que não é velado. Não é sutil. É escancarado, covarde na tentativa de se esconder,  sórdido e cínico no modo como se mostra, porque se apresenta no meio de bons afetos que SÃO reais... A empregada doméstica negra que não abandona a família branca, mesmo submetida à um sub status de humanidade. Nem sempre é só pela sobrevivência. Ela gosta, se afeta, se envolve, se identifica, não com o algoz, mas com um sentir que PARA ELA é real. Não é síndrome de Estocolmo. São tão somente e grandemente as relações raciais brasileiras... O racismo que a desenha tem a mesma cara feia e branca mundo a fora. O modo, os instrumentos de vivencia-lo são bastante diferentes no emaranhado que, fio a fio, tece cada uma de nossas trajetórias. Nós Negras.

Eu Negra Diaspórica compartilhando a dor e a solidão com tantas outras negras também. Eu Negra Diaspórica levando em minha pele de muitas a singularidade das minhas experiências únicas, dos meu sentires possíveis, construídos, encontrados entrelaçados, feitos, desfeitos, refeitos. Eu Negra Diaspórica. Fã da Madonna, cepa da Maria Joana... Várias em mim, eu nelas. Eu Negra Desenhada por tudo e todo mundo que antes de mim veio, que comigo encontra. Eu Negra. Filha da Carminha e do Expedito. Eu...


domingo, 16 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 1




Essa semana Madonna lançou seu 14° álbum! Eu, fã desde os 13, 14 anos de idade, ouço cada faixa e me encanto com a versatilidade e originalidade dessa mulher! Não só como artista, mas também como cidadã do mundo. Aí, na empolgação de compartilhar com algumas pessoas, também fãs da “blond ambition”, me deparei com o texto de Bell Hooks, famosa intelectual feminista negra norte americana discorrendo sobre os vários comportamentos racistas de Madonna ao longo de sua carreira. Segundo Bell, carreira marcada, dentre outras coisas, pela apropriação da cultura negra travestida de  suposto comprometimento com as “causas” negras... Uma irritação inicial, e logo em seguida a avaliação de que várias críticas da intelectual têm, sim, fundamento, o que para mim nem se configura como um grande choque ou surpresa. Madonna é uma mulher branca. Ponto. Pessoas brancas, em virtude da construção social de nossas sociedades, são, a priori, racistas. Assim como a sociedade que me construiu mulher cisgênero heterossexual me faz, a priori, LGBTTQI+fóbica. É assim que é.

Mas não é o racismo de Madonna ou a discussão se ela é ou não uma branca boazinha que me traz aqui. Quero falar de mim. Eu Negra. Eu que vivo sob uma pele preta, experimentando as nuances e dobras que o racismo oferece. Eu Negra. Mulher. Eu que vivo num corpo marcado pelas imposições do machismo, do sexismo e de todas as regulações que eles constroem para a experiência de TODAS as mulheres. Eu Mulher Negra. Eu que carrego em minha trajetória os traços de como a intercessão desses pertencimentos se transforma em experiências de construção identitárias invariavelmente identificadas com a dor e a solidão.

E eu Mulher Negra quero falar disso. De trajetória. Da única trajetória que conheço e sinto por inteiro. A minha. Os meus passos nesse mundo desenhando a Mulher Negra que sou hoje, os passos que encontrando com outros tantos me desenham em inúmeras possibilidades que fazem de mim ser quem eu sou. Com dores e alegrias. Com interditos e possibilidades. Eu. Negra. Mulher.

E, foi a partir das considerações que li sobre Madonna, que outras considerações foram sendo tecidas de mim sobre mim. E já aqui a estranheza pode ser localizada, na medida em que é a crítica à um corpo branco que me move na tentativa de refletir minha trajetória negra... A vida. Cheia de reentrâncias e contradições.

Sou filha da Carminha e do Expedito. Isso, para quem os conhece explica boa parte dessa conversa e, para quem não os conhece apresento aqui alguns pontos que julgo definidores de variadas questões sobre minha identidade. Identidade que é só minha, mas que se atravessa na construção de outras tantas vivências de mulheres negras diáspora brasileira á fora.

Carminha era a caçula de sete filhos, nasceu sem pai, com uma mãe, Maria Joana, que pouco tempo depois de viúva se enamorou, e grávida, decidiu deixar a pequena cidade onde viviam, fugindo de maledicências e falatórios. Carminha foi criada entre trouxas de roupas e restos de feira e, dali, foi se transformando numa jovem sonhadora e aguerrida. Sem romantismos de minha parte... Carminha foi militante na igreja católica e, como empregada doméstica, estava junto das primeiras organizações dessas trabalhadoras. Correu da polícia, empunhou bandeiras e, nos meus guardados, há muitos registros fotográficos de passeios, piqueniques, bailinhos e até de show de calouros. Carminha era fã de Emilinha Borba e, em todas as oportunidades ia para o Rio de Janeiro acompanhar a cantora na Rádio Nacional. Estudou até onde pôde e concluiu, já adulta, o segundo grau. Nas palavras de minha avó, Carminha era a que “ninguém podia  com ela.” Um dia ela conheceu o Expedito.

Já Expedito não era das badalações. Nasceu na roça, ficou órfão muito cedo. Primeiro do pai e, logo em seguida, de uma mãe, que até hoje não se sabe ao certo como morreu... Há quem diga que tomou remédio errado, o curioso é que era mateira, sabia das coisas... Era também, segundo contam, uma mulher muito bonita, formosa e empregada numa fazenda no interior de Minas, lá de um tempo, não muito longe, onde os fazendeiros ainda se comportavam como “donos” de seus empregados. Sei lá se isso, mudou... O fato é que Francisca morreu, sem muitas explicações, pouco depois de seu marido Augusto, e deixou pra trás sete filhos, dentre eles, o Expedito, que aos três anos de idade, ao contrário de meus tios e tias mais velhos, teve a sorte de ser mandado para a família de uma tia. A avó paterna que conheci, Sebastiana!!! Uma preta, muito preta, que amava o Expedito um tanto que nem sei, e eu bem desconfio que esse amor tinha muita relação com o fato de Expedito ter a pele mais clara em relação aos irmãos, e o cabelo menos crespo se comparado ao restante da família... Também eu, era a neta mais amada... Expedito foi criado por um pai que, segundo ele, “adorava bater mas era amoroso”, Expedito viveu uma infância pobre e acolhedora. Já adolescente foi jogar futebol no time lá da roça e, por causa das cores da camisa se tornou torcedor do Botafogo. Não pôde estudar para além do curso primário que a escola da roça oferecia, e veio cedo trabalhar em Juiz de Fora num armazém, fazendo entregas. Bem jovem conheceu a Carminha.

Formaram um casal e juntos construíram uma vida. O Expedito quase dez anos mais novo que a Carminha, e muito cobiçado por várias jovens, inclusive as da família para a qual pretendia entrar. A Carminha bastante fora dos padrões da moça casadoira. Se sustentava sozinha, era gorda, gostava de estudar, vivia metida com política, namorava bastante e, na falta de calçados femininos que coubessem em seu pé gordo, usava os masculinos mesmo que, quase sempre, “herdava” de seu patrão.

Expedito assumiu as bandeiras, a família extensa, as muitas amigas. Os dois fizeram de mim uma menina negra consciente de minha negritude: “podem te chamar de neguinha, de pretinha, só não podem te chamar de macaca.” Proporcionaram à mim um lar repleto de diálogo, possibilidade de escolhas e liberdades que poucas meninas à minha volta puderam experimentar, sem ter junto conflitos e confusões... Carregavam-me para tudo que é tipo de movimentação política em que estiveram envolvidos. Das belas imagens que minha memória guarda tem eu, nas costas de meu pai, assistindo, em minha cidade, o comício das Diretas Já! Ou eu, junto com minha melhor amiga branca, a Sandra, sendo levadas pelo Expedito para o comício de Lula, na primeira eleição direta pós ditadura militar. Me ensinaram disciplina, responsabilidade e amor... Amor pelas gentes, pelos animais, pelos livros, pela música. Pela vida! Carminha adorava viver! Decidiram como principal investimento a minha educação, proporcionando uma das melhores escolas da cidade e várias outras possibilidades de construção humana e estética: música, teatro, esportes, dança... Acompanharam tudo de perto, por várias vezes denunciaram o racismo na instituição em que eu estudava, e em espaços em que eu frequentava, para que eu fosse protegida. E sempre, sempre incentivaram-me a enfrentar a discriminação racial, mesmo quando nem davam esse nome para as vivências que compunham a vida das pessoas pretas. Jamais, por minhas possibilidades diferenciadas de uma criança e adolescente de classe média, me afastaram do convívio de minha família pobre, preta, significativamente periférica: “você tem que ir nos lugares onde suas primas vão.”

         Eram parceiros, presentes, comprometidos e eu, NUNCA ouvi de um com outro um grito que fosse. Discussões e desentendimentos existiam, mas nunca, na minha presença, descambaram para humilhações e desmerecimentos. Cuidaram-se! Compartilharam-se! Viveram juntos por 32 anos e, até o último momento, foi ele quem cuidou dela, foi ele quem esteve do lado acompanhando os últimos anos de vida... E, nas últimas horas, quando a respiração já ia embora, nos momentos em que Expedito se aproximava de Carminha, no leito da UTI, o monitor cardíaco apitava numa contagem disparada... Amor até literalmente o fim. Estive lá, com eles, durante toda minha vida com ela, e no momento da despedida... Esse, triste... Porém, repleto de ternura, cuidado, sensibilidade e força.

Foi essa família que me trouxe ao mundo. Foram essas pessoas que costuraram os primeiros e mais importantes fios tecendo a mulher que sou. Eu Negra Mulher diaspórica sou fruto dessa história (bem resumida) e carregada de significados. Vim de uma mulher que não aceitou sobre si muitas imposições, que transgrediu no corpo, no cabelo, no figurino e nas atitudes diante da vida. Ela veio de mulheres que de algum modo a fizeram assim. Vim de um homem negro doce, sensível, comprometido e amoroso. Essas pessoas estão em mim.

Defeitos vários os dois tinham, e eles também me escrevem, porém, a escrita da vida que meu corpo carrega é essa, de ternura, força, coragem, amizade, diálogo, entrega e amor! Um imenso e indescritível amor que sinto exalar por minha pele preta em diáspora. Aqui, começo a tracejar os caminhos que me trazem nesse percurso reflexivo sobre minha memória. Minha apenas. Não única! Minha. Potente e não livre das artimanhas, corruptelas e estratagemas do racismo. Racismo brasileiro. Único no mundo e universal para todo mundo que é preta.

Vem junto! Daqui a pouco, na próxima postagem, te conto mais e tu vai saber o que o álbum novo da Madonna tem a ver com isso... Inté!


sábado, 8 de junho de 2019

Nós somos aquelas



Nós somos aquelas

Nós somos aquelas para quem não é permitido o direito! Nós somos aquelas cujos corpos são pertencidos, discursados, expostos, apropriados. Nós somos aquelas que não dispõem da defesa, da dúvida, do contraditório. Nós somos as responsabilizadas.

Não importa a constituição de nossos corpos, nós somos aquelas que em qualquer condição ou contexto seremos responsáveis pela opressão que experimentamos. Podemos ser novas, velhas, magras, gordas, pretas, brancas, ricas, pobres. Nós somos. As opressões se entrecruzam em nossos corpos e agem em diferentes intensidades. Ás vezes mais cruéis. Os corpos das pretas, das indígenas são os mais violentados, e não há dúvidas nisso... Os nossos corpos todos, porém, jamais escapam das diversas modalidades de violência. Nós somos aquelas em quem se naturalizou a opressão como parte da identidade.

Nós somos aquelas  cuja violência a nós imposta levanta debates capazes de revelar a ausência de sensibilidades comprometidas com nosso direito à vida. Vida plena e abundante. Não há compromisso com nossos direitos, com as histórias de violências impressas sobre nossos corpos. Diante de um violentador rico e poderoso jogam sobre nós uma infinidade de atributos, e não é apenas pelo desejo de proteção daqueles que nos agridem, mas por uma espécie de raiva, de ódio que nutrem sobre nós. Nós somos aquelas a quem se odeia de todas as formas, nós somos aquelas que carregamos esses discursos sob nossos corpos, e em nossas vidas. Os discursos de ódio, os desejos de enquadramento, as tentativas de desmerecimento.

Nós somos aquelas violentadas pelo homem rico e famoso, aquelas certamente ameaçadas por seu familiar,  somos aquelas expostas na redes sociais para que se construa sobre nossos atos um juízo depreciativo de nossa valoração moral... Somos aquelas que não podem gerir seu desejo, aquela a quem não é permitido os jogos e combinados sexuais, sem que mais tarde se tornem públicos na tentativa de desmerecer e justificar a violência contra nós cometida.

Nós somos aquelas diante da mídia dizendo de nós sobre nosso pouco caráter, sobre nossa natureza manipulativa, sobre as armações que inventamos para golpear um homem indefeso. Somos nós aquelas que não têm direito a se protegerem. Nós, aquelas a quem jamais é dado o direito de desejar. A gente quer sexo! A gente quer diversão! A gente quer usar para o prazer o corpo do outro, estando o outro consentindo com isso. Não! Nós somos aquelas que se ousarmos a usar nossos corpos em nome do nosso prazer, somos ainda mais rotuladas, julgadas e desmerecidas.

Nós somos aquelas sobre quem se dirigem os discursos e análises que são capazes de deslocar o verdadeiro sentido que o machismo tem, quando joga sobre nossos corpos as responsabilidades de uma atitude eivada de simbolismos e concretudes, que escancaram a crença de que nós valemos menos, de que nós não devemos mesmo ter direitos mínimos iguais aos homens. Nós somos as que valem menos, as que sangram, as que parem, as que devem ter sempre o mesmo corpo das outras, as mesmas respostas que decidem para nós, as mesmas roupas que forqm escolhidas para nós, as mesmas atitudes aceitáveis à nós... Nós somos aquelas que devemos ser simples, desprovidas de desejo, subservientes, enquadradas, silenciosas, prestativas, doces. Infelizes.

Nós somos aquelas que, dente milhares de outras coisas, podemos também ser dissimuladas, manipuladoras, sem vergonhas, interesseiras... Nós somos aquelas que somos várias, e sendo várias, várias de nós existem sem que todas nós sejamos uma coisa só. Nós tempos a possibilidade de ser gente que não presta e gente que presta, gente má e gente boa, porque pode até não parecer, mas nós somos aquelas que somos gente.

Nós somos aquelas a quem é ensinado odiarmos umas as outras, acreditando que juntas não podemos ser, porque não nos aceitamos umas às outras... Ensinam, e nós somos aquelas que aprendemos a dizer que a outra não tem valor, que a outra vai roubar “seu” homem, que a outra se veste para te fazer inveja... Somos aquelas que aprendemos a linguagem do machismo e a reproduzimos enchendo de munição as armas que estão apontadas contra nós.

Nós somos aquelas cujos afetos podem ser sinal de perigo, somos aquelas cujos laços podem ser nós cegos... Não há garantias. Não há pai, não há irmão, não há tio, não há avô, não há amigo, não há vizinho. Todos podem ser uma ameaça. Não há tranquilidade. Todas as ruas são escuras, desertas e perigosas, todo o transporte urbano pode tomar rumo ignorado.

Nós somos as putas, as baratas, as golpistas, as dissimuladas, as vagabundas, as mentirosas, as safadas, as pilantras, as desonestas, as culpadas. Sempre as culpadas. Não importa onde uma de nós esteja, todas nós estamos no mesmo lugar que ela. Nós somos ela, e somos as outras todas. Do mesmo modo... E se vivendo nas diferentes peles, pretas e indígenas somos ainda menos... Se nos diferentes lugares da rua, da prostituição, do vício, ainda menos somos... Nada. Ninguém somos se pretas, se indígenas, se pobres.

Nós somos aquelas que experimentando a violência que é de todas experimentam sozinhas o vazio da solidão... Não era pra ser assim... Solitárias... Profundamente solitárias...


Nós somos aquelas que apanham, que são cuspidas, que são metidas contra a vontade, que são estupradas, desmentidas, ridicularizadas. Nós somos aquelas que são esfarrapadas, que são tombadas, que são difamadas, que são mortas... Nós somos aquelas...

Aquelas somos nós.
Aquela lá, é você.
E você é todas nós.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

TIREM DA MINHA VISTA


Tirem de minhas vistas

Tirem de minhas vistas!
Afastem
Levem daqui!
Corpos imundos
De imundícies inventadas
Criadas
Construídas
Acreditadas.

Tirem de minhas vistas!
Escondam
Disponham
Cerquem
Limitem
Protejam me em meu delírio de classe.

Tirem de minhas vistas!
Esses corpos.
Negros
Negros
Negros
Proscritos
Indesejados
Indesejáveis
Inventados

Fala Caetano!
Grita, Gil!
"Quase pretos de tão pobres.
E pobres são como podres.
E todos sabem como se tratam os pretos. "

Tirem de minhas vistas!
Ponham longe da alma,
Alma?
Falo da alma.
Não vivo com alma.

Tirem de minhas vistas!
Impeçam
Encarcerem
Amofinem
Morram os!
Pode matar?


Tirem de minhas vistas!
Livre os medos que eu invento
Alimente os discursos que eu crio
Fortaleçam o que não sei.
Porque eu nada sei.
Só imagino.

Tirem de minhas vistas!
Coloquem longe
Queimem
Carrinho
Cachorro
Sacola
Papelão
Gente...
Que gente?
Mas isso é gente?

Tirem de minhas vistas!
Gente só eu sou
Eu e os meus
Os brancos
Os que PARECEM limpos
Os aceitos
Os que podem entrar!

Aparentam aparências
Com as bênçãos de um deus
Que é meu.
Não seu.

Tirem de minhas vistas!
Não vivam
Só importa o que quero olhar.

(Imagem retirada de Observatório3setor
https://observatorio3setor.org.br/carrossel/desemprego-impulsiona-aumento-da-populacao-em-situacao-de-rua/)

terça-feira, 25 de setembro de 2018

NÃO TEM VOLTA!


Quando vi a imagem de Valéria Lúcia dos Santos jogada ao chão e algemada foi como se meu corpo pudesse sentir todo o peso daquela cena... Nela estavam Valéria, eu e todas as outras que vão por aí ousando a serem e estarem além do que a branquitude imaginou pra nós.


Valéria sentiu na pele. Foi no corpo dela aquela violência, e não há como reivindicar aquela dor e aquela humilhação. Mas nós, corpos negras, sabemos em cada milímetro os recortes daquela cena... Ser a louca, a desvairada, a radical, a agressiva, a exagerada a ponto de ter que ser contida como um sinal do quanto que ali não cabemos. Ali. Naquele lugar e por outros tantos. Lugares símbólicos e concretos de tudo aquilo que representa o nosso não poder ser, o nosso não poder ir, o nosso não poder falar, o nosso não. Sempre não. Das portas que se fecham, dos silêncios que nos impõem.


A Valéria no chão é o retrato bem desenhado de todas nós jogadas na invisibilidade, no silêncio, no descaso, no desrespeito, no assédio. Qual saúde mental resiste à isso? Qual experiência de afeto se constrói no meio de tanta violência? Diária. Ininterrupta. Presente. Forte.


Mas não. Vão nos dizer que não é nada disso! Que aquele assédio não foi bem assim. Que aquele desrespeito não é bem desse jeito, que aquele descaso é um mal entendido...


Mal entendidas, mal aceitas, mal vividas, mal quistas, mal gente... Assim é. Assim nos pintam com as tintas impressas em nossos corpos que avançam! Que se querem livres! Que se sabem firmes! Que caminham poderosos. Porque é assim! Caminhando. Avançando! Não tem volta!


“Uma afronta! Lá vai ela... Aquela nêga metida! Voluntariosa! Indisciplinada! Barraqueira! Insubordinada! Olha lá! Não tem modos, aquela crioula! Não deixem que vá! Invente coisas a seu respeito! Crie discursos! Imagine regras! Limite-a! Faça com que se sinta doida! Sem lugar, sem rumo, sem destino, sem credibilidade, sem confiança! Escrevam nela o que dizemos que ela é! Maldita!”


Mas as palavras não saem. Elas são só gestos, olhares, silêncios, combinados, acertos. Não são palavras de verdade. Não são olho no olho. São espreitosas. São covardes. São tirânicas e violentas. Não são ditos. São não ditos que nos querem no chão. Humilhadas. Algemadas. Caladas.


Sinto em mim as mãos que algemaram Valéria. Aqui elas agarram o meu pescoço. Tentam despedaçar-me, porque temem a liberdade que há em mim... Em minhas entranhas. A liberdade que as minhas de antes conquistaram para mim, para Valéria, para todas nós... Que mesmo ao chão, estamos livres! Avançando! Não tem volta!


Adoecidas. Sim! Vamos falar de adoecimento. Adoecidas, às vezes tristes, desacreditadas, massacradas, mas... Avançando! Ninguém fala por nós! Ninguém nos impede sem que tomemos a rédea do jogo jogado há séculos! Não mais! Acabou! Do chão que nos jogam levantamos contando outras histórias... De mais resistência! De mais fé! De mais força! Porque daqui não tem volta!


Força é o que temos ainda que não queiramos ter... Porque ser forte cansa. Adoece.

Ninguém é imbatível. E nós, corpos negras, vamos carregando pela guerra o desejo de não precisar da guerra para viver... Queremos vida. Vida apenas. Simplesmente...


  
O resultado da investigação sobre o episódio onde Valéria foi jogada ao chão e algemada é mais um capítulo dos muitos estratagemas daqueles que não nos querem vivas e avançando...De vez em quando se travestem de Estado, de vez em quando são uns, outros e outros uns. Segundo o julgamento da comissão que investigou o caso, Valéria se atirou ao chão porque quis, e foi contida pela polícia numa atitude de proteção.


Não há o que dizer e nem novidades há. A história que nosso corpo preto vive nunca é a história que interpretam de nós. As leituras sobre nós não consideram quem somos, porque quem escreve os textos não considera que somos. A gente não é. A gente não está. A gente não pode chegar. Por isso a chegada é assim. Repleta de hostilidade, violência e sutileza. Doidas somos nós. Loucas somos nós. Na caneta de quem escreve essas narrativas tem sangue que traça a escrita. Nos desconsiderando. Nos apagando. Nos morrendo no que trazemos, no que falamos, no que somos!



Para que essas narrativas prosperem é preciso inscrever em nossos corpos e nossas trajetórias as letras que inventam nossa incompetência, nosso destempero, nosso despreparo, nossa inadequação. É preciso inventar para desinventar o que somos, o que temos, o que sabemos para que se invente aquilo que esperam que sejamos: 


"Quem é você? De onde você tirou isso aí que você está falando? Qual a sua formação? Mas qual é a metodologia que você utiliza pra desenvolver esse trabalho? Mas onde você aprendeu isso?


Já ouvi todas essas perguntas. Ouço. Diariamente. Uma aqui, outra ali, por de trás de um sorriso que emoldura o desejo de que eu e minha história não reconheçamos o que de fato está acontecendo: o desmerecimento, o desrespeito, o descaso. Por vezes a inveja.


Sim! Vamos falar de inveja! A inveja que  nos joga no chão e nos algema. Nos adoece e nos aprisiona nas caixas de ansiolítico, nos quadros depressivos, nas tristezas medicalizadas... Algemas nos braços, nos passos... A inveja da potência que talvez venha do nada. A inveja da voz que ecoa realidades vividas, conhecidas, compreendidas e estudadas... Ah... A inveja... Racismo é estrutura ideológica que conta com milhares de micropolíticas e estratégias para se manter. Não tenha dúvida, a inveja é uma das ferramentas de manutenção do racismo.


E seguimos algemadas e atiradas ao chão. Levantando dele na reinvenção do que dizem de nós! Nos reinventamos a partir de nossas próprias histórias, de nossas próprias possibilidades. Avançamos... Como num cabo de guerra, com as mãos machucadas, os pés fincados no presente, no jogo, na trapaça que vem do outro lado... Aquele lado que não se identifica direito... É nebuloso, escondido, ardiloso, covarde... 


E avançamos puxando com força, garra e coragem cada centímetro dessa corda para que se libertem as nossas histórias...  Nossa mente... Nossa saúde... Nosso corpo... 


Porque daqui em diante é assim... não tem volta.




foto retirada de http://www.esquerdadiario.com.br/Mulheres-negras-capitalismo-e-revolucao-16536

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Não temas! É afrocentrismo! De novo...


Publiquei esse texto em outubro de 2015. Na ocasião eu vivia uma situação de racismo institucional . Tal como relato no texto.
Escrevi e o anunciei como um desabafo. Foi publicado no blog UHURU – Ativismo Negro, no qual tive a honra de ser escritora por um tempo...

Quase três anos se passaram... o Da Gata Preta nasceu também como um espaço de ativismo, afetos e afetações compartilhadas. O país onde vivo vai, desde esse tempo, mergulhado numa grave crise.

Adoeci. Recuperei-me! Reorganizei as estratégias de luta e resistência junto àquelas e àqueles que comigo caminham!

Cheguei e continuo o caminho. Muito mudou. Mas ele, o racismo, em sua forma institucional e suas tantas outras faces, permanece. Surpreendentemente, nesse caso,  no mesmo lugar geográfico e material.

Compartilho com vocês o desabafo de anos atrás... Pra aliviar, pra abraçar, pra seguir caminhando e acreditando que esse mundo pode ser melhor!

 Lá do lugar que relato, seguimos os dois. Eu e o racismo. Nós e o racismo. Eu e ele. Ele e nós. Entre reconhecimentos e enfrentamentos cotidianos a indignação se aquece e transforma a simples vivência em embate constante.   

Porque NÃO HÁ COMO NÃO SER ASSIM, e ainda assim permanecer viva!

O corpo vai se cansando. A esperança ás vezes fraqueja... Mas a alma???? Ah... A alma... Essa nunca, nunca, em tempo algum, vai deixar de seguir em seu desejo de ser livre!!! Ela junto de tantas mais...

“Porque nossos passos vêm de longe!” “Porque caminharemos em marcha! Até que todas sejamos livres!!!”

Ta aí! O que foi ontem. O que ainda é hoje!

  


E é um desabafo… Não adianta dizer que é outra coisa. A reflexão é fruto de me deparar com uma situação dessas que geram angústia… Angústia que, quem veio pra essa vida, pra esse país, como mulher preta, sabe bem o que é.
É muito provável que ao longo de minha passagem por esse blog você me ouça falar, citar, me referir ao Marcelo, que é meu grande parceiro nessa vida! Amizade é uma palavra que nem mais consegue definir o tipo de relação que vivenciamos e, além disso somos, nesse momento, companheiros de trabalho. Há quase cinco anos temos desenvolvido um tanto de coisas juntos. Invariavelmente, tratando de questões raciais. E é desse lugar que quero falar. Do momento em que uma mulher preta e um homem branco compartilham o mesmo espaço.
Aqui já é bom pontuar o equívoco semântico. Marcelo e eu, nessa sociedade, jamais ocuparemos o mesmo espaço simbólico. Ás vezes, até os espaços físicos são difíceis de serem compartilhados… E aí, não há amor (e isso não nos falta) que dê conta de reverter isso e todas as consequências que disso vêm. Eu poderia contar inúmeras histórias onde meus espaços são desrespeitados, roubados, violados quando em relação ao Marcelo… Amigos, família, cotidiano, espaço urbano… Mas, quero falar de trabalho.
Coordenamos juntos um programa de promoção e garantia de direitos humanos, com recortes de raça e gênero,  e já perdi a conta das tantas vezes em que fui invisibilizada no lugar criado também por mim… E quero falar do trabalho, porque nas sociedades brancas ocidentais onde vivemos, esse campo social é compreendido com uma valoração que demarca e implica outras tantas formas de relações.
E o relato começa assim: Pela segunda vez, em menos de um ano, vivenciamos, eu e Marcelo, um momento de embate com um determinado grupo em relação à certa diretriz de encaminhamento de ações. Tanto na primeira ocasião, quanto nessa, os ânimos se exaltaram, tanto de nossa parte, quanto por parte da interlocução. No entanto, nas duas ocasiões, ao se referir ao imbróglio das situações, uma das interlocutoras apontou a mim como a “causadora” do conflito, em virtude do “modo como falei”. Importante que eu diga, que das duas vezes estávamos discutindo questões relativas à garantia de direitos humanos atravessados pelos vieses de raça e gênero… Nas duas oportunidades de ânimos exaltados, Marcelo foi bem mais enfático em suas colocações (e eu diria “grosso” mesmo) do que eu. Mas ali, na cabeça dessa pessoa e de seus pares, o que interessou avaliar foi minha postura. Vê lá, gente minha! Uma mulher negra não pode ter voz e não pode partir para o enfrentamento. Onde já se viu? Já um homem branco na mesma, ou como no caso, numa postura muito mais belicosa, é apenas um homem branco em seu lugar habitual. Palmas para ele.
Interessa-me também pensar os modos como os pensamentos que determinaram a avaliação dessa pessoa em relação à minha postura são, inteiramente, organizados a partir de um referencial eurocêntrico, que por si só, já traz características castradoras, ordenadoras, classificadoras e hierarquizadoras. E veja você, como é difícil para o pensamento “brancocêntrico” considerar as diversas formas de estar no mundo e, nesse caso, de ser profissional. Os valores que trazemos atavicamente de nossa civilização em África são tidos por eles como menores, desorganizados e antiprofissionais, quando na verdade, constituem-se em formas libertadoras de construir e vivenciar todos os tipos de relações que podem, revolucionariamente, passar pela energia vital (Axé) da oralidade, da circularidade, da corporeidade, da musicalidade, da ludicidade, da cooperatividade. (GINO, 2015)
Esse pensamento faz com que pensem, que imparcialidade e neutralidade existem, e são parte a boa conduta profissional. Fazem com que acreditem que o domínio ou controle das emoções é requisito básico para ser um profissional de referência. Acreditam que há um determinado modo como o corpo deve ser controlado, vestido e adornado. Acreditam piamente que o controle do corpo e de suas variadas nuances são o que constituem, numa medida muito significativa, uma boa profissional e/ou um ambiente profissional… Pra mim, a palavra mais feia da língua portuguesa branca é essa: controle. A partir dela, um tanto de subjetividades é desenhada e assumida como a mais correta, a mais aceitável, a mais bonita, a mais profissional…
Mal nenhum haveria se assumissem esses valores para si, se os vivessem para si e se não nos envolvessem nisso. A grande questão é justamente essa! Porque vivendo nesse lugar para onde trouxeram nossos ancestrais, nós pretas e pretos assumimos desavisadamente esses valores, ainda que conosco carreguemos outros bastante incompatíveis a esses… Nessa trama eles nos fazem acreditar que;  não somos educados,  falamos alto,  não temos modos,  somos sexualmente oferecidas, não somos profissionais, somos demasiadamente passionais, que não nos vestimos bem, que as “necessidades” do corpo comandam todo o resto das situações e “que somos seres inclinados para uma irracionalidade vinculada às nossas emoções”. (GINO, 2015)
Podiam pensar assim lá no canto deles, mas o fato é que como temos que com eles dividir essa sociedade, eles acabam nos fazendo aprender que, de fato, somos e carregamos esse monte de problemas, de defeitos, de limitações, de exacerbações, que nos impedem de ser tão polidos, finos, educados e tratáveis como eles são…  Se vêm assim ainda que descendam de um povo que invadiu nossa terra, roubou nossos metais, nossas produções artísticas, nos sequestrou, demonizou nosso sagrado… Permanecem violando nossa existência e nos fazendo acreditar que o problema é apenas nosso. Rotineiramente professam que qualquer apontamento nosso à conduta colonial, que ainda hoje carregam, caracteriza nossa “mania de perseguição” ou nosso “radicalismo”… Sempre há outra coisa pra explicar o que de fato é: racismo.
De todas as coisas que essa circunscrição da subjetividade provoca, uma delas é o adoecimento… Viver situações como as que vivi nesses dois momentos são porta aberta para crises hipertensivas, males gástricos, sofrimentos mentais e uma gama de desarmonias biológicas que acometem, com especial intensidade, a população negra… Estar diante das violências e violações a que somos submetidas quando acessamos determinados espaços, que não foram por eles pensados para nós, é como entregar o corpo ao açoite que os antepassados desse pessoal inventaram para controlar nosso corpo e dizimar nossa alegria. E foi com a alegria desse corpo é que atravessamos o tempo.
E não há perfeição entre as águas desse mundo. A terra de onde viemos também tinha seus modos de controlar, subjugar, humilhar… No entanto, seja por razões que esse ponto da história não nos permitiu ainda alcançar, nenhum desses modos se espalhou pelo mundo como um valor universal e intocável. Também é bom que se diga que nos meandros dessa trama, há homens e mulheres brancos, que mesmo carregando em sua genealogia o subjugamento material e simbólico da população negra, são parceiros ativos, envolvidos e inteiramente comprometidos com a igualdade racial em suas expressões materiais e simbólicas. Como é o caso de Marcelo!
Dito isso, é bom encerrar resgatando o quanto pensar afrocentradamente pode ser um diferencial para todas as relações que temos que vivenciar e construir! Quando se pensa afrocêntricamente não há a necessidade de que uma experiência de estar no mundo exclua a outra. Morte e vida, saúde e doença, alegria e tristeza, sagrado e profano, prazer e dor, acerto e erro, grito e silêncio estão em constante diálogo produzindo-se, na medida em que são duas faces de uma mesma realidade e, por isso, são constantemente coafetados. Quando se pensa afrocentricamente o corpo não precisa de mecanismos de controle e coerção, porque é no corpo que as experiências se inscrevem, e é pelo corpo que as dualidades se integram e dialogam! O corpo é uma instância sagrada porque carrega a vida surgida do sopro inicial carregado de Axé, “nossa forma impar de existir e estar no mundo” (idem). Não é preciso temer o corpo, se envergonhar dele, escondê-lo, nega-lo, normalizar seus volumes! A experiência corporal é libertadora! E a experiência da liberdade é, quiçá, a mais poderosa que alguém pode vivenciar.
No fim desse desabafo quero dizer sobre a pessoa que viu em mim a representação do que ela nomeia de “antiprofissionalismo”… Coitada. Coitada porque certamente vai seguir pela profissão, e provavelmente pela vida, controlando sua voz, suas emoções, seu corpo e sua possibilidade de libertação. Coitad@ de tudo que ela representa nesse lugar para onde viemos e que até hoje não nos aceita… Coitad@s… Diante da potência que trazemos de nossa ancestralidade não conhecem outro caminho senão o de violar para conter o medo diante do que somos e representamos. Medo. Racismo tem tudo a ver com muito medo… Mais afoita, poderia dizer também que racismo tem a ver com inveja… Vá saber…
A eles a nossa voz alta, nossas emoções vividas, nosso corpo livre e nossa infinitude… Porque assim aprendemos! Transformar em resistência e liberdade tudo o que de ruim nos deram. O que eles dizem ver como inapropriação é seiva da mais genuína força que em séculos de violação jamais conseguiram nos arrancar… Jamais conseguirão.
Axé!


segunda-feira, 21 de maio de 2018

Quero!






Me recuso à uma vida inteiramente cinza! Quero o cinza para se misturar nas minhas cores e não para apagar as diversas matizes do meu colorido!!!

Quero belezuras e sabenças!
Quero sabor!
Quero minha força repleta de poesia e quero fitas esvoaçantes na ponta da minha espada!

Quero minha vida assim. Cheia de dobras, reentrâncias, curvas, retas, pontas e arredondados!
Quero a diversidade de sentir, de ver, de pensar, de agir!
Quero afetamentos!

Quero riso e quero lágrima!
Quero firmeza e quero ternura!
Quero o frio na barriga das situações desconhecidas.
Tenho espaço para o mistério.
Tenho gosto pela busca!

Quero livrar - me das certezas e quero a fortaleza daquilo que sei.
Quero minhas ideias. Quero outras ideias. Quero ideia nenhuma.

Quero o movimento e a contemplação.
Quero voz, alarido e silêncio!
Quero aconchego e vastidão!
Quero a tranquilidade das razões que não se alteram!
Quero o barulho da mudança, da incompletude e das outras verdades.

Quero meu canto e quero saborear o universo!
Quero sentidos, sons, pausas.
Quero o caminho. Quero os passos. Quero o caminhar!
Quero a canção da vida inteira!
Quero a alegria!
Quero à mim na inteireza do meu próprio amor.
Quero giros musicais!
Quero sonhos e realidades!

Quero ser várias!
Não me aprisiono em uma só!