quinta-feira, 12 de outubro de 2017

NEGRA MARIAMA

Sou devota!
Devotíssima!
Uma devoção daquelas bem católica popular láaaa do fundo das Minas Gerais!
De novena, procissão e rosário e terço...
Todos os anos desço na hora da motociata e fico lá no portão, segurando a imagem. E sempre a mesma emoção forte que me faz lágrimas sem mesmo que eu perceba...
A imagem, os agradecimentos, os pedidos. 
Várias imagens pela casa.
Pequenas, grandes, plástico, pedra sabão, gesso. 
São como fotografias de uma mulher que nem sei como classifica...
É mais que mãe!
É uma força grande que entusiasma, "Deus dentro"! 
Deus que é força de vida habitando todas as vidas!!!! 
Força que circula, que impulsiona, que mobiliza, que se faz em diversos jeitos que o povo enxerga!
E com ela é assim!
Amor!
Essa energia grande que me atravessa de um jeito único!
Nomeando minha fé!
Me entregando ao mistério...
Refazendo-me diante da grandeza do Sagrado...
Meu Sagrado que não mais encontra templo...
Meu Sagrado que é um tanto de encontros de acreditar.
Acreditar nas divindades de cada ser que me afeta
Acreditar num Reino de vida construída no dia a dia de cada passo da caminhada do povo de Deus.
Da Deusa.
Dos Deuses.
Das Deusas.
De Todos.
De Um.
Dela!
Não há nada que leve à Ela que não chegue no tempo.
No jeito.
No ritmo.
Mariama... Conceição.. Oxum... Aparecida!!!!
Aparecida Preta
No tempo de Preto
No tempo de dor.
Aparecida Preta
Da pele de preto
Da pele...
Da fé...
Negra Mariama.

Sou Devota.
Devotíssima!


terça-feira, 10 de outubro de 2017

Qual sabonete você usa????

Lembro bem do comercial que falava da marca de sabonete para todas as mulheres... Nele, várias modelos dançavam em meio à tecidos esvoaçantes e o lema do anúncio dizia que o tal sabonete era para todas as mulheres, porém, na tal dança não existiam mulheres negras...

Dessa vez a marca não só insistiu no tema da invisibilidade de corpos negros, como também associou esses corpos negros à um processo de branqueamento ilustrado pela associação da pele negra à sujeira.

O recente comercial não chegou a circular no Brasil, mas ainda assim nos “cansa a beleza. ” Isso cansa. Cansa esses corpos sem lugar e cansa o espírito de quem caminha nessa diáspora sempre tendo que anunciar ao mundo sua humanidade. Sim... Mulheres negras são gente! Mulheres negras sentem, pensam, consomem, trocam, simbolizam... E, nessas simbologias, aquilo que é atribuído a esses corpos sempre o são de modo a desmerece-los diante do padrão de humanidade estabelecido pelo branco.

Espanta à um grupo expressivo de pessoas que o tal comercial tenha sido aprovado.... Pensa-se nos envolvidos em todo o esquema de produção. Desde o fotógrafo até o editor, passando pelas duas modelos, uma negra, outra branca...

Importante dizer, que no caso em questão, a modelo negra disse não ter sido informada de que a edição das imagens teria o resultado que teve... Mas, independente disso, a verdade é que corpo negro se aprende no lugar do desmerecimento, aprende tanto que já nem o percebe, pois que esse é o único lugar que conhece, mesmo quando há a falsa sensação da mobilidade social... Move-se entre espaços sem que os lugares se alterem, sem que as estruturas se afetem.

Sim! O Racismo é superestrutura. Na medida em que envolve a cultura, o poder político, a economia, os ritos sociais essa superestrutura tem como sustentação a ideologia que compreende e determina que os diferentes corpos não devem circular de igual maneira pela sociedade. Tal circulação deve então ser demarcada por imaginários e símbolos que distribuam diferentes papéis e diferentes possibilidades de fruição da vida cotidiana.

(Usu)fruir a beleza presente na concepção de um comercial de cosmético não é o papel/lugar destinado à corpos de mulheres negras... O protagonismo na beleza não foi pensado para essas mulheres a não ser que essa beleza esteja associada a apelos sexuais ou ao exotismo. Mulheres negras são vistas como negras, quase nunca como mulheres.

E, voltando lá na superestrura sustentada pela ideologia e relacionando-a ao tanto de pessoas que estiveram diante da tal peça publicitária da marca de cosméticos, e não se incomodaram, em nada, com o texto dito através daquela imagem, tem me intrigado o modo como os brancos se eximem de sua responsabilidade diante de situações como essa.

Ah... O Branco... O frágil, o ofendido, o inocente branco... Nunca foi isso. Nunca é bem assim. Nunca é aquilo de fato o que se quis dizer. Nunca é aquilo que está acontecendo. Nunca é ele. Em situações como essa nunca são os indivíduos, e tão pouco se reconhecem como coletividade. E, nesse cenário, é impossível vislumbrar um enfrentamento coletivo ao racismo porque socialmente não existe coletividade entre brancos e pretos. Os pretos são vítimas do racismo e só.

Não há quem o sustente. Não há quem o opere. Não há quem o reproduza. Não há rostos. Não há nomes. Não há identidades. Há apenas a vivência de uma opressão que se engendra por sujeitos fantasmas que nunca estão conduzindo as realidades de subjugação, exclusão, desmerecimento, adoecimento e morte.

Lidamos com o racismo no Brasil como uma entidade que, concretamente, nem se sabe de onde surge. Porque ninguém é racista. Todo mundo é bacana. Todo mundo tem uma amiga preta. Todo mundo lida bem no meio dos pretos. Todo mundo gosta, aprecia a cultura dos pretos. O racista feioso não tem cara e não é ninguém. Há a consciência de sua existência. Mas, de fato, ninguém sabe quem ele é. Mais que isso, nenhum Branco, de maneira individual, é ele.

Desconsidera-se a ideologia que sustenta a superestrura na medida em que as ações individuais não são consideradas como operadoras de um sistema de opressão. As ações individuais de frequentar determinados espaços onde não há negros, de consumir produtos ou lugares que incentivam o racismo, de não circular por espaços “de preto”, de se associar afetivamente à indivíduos que têm práticas explicitas de racismo, não são vistos como racismo.

Nunca se questionar sobre a ausência de pretos nos espaços de poder já é praxe brasileira. E, junto dela, há também o descompromisso de não se questionar também sobre a ausência dos pretos nos espaços de poder de cada pessoa branca, nos espaços de afeto que ela constrói no cotidiano.

Onde estão, Branco, os pretos da sua vida? Quais são seus lugares de poder e de afeto? Quais são as partilhas que vocês têm? Como ele atravessa seus territórios brancos??? Qual sabonete você usa???

Interessa-me contribuir para que a discussão do racismo saia da superficialidade em que se encontra, quando consideramos a sociedade brasileira, para que tenhamos possibilidade de enfrenta-lo. Não tenho a pretensão, e muito menos o desejo, de ensinar a minha dor e a do meu povo. Não mesmo. Mas quer saber? Tô bem cansada de, nesse caminho do enfrentamento ao racismo, olhar pro lado e só ver cara preta, como se apenas nós fôssemos responsáveis por alterar esse estado de despersonalização da existência em que estamos submetidos desde que essa história começou.

Isso cansa.




quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Francisco e os Aos




Salve Francisco de Assis!!!
Proteja aos meus,
aos da minha vizinha, 
aos que estão na esquina,
aos que já foram,
aos que ainda vão chegar,
aos saudáveis, 
aos que não têm saúde,
aos grandes,
aos pequeninos,
aos grandalhões,
aos mininúsculos,
aos que têm pêlo,
aos que têm escamas,
aos que têm penas,
aos alegres,
aos ranzinzas,
aos endiabrados,
aos sossegados, 
aos orelhudos,
aos bigodudos, 
aos que não têm rabo,
aos muito amados, 
aos que não conhecem o amor,
aos acolhidos,
aos perdidos, 
Proteja aos meus que estão aqui,
Proteja aos meus que estão pelo mundo, 
TODOS ELES!!!
Salve Francisco de Assis!!!!
Salve a delicadeza
Salve a doçura 
Salve a radicalidade dos ideias
Salve a Fé!
Salve a coragem de deixar-se a si
para ser com todos!
Salve a vida!
Salve o amor pela vida,
Salve todas as vidas dessa vida...
Salve Francisco de Assis!!!!!

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Pintos e Xoxotas: apenas corpos sejam



O problema é o pinto?

Balangandante pinto. Intrépido pinto.
Protejam o pinto.Escondam o pinto.
Não falem do pinto.
Sobretudo, não mostrem o pinto.

Ser mostrado é coisa de xoxota
Varia em ser objeto.
Toquem-na. Exponham-na.Falem dela. Xinguem-na. Ponham nela maus odores.
Disponham das xoxotas e não deixem que os seres de corpos xoxotas decidam nada! Não deixem que os corpos xoxotas toquem as xoxotas. Sintam as xoxotas. Embriaguem-se xoxotas. Não pode! Não deixa! Tira a mão daí!
Calem as xoxotas. Tirem dela seu prazer. Enfeiem-na.

E, sobretudo, escondam o pinto. Ameaçador pinto.
Cubram-no e evitem problemas!
Evoquem-no. Idolatrem-no.Cocem-no.

Ó, o Pinto!

Crianças! Cuidado com o pinto!
Tomem-se de peitos, bundas, xoxotas,
Pernas, braços, abraços, carícias, encontros,
Mercados, consumos, pincéis, saltos, armas,
Assaltos, violações, desproteções, desamores...
Mas não saibam do pinto.

Ó, o Pinto!

Tornem-no um mistério! Discursem-no!
Mantenham o poder do pinto!
Pinto dominador. Pinto opressor. Pinto subjugador. Pinto hierarquia
Pinto feitiche. Pinto abusivo. Pinto explorador

Ó! O pinto!

Rompam-no. Quebrem seus escondidos. Anunciem seus não ditos.
Mostrem-no! Liberem-no! Dessacralizem-no! Simplifiquem-no!



Empintecer a xoxota? Ou Xoxotizar o pinto?

Corporaliza-los! Irmana-los! Transcende-los!

Libertem-se vaginas
Libertem-se pênis
Apenas corpos sejam!

domingo, 24 de setembro de 2017

Mucama e Sinhá

Mucama e Sinhá

Cresceram juntas. Mucama e Sinhá.
Preta e branca.
Brincavam as mesmas brincadeiras.
Ensinavam-se e aprendiam-se.
Uma à outra.
Crianças, circulavam entre as fronteiras do cativeiro e da liberdade.
De mãos dadas. Uma trazia a outra pro seu mundo.
Escondidas, descobriam os códigos de cada espaço.
A senzala visitada longe do olho do feitor.
Se vista, “saia daí, Sinhá!”
O quarto de princesa onde a Mucama podia sentar na cama.
Se vista, “saia daí, Negrinha.”
Os cantos da casa grande, os porões do sofrimento, os dias de encontro e amizade.
Tudo foi colorindo os afetos de Mucama e Sinhá.
No sopro do tempo, os dias trouxeram aos corpos meninas as formas mulher.
Mulher Preta. Mulher Branca.
Afetos de códigos aprendidos.
Novos corpos que não cabem mais no esconderijo dos mundos opostos.
Sinhá e Mucama dividem os dias e se afastam nos símbolos.
A casa grande tem  espaço livre pra Mucama. A cozinha.
O trânsito, a fruição. As fronteiras
A senzala não põe os olhos em Sinhá
Naqueles corpos há perigo. O código.
Sinhá ama Mucama
E quando senta na mesa do jantar lembra dela.
Mucama não come ali. Aquela comida é de Sinhá.
Mucama não senta na mesa de branco.
Mucama come lá no fundo. Em silêncio.
Alegria de Mucama não agrada branco.
Os brancos de Sinhá riem no mundo que é só deles.
Sinhá queria Mucama por perto, e sonha vê-la no meio da prataria.
Mundos se encontrando, afetos se realizando...
Mas prataria pra Mucama é só pra limpar.
“Bem limpinha, negrinha”
Vê sua cara no convexo da colher.
Caras pretas não avançam nesses muros...
Os afetos não cruzam as fronteiras do que tem pra Mucama e do que existe pra Sinhá.
Mucama não entra no baile.
Sinhá e Mucama dançam juntas nos sorrisos confidentes.
Mas o salão não pode ver Mucama dançando.
Então Sinhá dança triste.
Depois menos triste.
Depois quase alegre.
E alegre.
O aprendizado.
Junto com Mucama é  só onde não tem o mundo de Sinhá.
O afeto existe.


Ele não é maior que o mundo...

sábado, 23 de setembro de 2017

Carta ao Branco de branco corpo

Olá Branco,

Dia desses, na costumeira viagem pelas redes sociais, fui ter com três situações postadas que, de seus desdobramentos um tanto de pensamentos e conexões foram revelando a matreirice branca brasileira diante da dureza do racismo que sofro no cotidiano.

        Matreirice, Branco, é uma palavra que, ao menos a mim, remete a um modo dançante de fruir a vida. Dança mesmo. Dessa que tem pernas, braços, melodia, ritmo, corpos se encontrando... Daí, Branco, que matreirice talvez não seja a melhor palavra para nomear isso que estou atribuindo à uma espécie de pensamento branco brasileiro. Um que se esquiva, que se faz de desentendido, que tira o corpo fora. Corpo branco. O seu corpo branco.

Estava lá uma foto de Rafael Braga, condenado há 11 anos de prisão por portar 9,3 g de cocaína e 0,6 gramas de maconha, saindo do encarceramento pelo “benefício” da prisão domiciliar. Essa, concedida para que Rafael possa se tratar de uma tuberculose adquirida no período de encarceramento. Aí, que a foto do momento mostrava Rafael cercado de pessoas brancas como você. Todas sorridentes. Numa dessas postagens comentei o curioso das relações raciais no Brasil: os brancos que encarceram eram, ali na foto, também os brancos festejando a conquista de Rafael...

Mais adiante, Branco, na mesma rede, tava lá, um vídeo onde o cantor Carlinhos Brown, numa apresentação num evento de rock, em 2001, era atacado por um saraivada de copinhos de plástico atirados pelo público presente. Ali, Branco, ficou meu comentário: os racistas estão em toda parte.

Por fim, encontrei a imagem da cerveja preta do Moçambique fazendo alusão ao corpo de mulheres negras. O corpo do sexo bom, da volúpia, do prazer... Escrevi lá: não é fácil ser mulher negra em diáspora.

Aí, Branco, quase que imediatamente, nas três postagens, os de corpos brancos apareceram para falar de meu equívoco na interpretação das imagens! “Os brancos aparecem onde os negros não estão”, “música não tem cor”, “os copinhos são atirados no músico porque ele não é roqueiro”, “Lobão é branco e levou copinho na cara” “mas a loura também é objetificada nas propagandas de cerveja”... Esses foram os argumentos mais recorrentes nos comentários que se contrapuseram às minhas observações. Não! Não são observações, Branco. São experiências.

Experiências inscritas no meu corpo, que no processo da diáspora é vivenciado como um enunciado constante. Sem cessar. Sem intervalos. Sem pausas. Meu corpo carrega inscrições que o fazem ser um discurso sobre meu lugar no mundo. Meu não lugar nos vários lugares. Meus encontros. Aquilo que me é possível.

Um corpo negro, Branco, nunca é só um corpo negro. Ele é o atravessamento das experiências que o racismo promove. É atravessamento de exclusões e silenciamentos. As mesmas que seguem se refazendo dia a dia até mesmo quando conseguimos nos insurgir contra elas.

Há sempre um corpo branco como o seu dizendo que não é bem assim. Há sempre um corpo branco como o seu desconsiderando que como em toda trama, os fios estão entrelaçados por experiências que demarcam as presenças e ausências de uma história milenar.

Expanda-se, Branco, e ajeite seu pensamento para pensar a macro estrutura da sociedade racista em que vivemos se imiscuindo na micropolítica do cotidiano. Estamos falando de ideologia, e não do que você faz pontualmente no seu cotidiano para ser um Branco bacana. Assuma sua pele diante da falta de opção que eu tenho quando se trata de assumir a minha pele.

Não Branco, você não deveria ter o direito de se furtar disso. As inscrições grafadas em minha pele, em meu cabelo, em meu nariz, em minha voz foram feitas por você, por seu povo e por sua história. Você escreveu isso, mas quer seguir na vida como se a letra não fosse sua. Ela é. Ela determina espaços. Ela circunscreve experiências. Ela sufoca. Oprime. Silencia. Adoece. Mata.

Não Branco, eu sei que você queria que fosse assim do jeito que você pensa. Mas não é. Seu corpo não lhe permite viver a experiência do não racismo. O racismo parte de ti. Ele está em você e no nosso encontro ele chega até a mim. Joga-me as letras que compõem o texto sobre minha história nesse caminho. Você não me escreve. Você não me define, mas minhas experiências de sofrimento, medo, abandono e morte estão marcadas no seu corpo, porque é dele que elas nascem. Não fuja disso. Não negue isso. Perca o medo do racismo que você constrói, alimenta e mantem. Desconforte-se e teça seus fios na trama que estamos aqui a compartilhar.

Compartilhe-se.

Não ignore seu corpo. Seu corpo diante do meu é sempre seu corpo branco diante do meu corpo negro. Você tem seus desejos, suas escolhas, suas bacanices, suas construções positivas, suas superações diante do racismo. Que bom para o mundo que você tenha! Mas não se exima de pensar-se nesse corpo quando a história não me permite pensar a mim fora do meu corpo. Eu não estou sozinha nessa teia. Você está aqui comigo ainda que eu não queira, ainda que você não queira.

Nós estamos.

        E não estamos em lugares iguais. Por onde eu for meu corpo me anuncia, e com você não deve ser  diferente, meu caro. Ainda que suas tessituras estejam coloridas pelo amor, pelo afeto, pelo cuidado constituído nas relações que criamos juntos, elas não estão livres de todas as marcas que sua pele representa diante da minha.

Não ignore isso.

Não ignore a violência da qual tu é vítima. Não vire a cara para a violência que você promove. E, nas duas, não desconsidere seu corpo branco. Seu corpo branco tem histórias para além do que eu e você temos aqui hoje. Meu corpo não fica fora dessa relação. O seu também não deve ficar.

Desestabilize-se.

Você não é SÓ o seu corpo branco. Mas o seu corpo branco diz muito sobre as histórias que você pode contar.

Então, Branco, funciona assim: O copinho de plástico que chega na cara preta do Carlinhos Brown, não chega na cara branca do Lobão com a mesma força. Falo de força histórica. O peso de uma agressão numa cara preta, nunca é o mesmo peso de uma agressão numa cara branca. O Rafael Braga cercado de gente branca sorridente, ao ser transferido para prisão domiciliar, significa o desenho da tensão confusa que atravessa nossas relações nesse país. O corpo que ora celebra sua conquista é o corpo que o faz encarcerado, que o faz turbeculoso, e que o faz sorrir sem dentes na boca. A loura objetificada na garrafa de cerveja não deixa de ser objetificada, mas as saídas, as alternativas e as resistências diante dessa objetificação a que brancas e negras estamos submetidas não são forjadas pelas mesmas experiências, e nem construídas com as mesmas possibilidades.

         Não são.

O seu corpo branco na gira não é o meu corpo negro na gira. O seu corpo branco no funk não é o meu corpo negro no funk. O seu corpo branco no samba não é o meu corpo branco no samba. O seu corpo branco na violência não é o meu corpo negro na violência.

Não é.

O seu corpo branco é o seu corpo branco e ele não é só um detalhe diante do meu corpo negro. Pare de se comportar como se sua pele não fizesse diferença na sua forma de estar no mundo. Seja ela qual forma for. Faz diferença.

Corporalize-se!

A experiência está posta se teu ouvido tiver consciência histórica para poder escutar. Minha voz não mais se cala.

Nunca mais.

Podemos cantar juntos nos passos da minha diáspora. Mas ela é minha. O tambor é meu. O grito é meu. O brado é meu. A composição que podemos fazer juntos não mistura nossos corpos diante de nossas experiências inteiramente diversas. Você é Branco. Eu sou negra.


Podemos seguir em infinitos caminhos. Você sendo Branco. Eu sendo negra. E ainda assim seguir. Sem silenciamentos, com lugares postos, tramas reveladas e possibilidades construídas dentro disso. Essa é a nossa realidade, e ela só se torna impeditiva se você, Branco, permanece fingindo que nossas peles não interferem na nossa vida e em tudo o que vivemos dela.

Ocupando lugares diferentes nós nos interferimos.

E é isso.


quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Vidaemortevidaemorteévidaevidaémorteevida...

Junto as coisas espalhadas na mesa e jogo tudo pra dentro da bolsa. Tô atrasada! Do outro lado do vidro, Tammy consulta o celular e anuncia que não vai dar tempo... Jô passa correndo pela porta já respondendo à Silvana, que tá fazendo as contas de quantas de nós cabem no carro... Carla desce na frente pra se adiantar, e a Jaqueline com a Valerinha estão na outra sala entoando a Oração de São Francisco... Abro a bolsa, reviro toda a bagunça que tinha despejado lá dentro. Encontro o batom... Me ajeito na pouca luz da sala de trabalho. Alcanço a bolsinha de maquiagem, tiro o espelho pequeno e, de frente pra minha imagem, me dou conta, como que num relance de lucidez, que eu e aquelas mulheres nos movimentamos, de maneira apressada, para chegar à tempo numa missa de sétimo dia...

Sete dias... Um tanto de horas que ainda não são suficientes para compreender a morte repentina de uma pessoa, que em diferentes níveis, nos era querida e que há tão pouco tempo estava ali com a gente. O Zé se foi...

Deslizo o batom pela boca, e um jogo de palavras invade o pensamento... Efêmero... Fugaz... Passageiro... Transitório... Temporário... Morte. Junto das palavras e das imagens que carregam, uns fragmentos de cenas desconexas. Nomes, datas, pedaços de sonhos, lembranças de momentos, as fotos que enfeitam minha mesa de trabalho, o batom borrado, o espelho...Eu.

Eu diante do mistério, da incompreensão sobre algo que é, no fim das contas, a única realidade da qual ninguém pode fugir e, ainda assim, tão pouco confortável... Desconforto com uma condição tão pertencente à vida. Incompreensão inteirando-se com a experiência de impedimento, de ruptura, de separação... Eu confrontando-me com a fé que me constitui, a crença na sequência da vida que não se ajeita com o mal estar diante da morte apresentada como finitude... A morte. Essa proscrita.

Não falamos dela. Não a recebemos como parte do todo que é viver. Não dividimos, umas com as outras, o medo diante dela. Evitamos. Protelamos. Adiamos. E, de repente, ela chega. E, de novo, estamos lá, no mesmo ciclo de dor e sofrimento. E eu cá, abraçando-me à minha fé quando a morte mostra sua cara fria...

Coitada. A cara fria da morte é só mesmo o reflexo desse modo besta como  lidamos com a vida, sem alcançar a dimensão do que a vida é. Nós. As filhas de um aprendizado consumista, individualista e apegado à juventude e à infalibilidade do corpo. Esse, que longe da corporeidade libertadora é circunscrito numa cartilha de uso e consumo. Nós. As filhas de relações nomeadas nessa mesma cartilha. Nomenclaturas que prescrevem afetos independente da força ou da opressão que são construídas em cada uma dessas relações... Ah... Nós... empobrecidas pelo que o capitalismo ensina. Tanta coisa que não presta pra nada! Nós... Passando por aqui, e jogando ao tempo a oportunidade de fazer da morte uma experiência de vida.

Viver a dor da perda como parte essencial para a celebração da vida. Deixar os dias se ajeitarem na vivência do luto sem esconder-se dele. Entregar à esse luto um sentimento de gratidão, que nos alimenta na compreensão dos rituais de passagem como momentos intensamente grávidos de fins e começos. Falar da morte para falar da vida, da possibilidade de viver celebrando cada passo, cada conquista. Celebrando também as perdas e as dores que desenham, pelos ciclos do tempo, os traços da mulher que sou! Sendo no ir e vir da vida...

Acarinho a saudade, exponho fotos, converso e costuro atitudes grandemente recheadas de significado e resistência. As ausências que me colorem ocupam lugares únicos no meio das tantas lembranças que não procuro evitar. Nas lacunas deixadas por um corpo que deixa de existir mora, tranquila, a potência de vida que animava o encontro que pude experimentar com a pessoa que partiu. Dessa potência, uma experiência boa de olhar a vida e as pessoas como presentes que não são eternos. Há potência de vida em perceber a vida como transitoriedade e transcendentalidade!

Não existe uma realidade que nos possibilite apreender eternamente as pessoas, suas experiências e seus corpos... Isso me impulsiona a pensar cada uma dessas pessoas como depositária de cuidados dentro disso que é transitório. Cuidado como um ato revolucionário, concreto e possível! Somente assumindo a morte como parte da vida é que se tem a dimensão da grandiosidade do cuidado! Somente confrontando a cara da morte é que essa transitoriedade pode ser absorvida. E, percebendo a morte como potência de vida, é que a vida pode tornar-se imensamente significativa, pois que é uma experiência cheia de incertezas, onde o único lugar definido é o território de morrer, trazendo nele sua misteriosa potência de gerar vida!



Não consigo! Quero sentir assim. Não consigo... Limpo os cantos da boca borrada pelo batom que deslizei sob  na pouca luz da sala de trabalho. Junto tudo e, de novo, jogo dentro da bolsa sem ajeitar nada... A garganta aperta até virar uma lágrima... Me integro na cena das outras mulheres se ajeitando pra missa... E vou. Vou seguindo na vida que não para... Nos dias que trazem outras histórias, outras lágrimas e outros risos. Permito a tristeza, e me embrenho com a incompletude diante da única certeza: é preciso viver para que a vida jamais termine!


Valeu, Zé!

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Família Negra! Arroz misturado...


“Você vai levar o arroz pra misturar lá?” (pausa) “Não, nêga! Já põe cozido mesmo, e lá só mistura”(pausa) “É uai, só mistura lá”(pausa) “ Estraga nada! Foi assim da outra vez! Cê tá caduca!?” (pausa) (risada!!!!) “Tem isopor aqui, vou pedir o Dito pra levar aí pra você”...

Ouvi esses pedaços de conversa num sábado, há muitos anos... Final de tarde, véspera da comemoração dos 50 anos de meu pai e dos 90 e tantos de minha vó. Tinha um ônibus alugado pra levar todo mundo num sítio onde teria quadrilha, bandeirinhas, piscina, churrasco, karaokê, futebol, e um tanto de outras coisas pra família toda. Poucas posses e muita criatividade!

Carminha e Cirene conversavam ao telefone acertando os últimos detalhes do que seria servido no almoço. O telefone foi tocando durante toda a tarde, e do lado de cá da linha, ora minha mãe gargalhava, ora eu via que elas não estavam se entendendo muito sobre a logística do almoço... E seguiram assim quase até o dia seguinte... E lá na festa, das muitas belas imagens que seguem vivas em minha memória, uma das mais fortes é a de Cirene debruçada em cima do isopor misturando o arroz: “ô Gorda! Joga mais frango aqui que é pra ficar farto”

Aquela festa enorme, como tantas outras enormes festas, é uma metáfora do que foi (e segue sendo), por longos e longos anos, a minha família! Um monte de gente preta, alegre, confusa, ás vezes desordenada, e sempre solidária! Sob o braço da Maria Joana, e a firmeza da Carminha, os afetos iam se fazendo e refazendo-se nas experiências de encontros repletos das mais variadas vivências de diálogo, entrega, acolhida e celebração! Acolhida aprendida nas interações diante de alegrias, tragédias, conquistas e perdas

Tudo vivido junto, misturado, falado (e falado bem alto), conversado! No seu tempo, do seu jeito, no seu espaço... Sem delimitações prévias! Acolhida e encontro. No meio dos de sangue, em meio à tantos outros que se juntaram. Cirene, e outros uns, se achegaram, e ela, além do arroz, misturava-se nas histórias, nos conflitos, nas tragédias que experimentamos ao longo da vida. Se o barranco cai lá na casa do Tião, todo mundo se abriga lá na casa da vó... Se a Cilinha tem que sair pra trabalhar, leva as crianças lá pra Carminha olhar... Se tem o sonho de levantar a casa própria, junta com a Cirene, e entra as duas pro mutirão, pra ir por aí, junto de outras pretas e pretos, ajudando a levantar parede e encher laje... Se é a primeira comunhão da Giane chama lá a outra Carminha pra fazer o bolo que a menina gosta...

 Juntos pra chorar. Juntos pra vibrar! E essas tantas imagens, tão pulsantes em minhas memórias, desenham uma experiência bem comum à tantas famílias negras em diáspora! A alegria do aconchego diante da porta sempre aberta para acolher! Do mesmo modo que a ancestralidade de diversas regiões da África vivenciou suas interações afetivas e sua vida na coletividade. No meio da roda... No diálogo com a vida! Sem temer o que a vida tem... Uma tradição oponente ao ideal de família (branca) burguesa, a família preta dialogando com a vida, não dá valor ao silêncio envergonhado diante das dificuldades de um dos seus. Os tantos seus...

A família preta no meio da roda tem apreço pela partilha, pela acolhida, pela palavra... Todo mundo entra! Todo mundo fala!Todo mundo escuta! Se tem pra um, tem pros outros todos! A família preta em diáspora traz, nas marcas de seus passos, a experiência das portas sem trancas, do diálogo como rotina, do fazimento de laços de afeto que ultrapassam, em muito, as delimitações, tão brancamente capitalistas, de família, de afeto, de encontro, de entrega, de acolhimento...

Não é sem motivo, que as formas de tratamento na vivência das religiões, que se constituíram na diáspora, são mãe, pai, irmã,  irmão... Uma experiência de uma família que não precisa de sangue para se firmar diante do Sagrado da vida. Uma família onde a ancestralidade é respeitada sem que filhas e filhos sejam apenas daquele lugar, daquela pessoa, daquele núcleo... O miolo tem todo tipo de farelo!  Filhos e Filhas somos todas e todos... Unidos pela potência dessa forma de vida, atravessados pela experiência ímpar de ser mulher e homem na diáspora negra. E na gira cabe todo mundo, todo mundo entra, todo mundo se encontra no cuidado, no acolhimento, na dança!

E aí, nessa experiência de ancestralidade talvez resida uma dificuldade que vou levando pela vida. Minha limitação em compreender (e vivenciar...) as relações circunscritas pelos lugares que os nomes criam... A mãe, o pai, o irmão, a amiga, o namorado, a esposa, a filha, o vizinho... O ocidente branco ensinou que para cada nome tem um lugar, e para cada lugar uma forma de afeto delimitada pelo modo como os sentimentos, os desejos, as entregas devem ser vivenciados e celebrados. A invenção branca e ocidental chamada capitalismo, estabelece até dias e datas para que esses lugares e afetos sejam exaltados, reverenciados, presenteados, e assim, cada vez mais circunscritos a partir de um manual do que é previsto para cada lugar, cada afeto e cada vivência...

Nesse modelo não cabem afetos de portas abertas, de diálogo com a vida, da roda de encontro. Para cada afeto um lugar, para cada lugar um jeito de sentir, e para tudo isso uma limitação sem tamanho diante da grandeza do que é a vida, do que são as experiências, do que é o encontro... Esse encontro que pode, sim, ser experimentado nos laços que o cotidiano cria, sem a necessidade de diferenciar as gostanças, as sabenças, as peles em contato... Diferença nos desejos, porque desejo vai caçando sua volta no andar da nossa cultura... E anda desejo, anda experiência, anda falares, dizeres, sentires... Andam pro lado que o sentimento manda andar, porque tem porta aberta pra acolher as gentes e seus muitos encontros de tão infinitos significados! Encontros de infindáveis resistências que a gente preta aprende todo dia, o dia todo nessa vida...

Encontro de gente... Gente!

Caminhando por aí... Se esbarrando na vida... Indo... Vindo... Permanecendo... Fazendo... E encontrando, encontrando e encontrando...

         Encontrando na vida e misturando o arroz pra festa!!!!!


terça-feira, 18 de julho de 2017

Outroser


O outro.
O outro.
O outro.
O outro em ti.
O outro de ti.
Você que é ele, porque quer outro ser.
O que de ti tem do outro.
O que de ti que é do outro.
O outro
O outro 
O outro
O que só é se o outro for.
O outro pra fazer existir
O outro pra legitimar
O outro pra confirmar 
O outro pra conferir
O outro pra dar nome
O outro pra dar força
O outro pra dar coragem
O outro pra trazer o sim
O outro pra dizer o não
O outro que cresce
O outro que define
O outro
O outro 
O outro
Tanto outro que já nem mais é além do que é
Só o outro.
O outro da paz
O outro da guerra
O outro do conflito
O outro que alimenta o que não consegue ser.
O outro pra dar espaço
O outro pra abrir a vida
O outro que mostra sem deixar ver
O outro que tem vista sem ter horizonte
O outro dentro dos braços
O outro amarrando as pernas
O outro
O outro
O outro.
Mais outro.
Menos ser
Mais outro.
Menos é
Mais outro, e outro, e outro...
Outrar-se pra ser- se
Fazer-se
Querer-se
ou
Outrar-se para...
(...)
Liberta-te!
Livra-se!
Libertinei-vos!!!

Mais de ti para ter no outro...
De ti no outro.
Outroser
Você Ser.
Ser... Ser ... Ser...
Ser para Outroser. 
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