terça-feira, 28 de abril de 2020

Os Urubus e a nova lógica da vida


Tenho na cabeça a imagem dos urubus em volta da presa... Nem sei se chama presa nesse caso... Mas, a imagem da minha cabeça é a dos urubus sobrevoando a caça, quando ela ainda nem virou carniça.... Essa imagem não me sai da cabeça quando penso nesse momento que o mundo vive e no modo, costumeiramente irresponsável e nojento, como algumas autoridades lidam com as pessoas... Sem cuidado e sem apreço.


O mundo foi parado por uma pandemia que já matou algumas milhares de pessoas e, nem assim, a gente consegue perceber que há clamores, para além de nosso entendimento, para que outros modos de vida sejam construídos... A sanha do urubu é tão grande que ele ás vezes nem percebe que a cobra tá ali na tocaia para fazer dele uma presa fácil. Os humanos que se comportam como urubus não têm a mesma visão ampla que esses animais possuem, mas, o envolvimento com a carniça é o mesmo.


É uma lógica tão esquisita essa que não distingue em sua pele o próprio risco que corre... Em que pese o FATO de que os pobres compõem o maior numero de óbitos, a doença está aí para todo mundo. E, não se trata apenas de sufocamento do sistema de saúde, embora essa seja uma preocupação extremamente pertinente, mas de uma enfermidade que pode fazer as pessoas morrerem, mesmo quando têm possibilidade de tratamento digno. Tem um recado nisso aí, porque o vírus não “faz” NENHUM tipo de distinção, não há escapatórias a não ser aquelas que compreendem a importância de uma ação coletiva, de uma ação de cuidado de uns com as outras...


Mas não há cuidado que se construa quando a cabeça funciona na mesma sintonia do urubu atrás da carniça, e o horizonte do olhar só alcança o raio do umbigo. O raio do umbigo é tão curto e limitado que é incapaz de compreender as dimensões de interação que existem numa situação tão triste e complicada como essa.


A decisão diante do para onde se posicionar não é simples... Ninguém está dizendo que é... Viver sem dinheiro, com as dívidas batendo na porta não é realidade que alguém sonha, embora um grande número de pessoas já viva assim constantemente nesse país, sem que boa parte dos cidadãos e cidadãs, que encabeçam a movimentação da “vida normal”, se preocupe com elas. Não se trata de dar ou tirar mérito de quem está preocupado com o que vai ser da vida quando tudo isso acabar... E é exatamente aí que o olho curto agarrado no umbigo impede de ir além e perceber com o que de fato estamos lidando.


Não vai acabar. Tão cedo não acaba porque as perspectivas de uma vacina não apontam menos de um ano para sua socialização. Não vamos voltar a viver no mundo que vivíamos em dezembro do ano passado. Acabou. Rompeu. Desconstruiu. E não precisa, como eu, acreditar no que espiritualmente isso quer nos dizer, porque mesmo na visão e percepção materialista não é difícil olhar para o que está acontecendo no mundo e conseguir conceber que estamos diante de algo que refaz todas as estruturas sob as quais estivemos assentadas até hoje.


Repensar deveria ser a oportunidade a agarrarmos com unhas e dentes. Repensar. Não fazer do mesmo jeito. Porque, nesse caso, o fazer do mesmo jeito quer dizer um atentado evidente contra o direito à vida, o direito à respirar... Fazer do mesmo jeito não só prova a cognição limitada, como também escancara o pouco apreço à maior potência que os seres podem experimentar que é a vida...


A vida perde valor diante de um único modo de gerir e prover a sobrevivência... Perde valor quando a coletividade não importa tanto quanto manter ativo os modos individuais como cada um provém suas relações e seu sustento... Perde valor a vida diante da incapacidade de nos abrirmos à outras possibilidades diante do impossível que se apresenta diante de nós quando, na verdade, o impossível, numa situação como essa, só existe quando se desiste do que nos parece não ser possível... É nessa crença que as impossibilidades nascem.


E nascem ancoradas numa profunda identificação com a morte como sistema de vida. Sistema onde não cabe todo mundo, onde o que se produz sob o sol não é direito de todo mundo de igual modo. Essa é, na verdade, a lógica de quem, nesse momento, age como urubu se importando apenas com o que vai comer nas próximas horas... Mesmo quando a ameaça da fome não é uma realidade como o é para tantas famílias, há tanto tempo.


Diante do mundo, e o Brasil não está fora disso, há um sem número de situações a partir das quais podemos refletir e ir gestando outros viveres... Viveres não só na economia, mas também na economia! Viveres nas artes, nas relações, no lazer... No cuidado! Proporcionar relações econômicas que se baseiem no cuidado com a outra, pensar fazeres artísticos que nos movimentem  de outros modos já que a circulação, por um bom tempo, não será a mesma. Buscar interações sociais que nos ensinem outros encontros, outros dizeres, outros estares! Porque o mundo é outro, como então seguiremos sendo as mesmas pessoas?


Há sim uma dose grande de otimismo quando escrevo isso. Essa sou eu. Mas na verdade falo aqui de Lógica. Outra Lógica. Uma nova Lógica que PRECISA nascer, porque outros parâmetros de verdade precisam ser experimentados para que a vida continue a acontecer!


Precisa ser assim. Antes que toda a gente se transforme em carniça. Até mesmo os urubus...




segunda-feira, 21 de outubro de 2019

A Maju, a Jô, eu, a Gilmara e os penicos




Quando se separou do marido, há anos atrás, o pai da Jô disse à ela, que ela deveria tomar cuidado, porque mulher negra, e ainda separada, era penico que qualquer cachorro mija...


Me vi com um penico na cabeça. Ali, bem posicionado recebendo todo tipo de merda e excremento produzido pelas práticas racistas. Cada vez mais cotidianas e cada vez mais se esmerando em serem sutis e enormemente violentas.


O velho homem preto dizia à Jô sobre a sua experiência. Talvez sobre a convivência com mãe, avós, tias, primas, irmãs ... Mulheres negras não têm garantida a sua dignidade. Não importa o tempo histórico. O preto velho não disse, porque talvez não soubesse, mas o estado civil não traz diferenciações para a experiência de deslegitimação que o racismo ensina. À todas é destinado o mesmo penico de merda assentado na cabeça. Na existência. Não há homem ou situação conjugal nessa vida que interrompa, suspenda ou amenize a experiência de ser mulher negra. Todas nós carregamos o tal penico. Por “todo lado. O tempo todo.”


Dias atrás vi o penico na cabeça da Maju Coutinho. Jornalista, âncora de um importante telejornal, que teve contabilizado seus erros durante a exibição do programa. Isso porque a régua do racismo é cruel, dura, apertada e implacável. Não tem frações ou números mistos. Só números inteiros que por vezes, a maioria das vezes, escapam ao olhar e ao sentimento de quem não está naquele corpo. Ser mulher negra, só mulher negra entende.


O racismo e a branquitude (são diferentes?) entendem que uma mulher preta num espaço de poder ou de visibilidade tem que ser medida, avaliada, escrutinada, questionada, mensurada para, enfim, ser desmerecida e deslegitimada. A deslegitimação racista ocorre para que nenhuma de nós, pretas, esqueçamos qual é, para eles, o nosso lugar. O de origem, o verdadeiro, aquele de onde não deveríamos ter saído. Aquele da colônia, da servidão, da obediência. Desejam, sobretudo, cordialidade, silêncio e mansidão. Para o racismo a bancada de um telejornal não é o lugar da Maju...


E mal descansei os olhos e a alma, já avistei o penico de novo. Dessa vez, na cabeça da Gilmara, que no exercício de sua atividade profissional foi questionada por uma aluna sobre determinada conduta na correção de uma prova. Questionar não é problema. Nunca deve ser! Nesse caso, o penico recebeu excrementos do racismo, quando a aluna comparou Gilmara à um professor. Homem e branco. Ele sim, segundo essa pessoa, legitimado em seu lugar de poder como professor. Ela? Ela só mais uma preta no lugar errado, que para ser lembrada desse “erro”, que a possibilidade do acesso proporciona, precisa ser deslegitimada de seu lugar de poder e conhecimento. “Mas foi o professor fulano quem disse”. Se ele disse é para estar certo. Se um homem branco disse o assunto está encerrado. Ele sabe. Ele pensa. Ele é o dono do conhecimento. É assim que o racismo ensina. Uma mulher preta é só uma intrusa, mal quista, que não deve abrir a boca, me dirá então, demonstrar algum tipo de conhecimento e de apropriação desse conhecimento. “Cala a boca, negra”, é o que diriam, se pudessem.


Talvez se dissessem o “jogo” seria mais justo, porque além de não ter esse monte de aborrecimentos, não teríamos também a pecha de loucas que vêm coisas onde não tem. Num episódio da série Scandal, de Shonda Rhimes, cuja protagonista, Olívia Pope, é uma mulher preta, tal como Shonda, um dos personagens responde à uma entrevista coletiva. Nela, uma jornalista faz uma insinuação sobre a ausência de Olívia naquele momento, fazendo uma referência ao modo como a personagem sempre tem algo a dizer sobre qualquer coisa. Enfurecido, o personagem que responde às perguntas da coletiva, fala sobre a “síndrome do cachorro louco”, e a descreve apontando o jeito como os brancos lançam determinadas afirmações sobre as pessoas/corpos negras como se fossem afirmativas inocentes, e que só são facilmente identificadas por quem é a vítima do ato racista, que passa a ser, invariavelmente, identificada como louca. Afinal, ninguém mais percebe o que DE FATO está acontecendo ali. Esse é um estratagema bastante sofisticado e muito utilizado na atualidade.


O lugar da louca é habitual às mulheres pretas. Também ocupamos, na fala racista, o lugar da barraqueira, da difícil, da rancorosa, da ressentida, da arrogante. Todo lugar é criado para que o ocupemos e deixemos livres os espaços de poder onde não deve caber nossos corpos. Se corpos dóceis e obedientes, vá lá! Mas as pretas que ousam reivindicarem-se como tal e/ou que questionam determinadas posturas em relação à suas existências... Não pode!!! O racismo que alimenta a branquitude (e vice versa?) logo grita que é preciso deslegitimar. Silenciar. Tirar da cena.


E as formas de deslegitimação vão se alternando entre as velhas nossas conhecidas e outras que vão trocando as roupagens para dificultar sua identificação, e confundir quem é cotidianamente vítima do racismo. Dia desses, uma pessoa muito querida, no meio de uma conversa me disse que ali, naquele espaço onde estávamos, as pessoas tinham medo de falar comigo...


 Cri... Cri... Cri...


Fiquei eu cá pensando sobre o medo branco... Célia Maria de Azeredo o identificou em seu clássico “Onda negra, medo branco”, onde fala sobre o negro no imaginário da elite brasileira do século XIX. E não ficou lá. Tá aqui. Vivo e ávido o tal do medo branco.


Que coisa curiosa, não é mesmo? Não tenho interesse NENHUM, de à essas alturas da partida ficar didatizando e pedagogizando branco, sem que me paguem pra isso. Chega! E chega até para aqueles por quem tenho afeto.  Não dá mais para ficar parada nesse ponto quando há inúmeras possibilidades de enfrentar, de fato, de maneira mais comprometida, o racismo e seus estratagemas. Já passou da hora de branco aprender, por conta própria, que É SIM, responsável pela manutenção e persistência do racismo. Ainda mais responsável pelo modo como esse racismo parece cada vez mais fortalecido. Se nós nos temos com o legado da senzala, se ajeitem, brancos, com a herança da casa grande! E APRENDA: Do mesmo modo que você diz sobre meu corpo, o seu corpo TAMBÉM é um discurso. Vire-se com isso! Suas ações são, sim, TODAS demarcadas por sua pele branca! E isso é problema SEU.


 Mas, o fato é que, naquela situação, fiquei pensando neles, e no medo que disseram que eles têm de mim naquele lugar... Será que pensam que ao se aproximarem eu vou morder a cara deles? Pular em seus pescoços? Roubar-lhes alguma coisa? Cuspir-lhes as caras? Unhar-lhes o corpo? Ou será que temem algum feitiço que eu possa disparar à eles?


O medo branco é que é o problema. A branquitude racista (tem diferença?) é que é o problema, e não eu com minha personalidade, meus modos e jeitos de estar na vida. O medo branco, motivado pelo racismo é que deslegitima ao desumanizar... Ter medo de mim é desumanizar-me. E a experiência da desumanização é muito comum à qualquer pessoa preta. Às mulheres negras é comum, cotidiana, repetitiva e incessante. “Todo lado. O tempo todo.” Estava lá o penico na minha cabeça. De novo. E de novo e de novo...


E, por todas as vezes eu tento me livrar do maldito penico. Outras tantas mulheres pretas vão, juntas, buscando formas de sumir, de vez, com esse penico de nossas cabeças... E aí, no meio da conversa, a Jô me disse que a faxineira, uma mulher branca, lhe ofereceu um pote de pasta de limpeza, e um pano sujo, após ela solicitar à ela que limpasse a parte de cima de seu armário, que estava imunda... “eu não alcanço aí, quando você puder, você mesma limpa.” Disse ela à Jô entregando-lhe o “material” de limpeza.


A faxineira branca foi mais sincera e corajosa do que as outras e outros todos brancos que circulam por nossas vidas quando acessamos alguns territórios onde antes não existia a presença negra. A faxineira branca disse, com a lata de pasta e o pano sujo, que ali não é nosso lugar! Disse o quanto lhe incomoda receber “ordens” de um corpo como o nosso. Disse o quanto lhe é desconfortável ouvir-nos em nossos espaços de poder  e legitimidade. Disse que nossa voz não é pra ser ouvida. Disse que em determinados territórios nós simplesmente não devemos existir.


A faxineira branca explicitou, em sua atitude racista, o que circula nos sentires de todos os outros que se calam, mas que não suportam que possamos decidir, que possamos não servi-los, que possamos não fazer do jeito deles, que possamos dizer não, que possamos saber mais, ser mais bonitas, mais inteligentes, mais engraçadas. Mais, mais, mais. Sempre intuí que racismo tem muita relação com inveja...


Num episódio de “Todo mundo odeia o Chris”, quando o protagonista decide parar de estudar, seu antagonista, que durante as quatro temporadas da série o perseguiu de maneira ostensiva e agressiva, o convida para um passeio. Espantado com a atitude, Chris pergunta o motivo, e Joey Caruso responde, em outras palavras, que agora que ele pararia de estudar, não seria mais uma ameaça, e que seu desejo de subjuga-lo provinha de uma admiração em relação ao seu potencial, que o mesmo, Caruso, não possuía. Talvez Chris Rock, o autor/roteirista da séria pense igual à mim...  


Invejosos ou não, o fato é que o racismo os faz não suportarem. Não suportam, mas, a maioria, principalmente nas instituições, se cala. E, no silêncio, lançam olhares, insinuam, limitam ações, impedem progressos, criam maledicências para seguirem nos deslegitimando e enchendo da merda racista deles os penicos que eles mesmos puseram em nossas cabeças...


“Cambada”! Diria Maria Joana, minha avó. E, certamente, seria chamada de raivosa, assim como tem branco lendo isso agora e chamando a mim de “agressiva”.


Se o velho preto, pai da Jô, aqui estivesse, poderia ver que muito pouca coisa mudou, mas que nós, os pretos e pretas, estamos avançando. Tão somente por nossa conta. Nós, por nós. E nada mais. Seguem nos matando, nos ridicularizando, nos enlouquecendo, nos apartando, nos adoecendo... Porque o certo é que não é diferente para nenhuma de nós! Maju, Jô, eu, Gilmara e todas as outras. Fartas de penicos sobre nossas cabeças! Cansadas de toda essa merda racista.


Mas a gente segue! Na bancada do jornal, nas salas de aula, em outros espaços de poder. Ainda poucas. Quase ausentes... Mas... Fortalecendo a voz, firmando o corpo e quebrando, nas caras deles, os malditos penicos.


Na minha cabeça, não! Na cabeça de todas nós, chega!

domingo, 6 de outubro de 2019

Com-Fraternizar e o que aprendi com o Tiago




Aproxima-se o mês de novembro, o mês que não sendo o derradeiro do ano é o que anuncia que, sim, o ano vai acabar! Um ciclo vai se encerrar como se fosse a última chance de providenciarmos um jeito de dar conta de todas as querelas do ano ainda em curso... E, nesse movimento de tentativa de correr contra o tempo, vem junto, de um monte de jeito diferente, as confraternizações.


Confraterniza-se na família, no grupo de amigos que estudaram juntos, com as vizinhas, com o pessoal da academia. Todo mundo que passa o ano junto começa, em novembro (alguns até antes). a programar as festas de confraternização. Não se sabe ao certo o que motiva cada um desses encontros comemorativos, mas eles acontecem, e se tornaram quase que uma obrigação ritualística pouco preenchida de significados.


E por falar em significados cá eu penso no de onde vem a palavra confraternizar e, vasculhando vivências e dicionários posso dizer que a palavra tem relação íntima com convívio fraterno. Dentre as definições originárias do latim, mesma raiz da língua portuguesa (ou seria língua brasileira?), vê-se que a palavra confraternizar , oriunda de conFRATERNItas, traz misturada em si a ideia de fraternidade, o que então nos leva a conceber que, em  sua formação léxica podemos defini-la como um encontro entre pessoas que convivem de maneira fraternal. Ao pé da letra, confraternizar significa, de acordo com vários dicionários disponíveis na internet, “conviver fraternalmente, tratar como irmão” e ainda, “comungar com os pontos de vista, as convicções, ou estado de espírito de alguém”.


Aí não tem jeito! Me vem uma gargalhada bem gorda quando penso em alguns grupos que, aberta a temporada de “fim de ano”, começam a se organizar para, juntos, celebrarem o ano que se encerra... Que cena triste sou capaz de visualizar...


O significado se esvazia diante do significante. O ciclo aproxima-se do fim e, nem mesmo a ideia de ciclo é compreendida pela maioria das pessoas que, por obrigação, se juntam em torno de uma festa com motivações natalinas. Aí então é que tudo piora... O natal, festa que deveria ter motivação sagrada para algumas pessoas, é usado, vivido e compartilhado apenas como dita a economia de mercado capitalista. Comer e comprar. Não importam muito os sentimentos envolvidos, não importa, sequer, a compreensão do momento como algo que, para algumas pessoas que professam determinada fé, é carregado de simbologias que envolvem, DE FATO, a fraternidade, o companheirismo e a comunhão.


Nada disso! No “script” das confraternizações de final de ano não está anotado NENHUM tipo de referência ao modo como foi vivido o ciclo que se encerra. Não importa. Importa é se juntar, gastar dinheiro, comer de maneira farta e só! Tão SÓmente SÓ. Em algumas dessas comemorações a sensação mais evidente que tenho/tinha é essa, uma solidão distribuída em várias performances solitárias e pouco carregadas dos sentimentos que remetem à fraternidade, à comunhão, à celebração da memória do ciclo que se encerra.


Viver os ciclos e ter a consciência deles é importantíssimo quando pensamos na caminhada dos grupos e da humanidade de forma geral. Ainda mais importante é compartilhar os ciclos também na perspectiva de compreender o que deles se sorve, se estrai, se impregna no corpo para anunciar-se ao novo movimento que não cessa na partida de um, e na chegada do outro. Porque ciclos não são lineares. Ciclos são circularidades repletas de ires e vires que nos dizem muito de nós, de onde estamos, com quem estamos e, para onde queremos ir!


E nessa conversa toda me acompanha a memória de Tiago... Tiago Adão Lara! Meu amigo, tão amado e tão querido que, na semana passada cumpriu, de maneira brilhante, seu ciclo de vida na terra e partiu para a vivência irmanada com a infinitude do universo.


Pensando nas pessoas que se juntam por obrigação, pra cumprir roteiros, para agradar o chefe, e para se integrarem à ditadura do capital sobre os corpos e os sentimentos, me recordo das inúmeras confraternizações, de fim de ano ou não, em que tive a alegria e a honra de estar ao lado de Tiago e de tantos amigos e amigas com quem eu vivi (e vivo!) ciclos de fraternidade, ternura e comunhão. Sempre tendo em mente que viver fraternalmente não significa DE MODO ALGUM viver na ausência do conflito e da discordância...


Recordo-me do tanto que aprendi com Tiago e com pessoas como ele sobre o significado da partilha. O significado de se emprenhar de vida e de se afetar por ela! O significado de encontrar-se com e na outra, e de fazer desse encontro a prática do cotidiano, não se prendendo às datas impostas para a vivência e a expressão dos afetos. E aí, recordando essas confraternizações de fim de ano, que  pra muita gente mais parecem sofrimento e desconforto, do que expressam a alegria do encontro, me lembro também de Tiago dizendo à mim, numa determinada ocasião, que o mais importante do processo é a avaliação do processo, antes que outro se inicie.


Naquele contexto cabia bem a palavra avaliação, mas se eu pudesse agora conversar com o Tiago sobre esse texto, arrisco-me a dizer que, provavelmente, ele diria que o mais importante do ciclo é olhar para ele refletindo o tanto de vida que ele carrega, e como é/foi vivida a vida que está nele...


Lamento os ciclos que se encerram sem serem olhados, refletidos, aprendidos para a significância de novos ciclos... Lamento a pasteurização do ato de celebrar e de promover encontros... Lamento a total ausência de reflexão sobre os significados presentes na potência da vida cotidiana...  Lamento o tanto que se perde, que perdemos a oportunidade da fraternidade. Lamento o encontrar-se apenas para o cumprimento de uma agenda imposta.


Lamento, porém celebro a alegria de buscar-me nessa vida em meio à explosões de encontros repletos de significado, de alegrias, de saberes, sabores e sabenças me comprometendo a romper, o quanto me for possível, com tudo aquilo que anuncia o esvaziamento do potente significado do encontro, do ciclo e da confraternização. Da vida! Aprendi tanto, tanto, tanto da vida com o Tiago que nem tenho a pretensão de aqui tentar dizer tudo o que sendo meu, de Tiago veio...


Grata, Tiago... Grata por tanto aprendizado nas muitas oportunidades de viver, corajosamente, a fraternidade. Sigo COM - FRATERNIzando ao seu modo, e em Ti, meu amado amigo! Potente... Corajosa... E revolucionariamente!

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Aquelas que não dão e não seguram a mão de ninguém



“Comendo” Quintana dedico àquelas
Que feias, passarão. Enquanto eu cá, Passarinha!


Escrevo tendo em mente algumas pessoas, mulheres, a maioria, com quem tenho que li(dar ...) e reflito sobre seus corpos retesos que anunciam um modo de estarem na vida. Não estando. Não entregando. Não dando. Elas não dão. Sabe gente que não dá? Então. São elas!

Mas cá você aqui! Não se iluda pensando que cá eu estou aqui falando do dar da convencionalidade. Sim! Penso em pernas, suores, fluidos, entradas e saídas, mãos, gemidos, odores, sussurros, gritos, afagos, puxões, mordidas, melodias e palavrões que não se encerram na genitália de um sexo prescrito e descrito.

Penso nisso sem reter-me nisso para não transformar-me naquelas que acreditam que quem vive sem sexo não vive, como se vida fosse genitália, vibrador e orgasmo. Mais! Como se um desses estivesse subMETIDO a qualquer outro desses. Como se outro só existisse pela via do um. Penso nisso repousando o pensamento em quem dá para além do sexo, e tem o sexo como apenas uma das formas de dar. Ou de comer. Ou de tudo ao mesmo tempo. Ou de um de cada vez.

Dar. Penso em dar pensando naquelas que não dão. Não dão porque não experimentam fluxos, fluidos, idas e vindas, suores e palavrões. Não dão. Isso. Simplesmente não dão. Podem ATÉ fazer sexo. Mas não dão porque não se dão, não misturam no entra e sai que a vida dá. É sim. A vida dá! Adora dar! Sabe dar! Mas elas, as feias,  elas não. Não dão pra não bagunçar o cabelo e pra não perder o controle do corpo reteso. Arrumado. Cheiroso. Penteado. Impecável. Porque uma coisa não tem nada que ver com a outra. Corpos desalinhados nem sempre anunciam desajustes diante do que a vida dá. Ou come.

Mas elas, essas feiosas, não entendem! Não entendem nada sobre dar! Sobre abrir as pernas, o corpo, a mente, a alma. Nada se abrem, as feiosas, porque ao abrirem-se o entra e sai pode tomar conta, e diante do entra e sai nem sempre há controle de ritmos, fluidos, sussurros e orgasmos. Porque orgasmo descontrola, porque orgasmo tensiona e alivia, tal como é a vida. Tensão e alívio.

Tanto não entendem que dia desses vi numa dessas bocas que não sabem dar, o lema de uma ação de resistência diante de uma prática do período da ditadura militar brasileira (entre o início dos anos 1960 e meados dos anos 1980) “ninguém solta a mão de ninguém”. Que mão? Que mão seguram? A quem protegem suas mãos? A quem afagam? A quem se dão?

Logo após as desastrosas eleições gerais brasileiras de 2018, um grupo de estudantes da USP se reuniu num dos pátios da entidade para ouvirem três intelectuais: Vladimir Safatle, Marilena Chauí e André Singer  falando sobre os possíveis rumos do Brasil diante da ameaça fascista. Em sua fala, Chauí narra o contexto que fez nascer a frase/lema “ninguém solta a mão de ninguém”. Segundo contava, havia uma prática recorrente da repressão, quando, em meio aos estudantes, em locais como salas de aulas, ou qualquer outro ambiente fechado, apagarem as luzes e desaparecerem com pessoas antes que a iluminação retornasse. Como resistência à isso, os grupos começaram, então, a darem-se as mãos e repetirem a frase “ninguém solta a mão de ninguém” para então se protegerem dos “sumiços” provocados pela repressão.

Diante da narrativa de Marilena já posso dizer que, quem não dá, não entende nada do que é, de fato o “ninguém solta a mão de ninguém”. E se não entende não está autorizada a sair por aí anunciando-se como parte disso. Não soltar a mão da outra, do outros, e deles todos vem de um lugar que, primeiramente, demarca resistência e opção política! Quem estava ali resistindo ao sumiço de mãos dadas com o companheiro (aquela que come o pão junto), o estava por colocar-se em oposição à uma determinada lógica de gestão do Estado e da democracia...

Quem estava ali, na escuridão, segurando a mão que estava ao lado, estava, na verdade, dando a mão para a possibilidade da democracia, do direito, da denúncia ao abuso de poder e à violação da vida. As mãos dadas no escuro eram muito mais do que um desenho em preto e branco circulando por bocas de corpos que não sabem dar!

Dar-se a mão no escuro buscando a sobrevivência de todo mundo é uma atitude de quem sabe dar! De quem abre as pernas, a mente e a alma! De quem se entrega aos fluidos, sussurros, gritos, ao ir e vir, as entradas e saídas, aos tremores, aromas e tensões aliviantes. Para não soltar a mão é preciso, primeiro, pegar na mão, oferecer a mão, esfregar uma mão na outra, entrelaçar os dedos no desejo de alinhavar as vidas.

Quem não sabe dar não consegue fazer isso! Não segura nada. Não entende nada. Não se atravessa por nada, porque não se abre em nada. Fica feia. Não feia porque não tem sexo. Ás vezes até tem. Feia porque nem no sexo consegue dar. Se dar. Se trepar. Se gozar! Feia. Elas feias porque não encontram corpos que se seguram no escuro de mãos dadas, se dando uns aos outros. Entre falas, lambidas, vozes e desejos! Desejo que move os corpos em direções diversas nessa movimentação de dar! Dar, ao outro, à outra, com o outro.

Antropofagizar os desejos que nos cercam só é possível a quem sabe dar. Dar-se. Se dar! E dando, abrindo-se no entra e sai é que mora a potência de não soltar a mão de ninguém, porque essas mãos já passaram pelos corpos úmidos dos fluidos e suores de quem se dispõe a encontrar-se! A afetar-se! A atravessar-se pela outra!
Só quem dá gostoso é que sabe o jeito certo de segurar a mão da outra no escuro que ameaça, e que no junto liberta! Só dando é possível compreender que antes de não soltar a mão é preciso tê-la estendida na direção da vida que salta dos muitos corpos que nos cruzam o caminho.

Elas feias não sabem dar. Retêm-se em corpos hirtos, morridos achando que vivem. Repetem a frase que Marilena explicou “ninguém solta a mão de ninguém” sem olharem-se, nem diante do espelho, porque o espelho delas não reflete o além dos corpos, para compreenderem que, na verdade, por não saberem dar, não seguram a mão de ninguém.

Não são nada! Só corpos retesos, arrumados, aromatizados com as mãos abanando. Vazias de dar-se... Ao vento, repetindo frases sem atravessar-se por elas.

Uma pena. Coitadas delas... Feiosas. Passarão... Nunca, Passarinhas... 

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 2






E cresci assim! Compreendendo que meu lugar no mundo não viria, jamais, sem trabalho, alegria e resistência. Fui andando por esse tal mundo com a “régua e o compasso” que me deram em casa, e deles fui traçando as descobertas variadas sobre a aventura dolorida, e também libertadora, de ser e se compreender mulher negra no Brasil... Não há distinções. Todas somos talhadas no mesmo martelo de ponta firme batendo sobre nossos existires. E assim fui aprendendo e, dia a dia construindo, refazendo-me e descobrindo-me em várias ocasiões, mulher negra. Porque essa identidade não está terminada e vai se construindo nas interações que o racismo e o antirracismo promovem. Enquanto essa faca está apontada para nosso peito é  nos desviando dela que a gente se transforma naquilo que a gente é, numa mistura com o que querem que sejamos. Não há muitas escapatórias... Se nos libertamos, até o dia de quebrar as correntes somos também aquilo que inscrevem em nossos corpos. Se não nos libertamos, nossos corpos são apenas a escrita do que dizem que somos...

E fui sendo assim, muito das tintas de Carminha e Expedito, outros tantos dos coloridos de minha família enorme, e traços variados dos discursos que a branquitude criou para as negras, e que acharam contornos próprios quando de/ao encontro de minhas vivências. Lá na escola católica de gente branca e rica em que eu estudava, as interações eram diversas. Não fui infeliz durante todo o tempo que passei por lá, de igual modo não existem só histórias boas e calorosas para serem contadas, mas não tenho memórias de assédios racistas para narrar, não porque não existiam, mas porque Carminha e Expedito estavam sempre atentos me dando a “régua e o compasso” para o enfrentamento, e demarcando seus próprios espaços de pessoas negras entregando a única filha à um cotidiano branco. “Não grite com ela, Tia Fulana, ela não está acostumada com gritos! Lá em casa ninguém grita com a Giane!” Não eram melhores, mais espertos, mais audazes, eram uma mulher e um homem negros construindo, pelos saberes de sua coletividade, as possibilidades de suas escolhas individuais. Universais e únicos. Pretos buscando e encontrando caminhos de existirem em meio aos interditos, violências e silenciamentos. Que não foram poucos. Não são poucos...

E entre a libertação e a submissão há inúmeras possibilidades. Que não são mais e nem menos, apenas possibilidades que são tantas quantas são as pessoas negras que existem em diáspora. É importante nos referenciarmos de maneira coletiva para que os enfrentamentos sejam sistematizados, principalmente em termos de garantia e promoção de direitos. Mas, não somos uma massa uniforme de experiências únicas. Bell Hooks fala da possibilidade de Madonna ser racista a partir do lugar que é o de uma mulher negra vivendo no norte do mundo, com experiências outras que nem temos conhecimento. E esse lugar não é o mesmo de Giane Elisa, que é uma mulher negra vivendo ao sul do mundo. Ela e eu temos experiências diferentes e isso não é um problema. Ao contrário! É a diversidade de nossa unicidade diante do racismo, que talvez possa nos apontar caminhos diversos no enfrentamento à ele.

Naquela sociedade é provável que Madonna seja só uma mulher branca sendo branca com suas branquices, para mim, e não falo em nome de todas as negras de minha geração (não mesmo!), Madonna é uma referência na MINHA possibilidade de afirmação enquanto mulher. Porque sim. Eu sou negra definida pelos estratagemas do racismo, mas sou também mulher definida pelas nuances do machismo. E Eu Negra sou ainda outras experiências que só se constroem na interação desses dois pertencimentos, e ainda, sou também resultado das interações que podem ser fruto apenas de minhas experiências. E importante dizer, sou fruto de minhas escolhas, porque mesmo escassas, limitadas, comprometidas e afetadas pelo racismo, sim, nós temos escolhas.

E nessas experiências guardadas na memória tem a casa da minha madrinha Maria Benedita onde a Cláudia, minha prima, tinha um disco azul da Madonna, que eu peguei emprestado e nunca mais devolvi. Fiquei fã! Fã da música, dos ritmos, das coreografias que apareciam no Fantástico, e mais tarde, nos  programas de tv do primeiro canal especializado em música do qual tive notícias... Fã. E hoje, quando olho a trajetória que me constituiu a mulher negra que sou, não passo despercebida pela Madonna, apontada pela Bell Hooks, como suspeita de ser mais uma branca racista disfarçada de lutadora das causas negras. Foi essa moça loura, que morena, apresentou em um videoclipe, no final dos anos 80, um Jesus negro, que incendiou minha vivência católica,  que na época, era praticante, militante e atuante. Não era mais um homem branquelo de olho azul, que falava das coisas que eu, cristã da Teologia da Libertação, cresci ouvindo. Era um homem preto, que parecia com meu primo/irmão Elcio, e que se libertava do sacrário para interagir sexualmente com uma mulher. Hoje sei que, como mulher branca a personagem do clipe trazia em si o racismo inerente da condição social que a branquitude constrói pra si, cultivando privilégios e acalentando uma gigantesca falta de limite e de noção quando o assunto é a compreensão de seu lugar na produção do racismo. Sendo branca, a Madonna racista é. Não tem discussão.

Hoje tenho elementos para, ao ver o clipe Like a Prayer, compreender a objetificação do homem negro. Mas, do mesmo modo, não tenho como não admitir que leio aquele tempo em minha história como um despertar de apropriação do meu próprio corpo! Corpo negro, talvez compreendido pela branquitude como território liberado... O imaginário branco de que com as pretas tudo é sexualmente permitido... Diante desse imaginário lembro de mim e Simone saindo, numa noite de sábado para encontrar com minhas amigas de escola num território de lazer esmagadoramente branco e Carminha, na porta de casa, dizendo “não vai deixar que tratem vocês como empregadinhas, não, heim?”.

Falava dela própria, das memórias de sua juventude quando ainda era ela a “empregadinha”. Sabia o que era ser “empregadinha”, o que era ter o corpo numa imagem de constante disponibilidade para o deleite de brancos... Tem isso na minha história e nas memórias atávicas que me fazem ser eu, mas não tem isso na minha experiência. Eu Negra vivi meu corpo num espaço escolar que nem corpo as mulheres podiam ter. Não se falava, não se tocava, não podia haver experimentações. E muito menos prazer! Corpo era aprendido como interdito e, talvez, nessa interdição era o único lugar onde as brancas e as raríssimas negras se encontravam...

Madonna mergulhada nos braços de um monte de homem branco em “Material Girl”, ou insinuando beijar a boca de um Jesus negro, ou ainda se esfregando numa cama com um peito de cone, foi parte do que trouxe até mim um corpo  vivido como trilhas de prazer. Não só prazer sexual, mas prazer de auto pertencimento, prazer de permissão de poder ser para além do que estava dito que podia ser, prazer de se tocar, de permitir ser tocada... E gostar! Eu Negra, filha da Carminha gorda, que por várias vezes escutei dela “homem que quiser gostar de mim tem que gostar é gorda mesmo”, encontrei eco numa experiência pop, de um corpo branco de padrões bastante mercadológicos. Foi em “The Girlie Show” que, vi, ao vivo, vários negros e negras compondo o grupo de bailarinos de Madonna e tomando o palco com seus corpos e experiências negras. Mercadológicos todos, mas pretos, não todos, mas também não era um só dançando com a loura. A vida de novo! Contraditória. Sem receitas! E é essa contradição, essa dobra em minha experiência que me motiva refletir a trajetória que fez de mim a pessoa que sou! Eu Negra. Negra apenas. Nem mais negra, nem menos negra. Apenas negra. Eu Negra. Cheia de tantas outras coisas de mim, sobre mim, comigo e em mim!

Contradição nem sempre é bom, mas, sem dúvida, é sinal de que a vida existe. Ás vezes espalha-me a sensação de que há um manual de ser negra. Um único modo para todas. Comprometida. Engajada. Negra de verdade. Nesse manual há os manuscritos da tonalidade adequada de pele, do tom exato das experiências, do texto recomendado da inserção no mundo. Há o que pode e o que não pode. Sinto as circunscrições, interditos e prescrições como inerentes ao modo como o próprio racismo se arranja criando dicotomias e confusões de sentido e sentires. Uma dessas dicotomias está assentada nos diversos pertencimentos que várias de nós temos, porque temos possibilidades diferentes de afeto, que é dado e recebido, temos possibilidades diferentes de localização na produção do mercado capitalista, temos vivências diferentes ao longo de toda nossa trajetória. Porque nossa experiência não é determinada somente pelo racismo. Embora seja grande determinante do modo como nos constituímos, outras coisas e dimensões constituem nossas trajetórias, e todas elas precisam ser lidas sem simplificar nossa experiência num único dado de nossa existência. Um dado importante e inconteste é esse: a experiência de mulheres negras norte americanas, como Bell Hooks, não é a mesma experiência de nós mulheres negras brasileiras. A experiência do racismo em nós mulheres negras brasileiras não é compartilhada, sentida e vivida do mesmo modo por todas nós em diáspora . Há consciências de lá do norte, que jamais existiram aqui. Há resistências daqui que sequer são reconhecidas por lá.

Aqui me lembro de uma fala de Chimamanda Adichie, onde ela discorre sobre o perigo da história única. E cá, avalio o quanto de único há nas muitas mulheres que hoje temos a liberdade de ser! Sim, porque é sempre bom lembrar que para que eu esteja aqui, sentada no meu apartamento confortável escrevendo para um blog, um tanto de outras mulheres pretas antes de mim vivenciaram experiências que nos olhos desse tempo podem não soar tão libertadoras. Mas é isso! A história é um caminho sem linearidade e composto de várias reentrâncias e contradições. O miúdo dos dias pode trazer para várias de nós uma infinidade de possibilidades de (des) afirmação que talvez nem ainda possamos alcançar tamanha a dimensão.

Cresci junto de brancos, frequentando lugares de brancos, criando laços, desejos, afetos por brancos. Não vivenciei nenhuma experiência de miséria ou privação, e não vivi em um lar demarcado pela violência concreta ou simbólica. E isso não me fez menos negra! Na minha história, nem menos negra pela constante lembrança de Carminha e Expedito sobre o meu lugar de origem, nem pelo modo como o próprio mundo dos brancos ia prescrevendo as limitações impostas ao meu corpo negra. As experiências que podem não ser semelhantes à da maioria das negras, não me livraram de ser alvo do racismo em suas inúmeras nuances e facetas. Também fui, (e sou!!!) de modos vários, martelada em meus existires. E não é aceitável que outras tantas como eu sejam enxergadas como menos vítimas á sanha do racismo.

         E meus olhos de hoje olham para algumas dessas experiências com vontade de colocar fogo em várias pessoas, mas a memória, que como diz Quintana, tem nas mãos uma caixa de lápis de cor, me leva a olhar também os afetos daquele tempo. Os encontros, as trocas, as risadas, as interações. Bem sei que poucas de nós experimentaram, na infância e adolescência escolar vivenciada junto aos brancos, trocas e afetos positivos. Mas é isso. Somos várias de variados tons coloridos pela vida. No meu tom tem, sim, os afetos que naquele tempo eu vivia como sendo meus, para mim, comigo. E eles são parte da mulher negra que sou, porque me constituo também pelo modo como transitei por minhas afetividades. Eu Negra.

Transito em minha pele sem nunca dela sair! Encontro-me sob meus poros exalando de cada encontro os encontros outros que se fizeram em mim libertando-me da pele como apenas um cárcere, mas território de liberdades que não foi me dada por NENHUM branco. Mas a verdade é que nas teias dessa identidade há olhos, mãos, pés, suores, fluidos, peles, vozes de pessoas brancas. A Madonna, as amigas, o Paulo Freite, o Augusto Boal, as referências. O possível. Nem sempre com a chibata na mão, nem sempre sem a chibata na mão. A branco o que é do branco, porque existem, sim, brancos, bem poucos é certo, construindo igualdade racial e pareados a nós, no corpo branco deles, no enfrentamento ao racismo. Nada fazendo além do que deveria ser a obrigação de TODOS eles. Mas fazendo. Na minha experiência de Eu Negra, Madonna é uma dessas brancas, e não a sinto como sente a Bell Hooks porque eu e Bell Hooks não somos a mesma pessoa, e nossos pés pisam em territórios diferentes na vivência de nossa negritude. Universais e únicas.

Eu Negra que me construo nesse Brasil de relações não ditas, de discriminações silenciadas, de vivências negras fartas e repletas da crueza evidente que o racismo constrói. Que não é velado. Não é sutil. É escancarado, covarde na tentativa de se esconder,  sórdido e cínico no modo como se mostra, porque se apresenta no meio de bons afetos que SÃO reais... A empregada doméstica negra que não abandona a família branca, mesmo submetida à um sub status de humanidade. Nem sempre é só pela sobrevivência. Ela gosta, se afeta, se envolve, se identifica, não com o algoz, mas com um sentir que PARA ELA é real. Não é síndrome de Estocolmo. São tão somente e grandemente as relações raciais brasileiras... O racismo que a desenha tem a mesma cara feia e branca mundo a fora. O modo, os instrumentos de vivencia-lo são bastante diferentes no emaranhado que, fio a fio, tece cada uma de nossas trajetórias. Nós Negras.

Eu Negra Diaspórica compartilhando a dor e a solidão com tantas outras negras também. Eu Negra Diaspórica levando em minha pele de muitas a singularidade das minhas experiências únicas, dos meu sentires possíveis, construídos, encontrados entrelaçados, feitos, desfeitos, refeitos. Eu Negra Diaspórica. Fã da Madonna, cepa da Maria Joana... Várias em mim, eu nelas. Eu Negra Desenhada por tudo e todo mundo que antes de mim veio, que comigo encontra. Eu Negra. Filha da Carminha e do Expedito. Eu...


domingo, 16 de junho de 2019

Eu Negra - Parte 1




Essa semana Madonna lançou seu 14° álbum! Eu, fã desde os 13, 14 anos de idade, ouço cada faixa e me encanto com a versatilidade e originalidade dessa mulher! Não só como artista, mas também como cidadã do mundo. Aí, na empolgação de compartilhar com algumas pessoas, também fãs da “blond ambition”, me deparei com o texto de Bell Hooks, famosa intelectual feminista negra norte americana discorrendo sobre os vários comportamentos racistas de Madonna ao longo de sua carreira. Segundo Bell, carreira marcada, dentre outras coisas, pela apropriação da cultura negra travestida de  suposto comprometimento com as “causas” negras... Uma irritação inicial, e logo em seguida a avaliação de que várias críticas da intelectual têm, sim, fundamento, o que para mim nem se configura como um grande choque ou surpresa. Madonna é uma mulher branca. Ponto. Pessoas brancas, em virtude da construção social de nossas sociedades, são, a priori, racistas. Assim como a sociedade que me construiu mulher cisgênero heterossexual me faz, a priori, LGBTTQI+fóbica. É assim que é.

Mas não é o racismo de Madonna ou a discussão se ela é ou não uma branca boazinha que me traz aqui. Quero falar de mim. Eu Negra. Eu que vivo sob uma pele preta, experimentando as nuances e dobras que o racismo oferece. Eu Negra. Mulher. Eu que vivo num corpo marcado pelas imposições do machismo, do sexismo e de todas as regulações que eles constroem para a experiência de TODAS as mulheres. Eu Mulher Negra. Eu que carrego em minha trajetória os traços de como a intercessão desses pertencimentos se transforma em experiências de construção identitárias invariavelmente identificadas com a dor e a solidão.

E eu Mulher Negra quero falar disso. De trajetória. Da única trajetória que conheço e sinto por inteiro. A minha. Os meus passos nesse mundo desenhando a Mulher Negra que sou hoje, os passos que encontrando com outros tantos me desenham em inúmeras possibilidades que fazem de mim ser quem eu sou. Com dores e alegrias. Com interditos e possibilidades. Eu. Negra. Mulher.

E, foi a partir das considerações que li sobre Madonna, que outras considerações foram sendo tecidas de mim sobre mim. E já aqui a estranheza pode ser localizada, na medida em que é a crítica à um corpo branco que me move na tentativa de refletir minha trajetória negra... A vida. Cheia de reentrâncias e contradições.

Sou filha da Carminha e do Expedito. Isso, para quem os conhece explica boa parte dessa conversa e, para quem não os conhece apresento aqui alguns pontos que julgo definidores de variadas questões sobre minha identidade. Identidade que é só minha, mas que se atravessa na construção de outras tantas vivências de mulheres negras diáspora brasileira á fora.

Carminha era a caçula de sete filhos, nasceu sem pai, com uma mãe, Maria Joana, que pouco tempo depois de viúva se enamorou, e grávida, decidiu deixar a pequena cidade onde viviam, fugindo de maledicências e falatórios. Carminha foi criada entre trouxas de roupas e restos de feira e, dali, foi se transformando numa jovem sonhadora e aguerrida. Sem romantismos de minha parte... Carminha foi militante na igreja católica e, como empregada doméstica, estava junto das primeiras organizações dessas trabalhadoras. Correu da polícia, empunhou bandeiras e, nos meus guardados, há muitos registros fotográficos de passeios, piqueniques, bailinhos e até de show de calouros. Carminha era fã de Emilinha Borba e, em todas as oportunidades ia para o Rio de Janeiro acompanhar a cantora na Rádio Nacional. Estudou até onde pôde e concluiu, já adulta, o segundo grau. Nas palavras de minha avó, Carminha era a que “ninguém podia  com ela.” Um dia ela conheceu o Expedito.

Já Expedito não era das badalações. Nasceu na roça, ficou órfão muito cedo. Primeiro do pai e, logo em seguida, de uma mãe, que até hoje não se sabe ao certo como morreu... Há quem diga que tomou remédio errado, o curioso é que era mateira, sabia das coisas... Era também, segundo contam, uma mulher muito bonita, formosa e empregada numa fazenda no interior de Minas, lá de um tempo, não muito longe, onde os fazendeiros ainda se comportavam como “donos” de seus empregados. Sei lá se isso, mudou... O fato é que Francisca morreu, sem muitas explicações, pouco depois de seu marido Augusto, e deixou pra trás sete filhos, dentre eles, o Expedito, que aos três anos de idade, ao contrário de meus tios e tias mais velhos, teve a sorte de ser mandado para a família de uma tia. A avó paterna que conheci, Sebastiana!!! Uma preta, muito preta, que amava o Expedito um tanto que nem sei, e eu bem desconfio que esse amor tinha muita relação com o fato de Expedito ter a pele mais clara em relação aos irmãos, e o cabelo menos crespo se comparado ao restante da família... Também eu, era a neta mais amada... Expedito foi criado por um pai que, segundo ele, “adorava bater mas era amoroso”, Expedito viveu uma infância pobre e acolhedora. Já adolescente foi jogar futebol no time lá da roça e, por causa das cores da camisa se tornou torcedor do Botafogo. Não pôde estudar para além do curso primário que a escola da roça oferecia, e veio cedo trabalhar em Juiz de Fora num armazém, fazendo entregas. Bem jovem conheceu a Carminha.

Formaram um casal e juntos construíram uma vida. O Expedito quase dez anos mais novo que a Carminha, e muito cobiçado por várias jovens, inclusive as da família para a qual pretendia entrar. A Carminha bastante fora dos padrões da moça casadoira. Se sustentava sozinha, era gorda, gostava de estudar, vivia metida com política, namorava bastante e, na falta de calçados femininos que coubessem em seu pé gordo, usava os masculinos mesmo que, quase sempre, “herdava” de seu patrão.

Expedito assumiu as bandeiras, a família extensa, as muitas amigas. Os dois fizeram de mim uma menina negra consciente de minha negritude: “podem te chamar de neguinha, de pretinha, só não podem te chamar de macaca.” Proporcionaram à mim um lar repleto de diálogo, possibilidade de escolhas e liberdades que poucas meninas à minha volta puderam experimentar, sem ter junto conflitos e confusões... Carregavam-me para tudo que é tipo de movimentação política em que estiveram envolvidos. Das belas imagens que minha memória guarda tem eu, nas costas de meu pai, assistindo, em minha cidade, o comício das Diretas Já! Ou eu, junto com minha melhor amiga branca, a Sandra, sendo levadas pelo Expedito para o comício de Lula, na primeira eleição direta pós ditadura militar. Me ensinaram disciplina, responsabilidade e amor... Amor pelas gentes, pelos animais, pelos livros, pela música. Pela vida! Carminha adorava viver! Decidiram como principal investimento a minha educação, proporcionando uma das melhores escolas da cidade e várias outras possibilidades de construção humana e estética: música, teatro, esportes, dança... Acompanharam tudo de perto, por várias vezes denunciaram o racismo na instituição em que eu estudava, e em espaços em que eu frequentava, para que eu fosse protegida. E sempre, sempre incentivaram-me a enfrentar a discriminação racial, mesmo quando nem davam esse nome para as vivências que compunham a vida das pessoas pretas. Jamais, por minhas possibilidades diferenciadas de uma criança e adolescente de classe média, me afastaram do convívio de minha família pobre, preta, significativamente periférica: “você tem que ir nos lugares onde suas primas vão.”

         Eram parceiros, presentes, comprometidos e eu, NUNCA ouvi de um com outro um grito que fosse. Discussões e desentendimentos existiam, mas nunca, na minha presença, descambaram para humilhações e desmerecimentos. Cuidaram-se! Compartilharam-se! Viveram juntos por 32 anos e, até o último momento, foi ele quem cuidou dela, foi ele quem esteve do lado acompanhando os últimos anos de vida... E, nas últimas horas, quando a respiração já ia embora, nos momentos em que Expedito se aproximava de Carminha, no leito da UTI, o monitor cardíaco apitava numa contagem disparada... Amor até literalmente o fim. Estive lá, com eles, durante toda minha vida com ela, e no momento da despedida... Esse, triste... Porém, repleto de ternura, cuidado, sensibilidade e força.

Foi essa família que me trouxe ao mundo. Foram essas pessoas que costuraram os primeiros e mais importantes fios tecendo a mulher que sou. Eu Negra Mulher diaspórica sou fruto dessa história (bem resumida) e carregada de significados. Vim de uma mulher que não aceitou sobre si muitas imposições, que transgrediu no corpo, no cabelo, no figurino e nas atitudes diante da vida. Ela veio de mulheres que de algum modo a fizeram assim. Vim de um homem negro doce, sensível, comprometido e amoroso. Essas pessoas estão em mim.

Defeitos vários os dois tinham, e eles também me escrevem, porém, a escrita da vida que meu corpo carrega é essa, de ternura, força, coragem, amizade, diálogo, entrega e amor! Um imenso e indescritível amor que sinto exalar por minha pele preta em diáspora. Aqui, começo a tracejar os caminhos que me trazem nesse percurso reflexivo sobre minha memória. Minha apenas. Não única! Minha. Potente e não livre das artimanhas, corruptelas e estratagemas do racismo. Racismo brasileiro. Único no mundo e universal para todo mundo que é preta.

Vem junto! Daqui a pouco, na próxima postagem, te conto mais e tu vai saber o que o álbum novo da Madonna tem a ver com isso... Inté!